André Valério Sales[1]

 
“só uma criança não tem consciência das misérias dos outros” (Augusto Cury, 2005).

 
    Introdução:

 

            O presente estudo de caso refere-se à qualidade do atendimento médico psiquiátrico aos usuários dos serviços à saúde no município de Arez/RN. Até este momento da pesquisa foram contactados 39 médicos, enfermeiros e odontólogos e cerca de 30 pacientes[2].

De início, para tratar do caso da necessidade premente de médicos Psiquiatras em Arez, cidade que precisa de pelo menos dois destes profissionais para dar conta da grande demanda, a pesquisa empreendida por nós revelou também a necessidade da existência de Psicólogos ou Psicanalistas que ajudem a acompanhar os casos mais leves, iniciados pelos psiquiatras e que se manteriam sob sua supervisão. É preciso ressaltar que foi contactada e depois ouvida a então psiquiatra do ESF 4, no Centro de Saúde Manuel da Costa Souza, Dra. Simone Salgado, e mais um psiquiatra de Natal/RN, com décadas de experiência, além das citadas 30 pessoas pertencentes às comunidades atendidas.

            Dra. Simone Salgado também foi ouvida ao fazer duas consultas diretamente ao pesquisador, contribuindo enquanto pesquisada e enquanto médica em atendimento. O psiquiatra natalense foi ouvido e também consultado enquanto médico em atendimento.

            Resultou dos referidos contatos: não somente a necessidade da urgência de pelo menos dois psiquiatras atendendo à população que os demanda em Arez (lembrando que a cidade está em processo de desenvolvimento e que o número de habitantes vem crescendo com o tempo); mas também, por sugestão dos médicos ouvidos, a importância de que o município ofereça psicólogos (ou psicanalistas) para os usuários da psiquiatria que possuem problemas menos graves de distúrbios psicológicos, não necessariamente precisando tomar medicamentos, mas, pacientes que demandam apenas diálogos – pois vivemos num tempo em que as pessoas são carentes de atenção –, diálogos estes que podem ser levados a cabo por psicólogos (por exemplo: atendimentos psicológicos ou psicanalíticos como práticas longas, contínuas; ou psicoterapia breve, dependendo do caso), sempre acompanhados pela supervisão de um médico psiquiatra.

 

    Esclarecimentos do tema a partir das ideias do psiquiatra Augusto Cury:

 

A Prefeitura ao agir assim, unindo o trabalho de psiquiatras ao de psicólogos ou psicanalistas, ajudará a desafogar o grande número de atendimentos necessários aos pacientes que lotam a procura pela psiquiatria na cidade.

Na verdade, a partir das ideias de Augusto Jorge Cury, há pessoas que precisam apenas ser ouvidas por um profissional, desabafar seus problemas e receber um apoio, dialogar com um psicólogo, ou com ele(a) aprender técnicas de relaxamento ou de convivência social, e não necessariamente de atendimento psiquiátrico, nem de uso de medicamentos de “tarja preta”.

Augusto Cury assinala, em seu livro O Mestre dos Mestres (2006), que para um futuro próximo, os psiquiatras projetam que um excelente médico será “um profissional menos ávido por pedir exames laboratoriais e prescrever medicamentos e mais interessado em dialogar com seus pacientes, [será] alguém com habilidade para penetrar no mundo deles, detectar seus níveis de ansiedade e ajuda-los a superar as dores existenciais” (pág. 49, grifado por mim). Ainda enfatiza Cury que “o diálogo em todos os níveis das relações humanas está morrendo. As relações médico/paciente/ professor/aluno [etc.], (...) carecem frequentemente de profundidade” (idem: pág. 65).

Cury ainda constata que muitas pessoas vão ao psiquiatra ou psicólogo “não porque estão doentes, ou pelo menos seriamente doentes, mas porque não têm ninguém para conversar abertamente sobre suas crises existenciais”. Não se discute que “é difícil falar de nós mesmos. O medo de falar si” mesmo está ligado “à dificuldade de encontrar alguém que tenha desenvolvido [e seja preparado para] a arte de ouvir”. Esta arte de ouvir é, dessa forma, “uma das mais ricas funções da inteligência” (idem: pág. 145, grifos meus). Por isso a urgência de que a Secretaria de Saúde de Arez promova a complementação em seus quadros com os profissionais desta área que a demanda populacional requer.

