(MEMORIAL DOS FUNDAMENTOS DA CRIAÇÃO DA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO DO RIO DOS HOMENS)

“E eu, que ando só, me reencontro

na sombra de cada coisa perdida.”

Sanderson Negreiros

Bartolomeu Correia de Melo, cearamirinense naturalizado, tem-se distinguido como das melhores expressões da literatura norte-rio-grandense e, sem sombra de dúvida, o mais original contista dessas e doutras terras do nordeste e dos Brasil. É dono de uma linguagem bem tecida porque de boa urdidura, emprestada da língua do povo de sua terra. Não há como confundi-lo, nem como desentranhá-lo do fabulário e do imaginário popular – melhor dizendo, da massa de sangue e das raízes telúricas de sua gente e de sua terra. O modo como reencontrei o menino do meu convívio, o adolescente apenas riscado a giz na memória, nessa imerecida

velhice precoce, só pode ser explicado através do fantástico e do mágico. E é isso que faço, numa homenagem ao meu amigo de memórias conterrâneas e de afinidades, e ao nosso terreiro, pedindo licença aos leitores para fugir do trivial, e o perdão a Nossa Senhora pela heresia. A benção, meu padim Padre Cícero Romão Batista e o nihil obstat do meu amigo Padre Rui Miranda.

A EXPLICAÇÃO

Não creio nos acasos. Sustento a tese de que se aceitássemos como manifestações autenticamente espontâneas as interferências na nossa vida, sem o concurso da nossa vontade,  estaríamos admitindo que o livre arbítrio franqueado pelo Criador apenas ao ser humano, se estendesse à própria natureza e se vulgarizasse. O mundo seria, então, fruto de gerações espontâneas e Deus, apenas um espectador silencioso e impotente. Ou omisso.

Nada tão falso. Deus é onipotente e nenhuma ramada é colorida, nem uma só folha se move, sem a sua aquiescência. Acredito, sem tentar fazer proselitismo religioso, mas apenas declarando a minha convicção, que Deus tem planos para cada um de nós. Sou de crença espírita cristã e acredito na reencarnação e nos seus desdobramentos.

Eis porque acolhi Bartolomeu Correia de Melo, a quem trato carinhosa e propositadamente de Don Bartolo, qual um personagem de ópera transversal a Don Giovanni, como meu irmão. Teríamos sido assim em alguma dobra do tempo. Senão, como explicar o fato de que o vi tão poucas vezes na adolescência e só voltasse a vê-lo na nossa precoce velhice, e ainda assim se estabelecesse entre nós tanta afinidade, tanta memória comum, tanta substanciação existencial?

Por isso, confirma-se a minha tese e aqui declaro, sem pompa nem circunstância, mas de peito aberto e lavado e espírito enxaguado, a geminação da nossa alma.

AS REVELAÇÕES

Segundo informações da dupla de saltimbancos Cherubino e Zambetta, iniciados nas adivinhatórias e esoterismos, Don Bartolo teria sido um anjo trovador, desses que andam sempre com uma lira à mão e versejam à toa, tanta fartura de imaginação e riqueza vocabular rimosa.

Por isso, o Divino sempre foi muito tolerante com ele, permitindo que fizesse a sua graduação com os pássaros e os bardos do naipe de Camões, Zé Limeira, Carlos Pena Filho e, principalmente, com “Rebequinha”, o poeta nativo das terras ainda virgens do que viria a ser Ceará-Mirim, de dia contemplador de paisagens e tocador de burro no bota-água nas casas , de noite, repentista e tocador de rebeca – daí o nome.

Foi a sua danação. Tinha dia de se perder, doido de tanto trinado bonito, tanta poesia e tanta música, quando, então, cutucado pelos saltimbancos, procurava parelha com Juvenal Antunes e Jorge Fernandes, ganhando os partidos de cana e os tabuleiros cheios de cajus, para encher os olhos dos mais verdes e mais vermelhos, amarelos e azuis que já tinha visto. Era a cura de sua ressaca, pelo método homeopático: quanto mais beleza, mais depressa a cura da tontice pela beleza vertiginosa.

