Antônio Gonçalves Filho/AE

Três anos antes de morrer, aos 85 anos, em 2 de dezembro do ano passado, vítima do mal de Alzheimer, o poeta concreto Décio Pignatari começou a tradução das Confissões de Santo Agostinho. Não é tanto a tradução que surpreende. Afinal, Pignatari traduziu Dante, Shakespeare e Goethe, entre tantos outros grandes nomes da literatura universal.

Surpreende, sim, o fato de um poeta ateu, conhecido por sua ironia, traduzir um doutor da Igreja Católica marcado inicialmente pelo neoplatonismo e que, convertido, deu seu dinheiro aos pobres após viver uma vida dissoluta. O que teria aproximado Décio Pignatari da primeira autobiografia de que se tem notícia, escrita por um filho de berberes do Norte da África? A sedução pelo paganismo e os prazeres do corpo ou sua conversão ao cristianismo?
Elisa ElsieO poeta e escritor Décio Pignatari traduziu Dante, Shakespeare e GoetheO poeta e escritor Décio Pignatari traduziu Dante, Shakespeare e Goethe

Difícil saber. Nem mesmo o filho do poeta, Dante Pignatari, pianista erudito e inventariante, arriscaria uma resposta. Ele encontrou a página com a tradução de Agostinho perdida em meio a manuscritos que trazem outros textos inéditos, entre os quais uma peça teatral, a segunda escrita pelo autor do mais conhecido poema concreto da história, Beba Coca Cola (1957), em que subverte o slogan do popular refrigerante ao alterar fonemas e formar novas palavras - a última delas ,”cloaca”.

Décio formou ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos o trio de poetas mais conhecidos do movimento de vanguarda que, simultaneamente, na Suíça e Brasil, nos anos 1950, fez da experimentação linguística e visual sua mola propulsora. Com eles publicou, em 1955, a revista Noigrandes, que tratava, entre outros temas, da comunicação não-verbal (embora sem abdicar da palavra). Tantos os irmãos Campos como Décio Pignatari sempre se dedicaram à tradução de poetas pouco conhecidos ou lidos no Brasil, concretos ou não, além de produzir obras de referência no campo da teoria literária.

Cartas inéditas

Até por isso, Pignatari trocou cartas com importantes filósofos, ensaístas e linguistas europeus, entre eles o escritor italiano Umberto Eco e o linguista russo Roman Jakobson (1896-1982), pioneiro na análise estrutural da poesia, tendo assinado ensaios sobre a obra de Fernando Pessoa e Brecht. A caixa de correspondência do poeta tem também cartas da poeta carioca Cecília Meireles. Todo esse material está sendo analisado pelo filho Dante e poderá ser publicado após catalogação. Outra surpresa para Dante foi encontrar os manuscritos de um diário escrito quando seu pai estava morando temporariamente em Ferrara, no ano 2000. “Nunca imaginei sequer que ele tivesse um diário”, diz ele.

Alguns lugares na Europa - e especialmente Ferrara, terra natal de Antonioni - exerciam enorme fascínio sobre Pignatari. Ele estava morando lá, em 2007, quando escreveu a peça Nísia - Viagem Magnética, a pouco conhecida história de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), educadora e poeta popular do Rio Grande do Norte que morou durante três décadas na Europa. Feminista de primeira hora, Nísia (pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto) circulou pelas cortes europeias, conheceu Wagner e Nietzsche, foi amante do positivista Auguste Comte, mas Décio, em sua peça inédita sobre ela, joga o foco sobre seu relacionamento com outra mulher. Na primeira peça, Céu de Lona, nunca montada, ele toca em outro ponto polêmico: o casamento interracial e a conflituosa relação de Machado de Assis com a mulher Carolina.