Observamos, portanto, que sem a ajuda de outros profissionais da área, no caso de Arez especificamente, os psiquiatras vem trabalhando sozinhos, sem outros apoios possíveis, e têm uma demanda sempre alta de usuários destes serviços, acarretando uma superlotação de pacientes para os médicos que poderia ser dividida com psicólogos, presentes nas Escolas e nos Postos de Estratégia de Saúde da Família.

Sabemos que o usuário da área da Saúde, e principalmente os que padecem de transtornos psicológicos, esperam do atendimento médico: gentileza, calma durante os diálogos, simpatia e até mesmo, bom humor! Como no Brasil a situação do trato com a demanda médica na área da saúde está mais para caótico do que para modelo suíço ou sueco, já é feliz quem consegue ser atendido por profissionais calmos e gentis... Apesar de tudo, sabemos, segundo o ditado popular, que “abaixo de Deus vêm os médicos”, e os usuários ouvidos pelo pesquisador repetiram, implicitamente essa máxima, ou seja: ao serem perguntados sobre a qualidade da atenção médica, ninguém reclamou de problemas. O psiquiatra Cury afirma, em seu livro O Código da Inteligência (2008), que em nosso país os médicos são como “deuses tratando de seres humanos” (pág. 128, grifo meu).

Ou ainda, acrescenta Cury (idem: pág. 115): ao tratarmos com os outros, o diálogo nos proporciona “um sistema de interpretação” que pode tanto “diminuir” o outro, desumanizando-o, quanto “aumentar” nossa interpretação, “divinizando-o”.

É verdade que a maioria dos usuários da assistência à saúde em Arez é de pessoas carentes, por isso mesmo há a grande procura ao Sistema Único de Saúde (SUS). Esta maioria carente de doentes está em busca de cura para suas dores, físicas ou psíquicas, ou ainda: são pacientes ansiosos, estressados, por causa dessa procura aos serviços de saúde num país onde não se sabe ao certo se vai haver atendimento médico (e de qualidade) para o seu problema! Portanto, além da dor, da falta de recursos, existe a ansiedade, que toma conta dos usuários dos serviços, que chegam aos Hospitais ou Postos de Saúde sem a certeza se irão ser atendidos, ou não, e nem se esse atendimento vai demorar a ocorrer, ou ainda, se há ali pessoal treinado para diminuir sua dor de imediato.

Para o atendimento satisfazer as necessidades do paciente, há a necessidade da confiança no trabalho das equipes de profissionais e que ele se sinta em segurança, como alerta o neurologista carioca Bernardo Liberato: “para manter a confiança no médico, é importante que o paciente termine a consulta 100% seguro” (Veja, 20/07/2011, pág. 127).

Segundo Augusto Cury escreve, em O Futuro da Humanidade (2005), na maioria das vezes, o paciente psiquiátrico precisa “criticar sua postura diante da vida”, precisa “reaprender a viver”, a elevar sua autoestima; “a sociedade moderna empobreceu, perdeu a amabilidade e a afabilidade”, assim como a tolerância, a sensibilidade, solidariedade, que são valores necessários aos seres humanos para a convivência em grupo (idem: pág. 118).

 

    A necessidade do atendimento aos jovens, nas Escolas do município:

 

            Uma ideia bastante rica que surgiu durante as entrevistas com os médicos, já que os usuários não opinaram acerca desse novo tipo de atendimento (por psicólogos), foi a de que é preciso que os pacientes de Arez sejam ouvidos e acompanhados ainda na fase da adolescência, por exemplo, durante seus tempo nas Escolas (ainda no Ensino Fundamental e Médio). Ou seja, os médicos pedem, não apenas sugerem, que a Secretaria de Saúde de Arez ofereça psicólogos aos usuários da saúde neste município desde a Escola. Desse modo, para cada Escola de Porte Médio do município, deve haver pelo menos um psicólogo que ouça e dialogue com a juventude problemática existente naquela instituição.