Um dia, com os ouvidos prenhes de tanta reclamação beata o Todo-Poderoso cansou da contagiante humanidade do seu anjo e o desterrou definitivamente no nosso planeta, também louvado no similia similibus curandi.

Desterro? Parece brincadeira, não é? Melhor seria dizer premiação, se era só o que o anjo enviesado queria.

Se não foi premiar, a intenção do Senhor ficou bem juntinho disso. A dupla apelidada por Bartola como Quero-mais e Cambeta, confirmou que o Todo Poderoso concordava em soltá-lo na buraqueira, digo, no alagadiço do vale porque tinha planos para ele, só que essa verdadeira missão não podia ser revelada, senão iriam comentar que era caso de preferência, privilégio, proteção – sabe como é a língua do povo, que dirá dos anjos, meões de defeitos e meeiros de santidade.

Mas teve um “porém”: ficaria confinado, até nova ordem, no campanário de uma igreja apenas idealizada, mas já de concretude visível na imaginação mística dos entes divinos, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Deu-lhe a penitência de tanger no imaginário os sinos nos finados, nos júbilos e nas procissões, espantar e limpar os morcegos e suas titicas, sossegar algumas almas desgarradas e alimentar os passarinhos mais afoitos.

De vantagem, contar estrelas, pastorar a lua, adivinhar as esculturas feitas pelo vento nas nuvens gordinhas e brancas que brincavam no céu, catar os cavacos de noite na barra o dia e beber o vinho rosé dos ocasos para celebrar a noite renovada, quando todos os gatos são pretos.

Foi quando Nossa Senhora da Conceição, surpresa e prazerosa por encontrá-lo nesse ofício, o convocou para uma missão muito importante: colorir o lugar de que era madrinha, dar-lhe o jeito, um aroma, traçar o perfil das ruas e a geografia do município, e, finalmente, o caráter dos seus habitantes. O anjo, entre afoito e cauteloso, ainda perguntou se a Divina Pastora tinha alguma preferência ou proibição. Tanta era a confiança da Madona que não lhe impôs nenhuma regra nem lhe fez nenhuma advertência. Disse apenas que queria algo especial, digno do seu amadrinhamento.

Era dar corda ao jumento, soltar a corrente do cachorro, abrir a gaiola ao pássaro, semear na terra uberosa de húmus e de água. Dar de beber e de comer a quem tem sede e fome.

O anjo soltou-se. Ficou que nem um beija flor ou um zig-zag, flanando algum tempo ao redor do fantasioso campanário, como se buscasse o néctar da inspiração, naquele dilema do burrinho da estória de Apuleio, que teria morrido de fome e sede, rodeado de bacias de água e de milho, por não saber por onde começar.

Depois, cravou o “seja o que Deus quiser” e decidiu iniciar o trabalho.

A CRIAÇÃO

Pintou de um verde luxuriante o vale lá-embaixo, chegando até a embriaguez e a um embaralho nos olhos, espantado com tanta beleza. Nem acreditou no que tinha feito.

Coloriu o céu de algo mui levemente fletido num verde muito esmaecido colhido do canavial e de todos os tons de azul que inventaram e pudessem ser – só assim conseguiu a cor do manto de Nossa Senhora, a homenagem que lhe fez. Depois de se embriagar de tanto azul no azul do céu, e mais azul não havia, ouviu Carlos Pena Filho:

Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas

Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas

Pôs o verde sobre o azulado, puxado mais para o verde cana, nas águas dos rios e dos mares que beijam a terra da imaculada conceição.

Da alquimia fez e agrimensurou os solos mais variados – da piçarra da Jacoca e o arisco do Gravatá ao alagadiço do vale. Fez dois balneários de águas tão límpidas e transparentes que ele próprio não resistiu e se banhou e os denominou de Diamante e Jericó, este último, à lembrança da cidade bíblica das palmeiras, berço da redenção de Israel. Secou uma porção de terra alagada que rodeava uma coroa no meio da mata fechada e deu-lhe o sugestivo nome de Ilha Bela.

