Ivan Maciel de Andrade
Advogado 

Tenho especial preferência pelo escritor Joseph Conrad. Foi ele, segundo o ensaísta Otto Maria Carpeaux, o “mais fascinante dos romancistas ingleses”. Seus melhores romances – ou, pelo menos, a maioria deles – contam histórias que acontecem no mar, dentro de “pequenos navios, carregados de fretes duvidosos, errantes sobre os mares do Sul”, como foi a própria experiência de vida do marinheiro Joseph Conrad. Esse aristocrata polonês que adquiriu a nacionalidade inglesa nunca conseguiu “sequer dominar perfeitamente sua língua adotiva” e, por isso, “foi forçado, até o fim, a submeter-se a correções gramaticais humilhantes”. Mas a literatura universal, afinal de contas, lhe fez justiça, consagrando-o como um dos melhores ficcionistas de todos os tempos.

Quantas vezes é preciso reler “O coração das trevas” (“Heart of Darkness”) de Joseph Conrad para perceber que a literatura é o principal instrumento de que dispomos para auscultar o sentido mais profundo da vida? “Poucas histórias, na opinião de Mario Vargas Llosa, conseguiram expressar, de forma tão sintética e subjugante como esta, o ‘mal’, entendido em suas conotações metafísicas e em suas projeções sociais.” Através da leitura desse livro, vê-se que a literatura não é fruto apenas do poder criativo da inteligência, pois ela flui, também, de uma área desconhecida e indevassável da mente constituída por fatores obscuros que estão além dos limites racionais.

Outro escritor de minhas constantes leituras é Jorge Luis Borges. Nada expressa melhor o gosto pelos livros do que a história que se conta sobre ele: depois de cego, comprava livros recém-publicados para acariciar sua capa e sentir o cheiro de suas folhas – do papel novo, da impressão recente. Não que Borges fosse um bibliófilo, como ressalva ele em seu ensaio sobre “El libro” – breve, poético, apaixonante –, incluído no quarto volume de suas obras completas. Escreve Borges: “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões de seu corpo. (...) O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”. E a palavra oral? Essa “tem algo de alado e sagrado, como disse Platão”. Anota Borges: “Todos os grandes mestres da humanidade, curiosamente, foram mestres orais”. Tais como Pitágoras, Sócrates, Cristo, Buda. Lembra Borges, então, que Cristo escreveu uma única vez: “algunas palabras que la arena se encargó de borrar”. Eterna indagação: o que terá escrito?

É possível medir o valor das obras literárias pela variedade de interpretações que delas podem ser extraídas. Isso parece garantir a sua longevidade. Ou seja, torna-se possível descobrir nessas obras, através de pesquisas bem conduzidas, sentidos novos, que não tinham sido ainda objeto de análise e avaliação. O autor brasileiro que confirma plenamente esse princípio é Machado de Assis: as suas obras – romances, contos, crônicas – têm oferecido surpreendentes e inovadores ângulos de abordagem, constituindo um rico e inesgotável filão de achados literários para ensaístas de variadas tendências. Até a crítica estrangeira tem feito importantes e valiosas descobertas.