O interesse maior desta ideia é que os problemas sejam detectados e iniciados em tratamento dialógico por profissionais da área, ainda na adolescência ou puberdade, intentando acompanhar os casos problemáticos desde as raízes dos transtornos, antes que se chegue à necessidade mais séria de atendimento por um médico psiquiatra, na idade adulta. Em sendo assim, os psiquiatras passariam a cuidar principalmente dos casos mais graves, além de supervisionar os atendimentos dos psicólogos.

A modernidade, a luz elétrica, além do surgimento de novas tecnologias que inundam os lares: os aparelhos de TV, CD, DVD, computadores pessoais, tablet, iPode, iPad, etc., trouxeram também o fim do “prazer do diálogo” entre as pessoas, entre pais e filhos, vizinhos de bairro... A partir desta constatação o que se nota é que os resultados dessa invasão tecnológica para as emoções humanas, no dia a dia, foram cada vez mais: “a solidão, a ansiedade e a insatisfação” (Cury, 2006: pág. 157). Ou ainda: o mundo do trabalho nas sociedades modernas caminha lado a lado com o estresse generalizado. Poucas pessoas conseguem ser imunes aos males psicológicos da contemporaneidade.

Há na atualidade verdadeiras batalhas (de ONGs, por exemplo) para incutir nas pessoas, para resgatar nelas, sentimentos de solidariedade, amizade, cooperação mútua, respeito ao meio ambiente, preservação da natureza, etc.

Noutro livro seu, já citado, Augusto Cury explica que não existe ninguém no mundo, nenhum humano “isento de dor”. O que ocorre é que certas pessoas se impõem presas ao seu passado de incômodos psicológicos, e a partir dessas emoções não resolvidas, também não sabem como viver seu tempo presente, no entanto, isso não é motivo de alarde pois “todos somos reféns de algum período do passado” (2005: pág. 36).

Por isso, é considerado normal, numa cidade mesmo de pequeno porte, como Arez, encontrarmos pessoas necessitadas de apoio da psiquiatria ou psicologia, sobretudo porque, em casa, não são entendidas pelos próprios familiares: aqueles que se deixam abater pelas perdas (de entes queridos, de um emprego, etc.); aqueles que se enchem de culpas por coisas miúdas do dia a dia... Na realidade, estes e muitos outros são pessoas que vivem com a sensação de desamparo, de solidão, desproteção, depressão, de não terem com quem dialogar abertamente e sem medos de repressões. Falta a essas pessoas: esperança, autoconfiança, compreensão em casa, diálogo com os familiares e amigos, enfim, capacidade de continuar as lutas da vida. Nas sociedades modernas, Cury (2005: pág. 93) adverte ainda que estão morrendo virtudes importantes, como a humanidade e a “sensibilidade” em relação aos problemas do outro.

Neste ponto, Cury nos ensina que essa solidão e desamparo, não raro presentes já desde a juventude, “essa “solidão radical estimula a depressão” (idem: pág. 55, grifado por mim). E aí vem a ocorrer com o ser humano algo bastante conhecido pelos médicos: o paciente ansioso, deprimido, hipersensível, etc., jovem ou adulto, canaliza para seu próprio corpo (sintomatiza) estes seus medos, o que lhe causa, cada vez mais, doenças psíquicas mais difíceis de tratamento e cura (idem: pág. 111).

Por tudo isso é que os psiquiatras ouvidos pelo pesquisador sugerem, como importantíssimo, que os jovens em idade escolar possam ter acesso aos profissionais de psicologia dentro já da própria escola, para que no futuro não venham superlotar os Hospitais em busca de tratamento psíquico, que já poderia vir sendo prevenido desde a escola. Em outras palavras: investindo em prevenção à saúde psíquica dos jovens, futuramente o município gastaria muito menos com adultos psicologicamente incompreendidos, deprimidos, egoístas, ou dependentes de medicamentos ou outros tipos de drogas para continuar vivendo.

Sendo assim, se como já citado “só uma criança não tem consciência das misérias dos outros”, o que vemos em nosso mundo moderno é a produção também de adultos infantilizados, egoístas, por vezes dependentes permanentes de seus pais, de seus professores e até mesmo das drogas ilícitas, que além da fuga da realidade, proporcionam, geralmente, o sentimento de pertencimento a um grupo de amigos ou de dependentes químicos (normalmente composto por outras pessoas egoístas também).

Em outro de seus livros (A Sabedoria Nossa de Cada Dia, de 2007), Cury alerta que é inegável que há um aumento dos transtornos psíquicos nas sociedades modernas, inclusive, para quem se preocupa com esse assunto, há também na atualidade um “aumento da frequência da depressão na infância”, um fato que é deveras preocupante e que requer atitudes de prevenção por parte dos poderes públicos (idem: pág. 72-73).

Mais adiante, neste mesmo livro, o autor acrescenta que “Nossas crianças se tornaram uma plateia de pessoas agitadas. É a geração mais irrequieta e ansiosa que o planeta conheceu”. Para Augusto Cury (2007: pág. 81, grifo meu) não adianta jogar a culpa disso nos pais ou na Escola, e sim, no sistema hiperestimulante em que os adultos também convivem, como, por exemplo o vício em estar plugado na Internet, em assistir TV por muitas horas diárias, jogar interminavelmente defronte ao microcomputador, etc., além das necessárias informações apreendidas na Escola. Ou seja, adultos e principalmente os jovens na contemporaneidade estão indissoluvelmente ligados a um sistema de “hiperprodução de pensamentos”, esta exposição massiva desgasta o córtex cerebral e gera fadiga, irritabilidade, esquecimento, dentre outros transtornos.

O psiquiatra em questão destaca que “infelizmente” os gestores da área da saúde “investiram muito em tratamentos e pouco em prevenção. Esperamos que as pessoas fiquem doentes para então tratá-las”, e isso, para Cury, é muito “injusto” (idem: pág. 109, grifos meus). Por isso a preocupação dos médicos entrevistados nesta pesquisa com a prevenção, com o oferecimento de serviços psicológicos aos alunos desde o Ensino Fundamental ao Médio.

Sobre as possíveis falhas dos pais, e a falta de um trabalho preventivo nas Escolas, por meio de atendimentos psicológicos, etc., Augusto Cury ensina que desde cedo o ser humano deveria aprender a gerir o seu próprio “eu”, assim como aprender a ser tolerante com os outros, descobrir o poder da afetividade, do altruísmo, do amor, alegria, tranquilidade, do autoconhecimento, da autocrítica, autoestima, ser solidário, ter compaixão, sonhar e buscar realizar seus sonhos, elaborar projetos de vida, etc. No entanto, tudo isso depende de um “aprendizado complexo”, e pelo visto, “Nossos jovens ficarão 10 ou 20 anos nas escolas sem aprender esses fenômenos. Como seria importante”, enfatiza Cury, “que houvesse um grande número de psicólogos, pedagogos e professores que fossem mestres em educar o eu como gestor psíquico desde a infância” (Cury, 2007: pág. 135, grifos meus).

Já no livro O Vendedor de Sonhos (2008a), Augusto Cury demonstra seu desgosto afirmando que “angustia-me que o sistema esteja gerando crianças insatisfeitas e ansiosas. Fortes candidatas a serem pacientes psiquiátricas e não seres humanos felizes e livres” (pág. 133, grifos meus). De modo desalentador, Cury assinala que nós “Formamos jovens estressados, tensos, com instinto de predadores, ansiosos para serem o número um, e não pacificadores, tolerantes” (idem: pág. 231, grifos meus).

 
Sobre o “sepultamento”, necessário, do passado incômodo de cada um (talvez a parte mais importante dos problemas psíquicos nas pessoas sem transtornos graves):

 

Como já citado, o psiquiatra Augusto Cury explica cientificamente, a partir de suas experiências na área de medicina, que algumas pessoas impõem a si mesmas uma “prisão” ao seu passado de incômodos psicológicos, e partindo dessas emoções não resolvidas em tempos anteriores, não conseguem viver com plenitude e felicidade o seu tempo presente, sendo este um problema talvez o mais sério, entre os pacientes que não são portadores de transtornos psíquicos graves, ainda que, ressalve Cury, independente de transtornos psicológicos quaisquer, “todos [nós] somos reféns de algum período do passado” (2005: pág. 36, grifos meus).

Sobre este tema, as palavras de Cury são preciosas. Para o psiquiatra citado: “Quem não dialoga sobre seu passado não o sepulta com maturidade”, ou seja, essa pessoa estará sempre perpetuando as suas feridas emocionais (idem: pág. 215). Elas não conseguem se desligar de emoções incômodas e negativas que já passaram e que não eram para incomodarem mais a uma pessoa de emoções normais! Infelizmente, guardar com gosto estas emoções negativas do passado, possivelmente, se tornam destrutivas para a própria pessoa.

E somente quem pode ajudar este tipo de pessoa, com dificuldades ou transtornos psicológicos, são os profissionais preparados para este trabalho: psiquiatras, psicólogos ou psicanalistas. Mesmo, por exemplo, um Assistente Social ou um Terapeuta Ocupacional, por mais cursos que façam, não são preparados para lidar com este tipo de paciente, pois necessariamente é preciso que o profissional tenha um supervisor de seu trabalho – que como veremos à frente, é angustiante e desgastante para o próprio médico psiquiatra ou neurologista, assim como para os próprios psicólogos e psicanalistas que, obrigatoriamente, têm que possuir um outro profissional da área como supervisor permanente de suas atividades –, pois lidam com a intimidade e doenças de seres humanos e devem também serem orientados em suas atividades. Ou seja, este não é um trabalho psicológico qualquer, ao contrário, lidar com emoções e transtornos psíquicos não são trabalhos fáceis e nem acessíveis a qualquer profissional bem intencionado, como já citado.

Há que se esclarecer, aqui, algo sobre a profissão de psicanalista e a importância atual da psicanálise. A psicanálise é um método de atendimento e busca de cura psicológica criado pelo médico austríaco Sigmund Freud (1856-1909). Por poder ser realizada por qualquer estudioso, tendo passado pela Universidade ou não, a psicanálise requer anos de estudo e de acompanhamento por um supervisor, além da obrigação de passar por provas e testes em uma sociedade psicanalítica organizada e reconhecida pela comunidade psicanalítica. Ainda assim, o método freudiano tem seu poder de

tratamento e cura questionados pelos profissionais que enfrentam anos de academia até conseguirem chegar ao seu consultório próprio, seja como psiquiatras, seja como psicólogos, legalizados pelos seus Conselhos Nacionais e Regionais.

Em resumo: não é qualquer um, independente dos Cursos que possua, ou feitos após a academia, que se pode dizer clínicos capazes de tratar e curar os diversos transtornos psicológicos que as sociedades modernas ajudam a criar e a desenvolver nos seres humanos em geral.

A psicanálise recorre, especialmente, aos transtornos criados, inventados ou enfrentados na mais tenra infância, que segundo Freud, ficariam guardados no que ele chama de inconsciente. A psicanálise acredita que algumas pessoas não conseguem superar os seus traumas da vida, e apenas os escondem num lugar da memória que não visitam nunca: o inconsciente, ainda que em nosso agir cotidiano façamos muitas coisas de modo inconsciente, e que às vezes, não sabemos o porquê. A verdade é que esses hábitos adquiridos e utilizados de forma não conscientes, estão vivos, presentes e mal resolvidos em nosso inconsciente.

Muitos discordam de tal abordagem, porém, existem psiquiatras e psicólogos das mais diferentes correntes de pensamento que concordam com o auxílio da teoria de Freud. De qualquer maneira, a psicanálise é hoje utilizada em todo o mundo como uma teoria passível de tratamento e cura dos transtornos psicológicos moderados (ou seja, nem aqueles de origem genética, ou reconhecidamente muito graves, comprovadamente pela ciência como não havendo possibilidade de cura).

 

    O desconforto dos próprios profissionais da área:

 

Em se tratando do problema da sobrecarga dos médicos psiquiatras, a jornalista Paola Fernanda entrevistou o psiquiatra Geraldo Araújo para a Revista Cult (em julho de 2011, “Choque Moderado”), e em certo momento pergunta ao médico: “o senhor sente-se pessoalmente afetado por seu trabalho diário?”, e a resposta dele foi: – Este “trabalho desperta em você uma angústia muito grande. Lidar com transtorno mental é algo extremamente desgastante [para o médico], por isso os profissionais da área fazem [também] terapia. Eu faço”. Araújo ainda recomenda que para o paciente, “Juntamente com medicamento, deve-se fazer terapia [com psicólogos ou psicanalistas]. É a melhor combinação. Porque você trata a questão biológica [com os medicamentos] e a questão individual [com a terapia psicológica]” (pág. 31, grifos meus), o que vem a corroborar com os resultados desta pesquisa e com as ideias de Augusto Cury.

Voltando ao caso dos pacientes psiquiátricos, Cury (2006: pág. 65) ensina que nós, profissionais da área da saúde, temos que entender que, nas sociedades modernas, os seres humanos vivem “ilhados” dentro de si mesmos, envolvidos “num mar de solidão”, no entanto, esta solidão é “silenciosa”. Ou mais ainda: o ser humano moderno “trabalha e convive com multidões, mas ao mesmo tempo, está isolado dentro de si”. Por isso a angústia dos próprios médicos e psicólogos (ou psicanalistas) que trabalham com esse tipo de distúrbio: da ansiedade, solidão e dor psíquica do outro, do paciente não preparado a ter a desenvoltura necessária para lidar psicologicamente com seus problemas do dia a dia.

Isto significa que Arez precisa não somente de médicos psiquiatras em seus quadros de assistência à saúde da população, mas também do auxílio de profissionais da área psicológica, sejam psicólogos ou psicanalistas. Cury ainda complementa que “não há técnica psicoterápica que resolva a solidão [dos pacientes]. Não há antidepressivos e tranquilizantes que aliviem a dor que ela traz”. Para ele, enquanto o consumismo das sociedades modernas exalta o ter, o possuir bens materiais, devemos nos voltar à busca de quem somos, de encontrar prazer de viver pelo que somos, e não, pelo que temos (idem: págs. 65-66, grifos meus). Com o império do individualismo atualmente, da competitividade acirrada e da exclusão social ser bem maior que a inclusão, a solidão tem se tornado um dos maiores provocadores de transtornos psicológicos (idem: pág. 146).

Lembra o psiquiatra citado que a medicina contemporânea “mexe com as nossas mais dramáticas necessidades existenciais”, numa “tentativa desesperada de superar a dor”, de aliviá-la, de “melhorar a qualidade de vida das pessoas e de prolongar a sua existência”, seu tempo de vida, de “superar o drama do envelhecimento”, buscando adiar o fim da existência (Cury, 2006: págs. 91-92). Sabemos também que o ser humano “sempre procurou a medicina como âncora do presente, com o objetivo de retardar” o envelhecimento e a morte (idem: pág. 99). Por isso mesmo Cury aconselha que o tratamento psiquiátrico, com medicamentos e diálogo, seja também acompanhado pela psicoterapia, pois psiquiatras, psicólogos e psicanalistas são estudiosos que se prepararam para ouvir seu cliente e ensiná-los a pensar por si mesmos, na busca da solução para seus problemas existenciais (idem: pág. 104).

Reafirma ainda Augusto Cury que os profissionais desta área que se reciclam, buscam aprender sempre mais, que querem evoluir, objetivando atender cada vez melhor seus clientes, procura ouvi-los com calma e ensinar-lhes a “se interiorizar”, a meditar, a “se repensar” sempre, e a “gerenciar”, sozinhos, os seus pensamentos, seus problemas e suas vidas. Isto significa que o bom profissional deve agir com delicadeza, especialmente, objetivando “incluir e cuidar das pessoas excluídas socialmente” (idem: pág. 152-155), por isso é que o autor ressaltou antes que “só uma criança não tem consciência das misérias dos outros”, ou seja, uma criança não está preocupada com as questões adultas de exclusão e inclusão social dos outros seres humanos em dificuldade (Cury, 2005: pág. 93).

Em outro de seus livros, acima citado, Augusto Cury observa, com razão, tanto em relação aos pacientes quanto em relação aos profissionais da área da saúde, que hoje em dia nós “estamos diante da geração mais insatisfeita, emocionalmente superficial e propensa aos mais variados transtornos psíquicos” (Cury, 2007: pág. 73). Ele ainda adverte que os acadêmicos da área da saúde, de modo geral, sejam médicos, enfermeiras, odontólogos, etc., “se preparam para o sucesso”, e tal como seus pacientes, também são despreparados para serem os “autores de sua história”. Não são preparados “para lidar com frustrações, perdas, desafios e fracassos” (Cury, 2005: pág. 101).

 

    O Abrigo de Idosos mantido na cidade (em Nascença) precisa de Psicólogos e Terapeutas Ocupacionais:

 

No livro de Cury O Vendedor de Sonhos (2008a: pág. 136, grifos meus), o protagonista da história ao visitar um asilo de idosos pergunta, espantado ao ver onde está: “– Num asilo?”, e continua: “– Essas pessoas estão apáticas, deprimidas! O que mais pode animá-las?”.

E eu responderia: falta aos idosos, essencialmente, alguém que os ouça, mesmo que eles não digam “coisa com coisa”, falta diálogo com os que têm a mente sã; e falta, sobretudo, que a Secretaria de Saúde ou de Assistência Social da Prefeitura de Arez ofereça a estes idosos um Terapeuta Ocupacional e Psicólogos. São seres humanos que precisam sair do imobilismo, da depressão, e da dependência de medicamentos para dormir!

Muitos deles ainda podem brincar de bola, de xadrez, dama ou gamão, talvez, algumas senhoras possam aprender costura, bordado, tricô, etc. O que importa, principalmente, é que haja diálogo e que eles se sintam queridos, incluídos na sociedade (que os prefere excluídos, trancados entre grades, impostos a ficarem em “seu canto”, e, especialmente, separados dos adultos “normais”!).

Nas palavras de Cury: “não há pessoas imprestáveis, mas pessoas mal valorizadas” (idem: pág. 140). Nós esquecemos que aqueles idosos guardam ainda muito de suas experiências de vida, suas habilidades, sejam manuais, seja brincar, jogar, cantar, contar histórias, enfim, sentir-se pessoas não excluídas socialmente... O psiquiatra citado complementa ainda que “o ser humano morre não quando o seu coração deixa de pulsar, mas quando de alguma forma deixa de se sentir importante” para alguém, para a família (idem: pág. 141, grifo meu).

Mesmo que não tenhamos “soluções mágicas” para os problemas da velhice, demência, ou da cegueira, debilidades presentes atualmente no Abrigo de Idosos de Nascença, podemos, como propõe Augusto Cury, “emprestar nossos ouvidos” (2008a: pág. 219), para que aquelas pessoas desabafem suas tristezas, mágoas, falem de seu passado, etc., ainda que eles não sejam pacientes psiquiátricos. Continua o psiquiatra Cury alertando, em O Futuro da Humanidade, que somente receitar antidepressivos, não é a cura para as depressões e “angústia da solidão” (2005: pág. 38).

Geralmente abandonados pelas famílias num asilo, ou ainda que desprovidos de parente algum, o trabalho do Terapeuta Ocupacional, ou dos Psicólogos, é ajudar aos idosos ativos a entenderem que mesmo quando se perdeu tudo, é possível ainda viver com dignidade, com qualidade de vida (idem: pág. 146).

 

    Bibliografia Citada:

 

ARAÚJO FILHO, Geraldo. “Choque Moderado – Entrevista a Paola Fernanda”. Cult. São Paulo, Bregantini, nº 59, julho de 2011.

BECKER, Howard S. Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais. 2ª ed. São Paulo: Hucitec, 1994. (trad. Marco Estevão e Renato Aguiar).

BORDIEU, Pierre & CHAMBOREDON, Jean-Claude & PASSERON, Jean-Claude. A Profissão de Sociólogo: Preliminares Epistemológicas. Petrópolis: Vozes, 1999. (trad. Guilherme J. F. Teixeira).

CURY, Augusto Jorge. O Código da Inteligência. Rio de Janeiro: Ediouro/TNB, 2008.

_____. O Vendedor de Sonhos. São Paulo: EAI, 2008a.

_____. A Sabedoria Nossa de Cada Dia. Rio de Janeiro: Sextante, 2007.

_____. O Mestre dos Mestres. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

_____. O Futuro da Humanidade. 3ª ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2005.

GONDIM, Linda M. P. & LIMA, Jacob C. A pesquisa como artesanato intelectual: Considerações sobre método e bom senso. João Pessoa: Manufatura, 2002.

LIBERATO, Bernardo. “Como se tornar um paciente eficiente”. Veja: Abril, semanal, 20 de julho de 2011.

MILLS, C. Wright. A Imaginação Sociológica. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. (trad. Waltensir Dutra).

TAYLOR, S. J. & BOGDAN, R. Introduccíon a los métodos cualitativos de investigación. Barcelona: Paidós, 1996.

 

 
PESQUISA SOBRE A QUALIDADE DO ATENDIMENTO AO USUÁRIO DA SAÚDE EM AREZ/RN (2013-2014)

 

RELATÓRIO 3, DE 2013

1)      A pesquisa fez o pesquisador entrar em contato com médicos, enfermeiros(as), etc., e técnicos, tanto em Arez como em outros municípios, como Goianinha e Natal;

2)      Já foram contactados, cerca de 39 profissionais de nível superior, pertencentes aos quadros da Secretaria de Saúde de Arez/RN, nos 5 ESF’s (Estratégias de Saúde da Família);

3)      Mais de 30 pacientes foram ouvidos até aqui (novembro de 2013). Instrumental metodológico utilizado: questionário e entrevistas, realizadas imediatamente após o atendimento do usuário; e técnicas de observação, in loco, em alguns ESF’s.

 

 

O CASO DA NECESSIDADE DE PSIQUIATRAS E DE PSICÓLOGOS EM AREZ:

 
[1] Possui graduação (UECE, 1991) e Mestrado em Serviço Social (UFPB, 1996). Assistente Social da área da Saúde na Prefeitura de Arez/RN, atualmente Coordena pesquisa sobre “A qualidade do atendimento ao usuário da saúde em Arez/RN (2013-2014)”.

[2] Pode-se perguntar: por que somente foram entrevistadas formalmente 30 pessoas? A resposta é: de acordo com a metodologia de pesquisa sociológica atual, em se colhendo um certo número de entrevistas, o pesquisador começa a notar que, a partir de um certo ponto, impossível de ser mensurado antecipadamente, as respostas dos entrevistados passam a se repetir, vez após vez, até atingirem a um saturamento qualitativo. De acordo com os metodólogos Linda Gondim & Jacob Lima: “Estudos qualitativos raramente podem estabelecer, de antemão, quantas pessoas serão pesquisadas, uma vez que tal número vai depender da qualidade das informações fornecidas pelos próprios informantes. Isto significa que só se vem a saber qual a quantidade de sujeitos a serem ouvidos quando se chega à saturação qualitativa, ou seja, no momento em que as entrevistas se repetem em conteúdo, nada mais acrescentando às informações obtidas” (2002: pág. 56-57). Acerca desta “saturação qualitativa”, ver também Taylor & Bogdan: Introduccíon a los métodos cualitativos de investigación (1996). E sobre os métodos de pesquisa contemporâneos em Sociologia, ver Howard S. Becker: Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais (1994); Pierre Bourdieu et. al. A Profissão de Sociólogo: Preliminares Epistemológicas (1999) e Wright Mills, A Imaginação Sociológica (1975).