Deu a Jacoca o abacaxi mais doce; a farinha de mandioca de alvura e finura incomparáveis a Ponta do Mato; a laranja mais doce e sumosa a Comum e Primavera; o beiju e o grude mais gostosos a Aningas; a goma de mandioca e a tapioca mais caprichosas a Coqueiros; a Mineiro, deu o picado receitado por Geraldo Abdias; ensinou a Cicinha, a arte da feitura da cocada preta e da branca, preparada com o coco tirado do futuro sitio de Manoel Pereira, na divisa de Muriú com Maxaranguape.

Plantou umas canas de valia, a partir de “soca” divina, dando matéria prima para adoçar a boca dos nativos, mesmo os mais amargosos pela dura vida do eito – mel de furo e refinado, rapadura, açúcar mascavo (impropriamente dito “bruto”) e açúcar branco; cachaça (que ninguém é de ferro) e álcool.

Semeou umas frutinhas doce-azedinhas no tabuleiro dos ariscos praieiros e adjacentes, tais que chamou de camboim, guajiru e massaranduba. Fincou uns troncos de árvores rugosas que nem os rostos de velhos muito mais velhos e as chamou de mangaba. Fincou paus mais ou menos linheiros, de copas ramosas e os considerou cajueiros. E se divertiu queimando as “catotas” nos lajedos para fustigar os calangos, as cobras e a própria pele.

Compôs o mais lindo amanhecer, no meio do oceano vegetal do vale, e o mais belo e nostálgico por do sol, por trás das ondulações do morro do Patu.

Era forte a influência mediterrânea do mestre de obras da Virgem e ele resolveu fundar a cidade nas encostas de uma pequena serra, à falta de falésias. E também, para dar um quê de ascencionalidade ao plano diretor da sua arquitetura. Nada que se assemelhasse a segregação ou divisão de castas, a partir de maior ou menor altura, mas uma insinuação, uma metáfora que sugerisse o plano evolutivo do ser humano, sempre para o alto, na direção de Deus.

Mas, para evitar dúvidas e insinuações, arrumou uma compensação. Se o lá-em-cima fosse, de fato, a ascensão, o lá-embaixo era a sua inspiração. Não há recompensa maior para a subida, que olhar o vale verde se espreguiçando todo lindo e verdoso na aba da colina.

Deu margem ao “lá-em-cima” e o “lá-embaixo”, simplificando a topografia e a geografia da cidade. Na compreensão dos habitantes, que sempre se referiam ao lá-em-cima como uma peregrinação penosa e cansativa, vencer a subida era um prêmio, pela visão que oferecia ao peregrino, o lá-embaixo. E assim a metáfora era assimilada. Para se chegar ao céu, era preciso muito esforço e muito sacrifício, mas valia a pena.

Da parte urbana, só cuidou para que quando a cidade sucedesse à briosa vila em que a freguesia se tornaria, plantassem pés de fícus benjamim nuns canteiros no meio da rua. Sombra e facilidade para as idas e vindas. E também para a alegria da meninada, que se enfeitiçaria com o som das modinhas assopradas por seu Alegria, dono do Circo Alegria, na dobradiça das folhas do fícus

Deu-se então que num domingo em que estava embriagado com a sua própria criação, decidiu se superar.  Deixou-se levar pela onipotência megalômana, voou em linha quase reta até um ponto do oceano em território do município e convocou aquele que viria a ser Dorian Gray, mestre desenhista e colorista das azuis e verdes cartografias, para sugerir-lhe a paisagística do litoral da freguesia.

Areias alvas, coqueiros, muitos coqueiros, lagoas, mar tépido e calmo – sugeriu o pintor.  E uns parrachos de contraponto, anteparo de predadores e de marés bravias. Até mesmo uns salpicos de sargaço. Então, usando a sua paleta criou uma cor especial para o mar: nem azul nem verde, sem deixar de ser azul, nem deixar de ser verde – uma cor especial, particular apenas àquela parte do oceano.

Bartola não conseguiu distinguir a cor dada pelo grande artista de outras que conhecia. Na sua percepção aquele colorido era comum, encontradiço em outras praias do litoral nordeste do continente brasileiro.

O pintor ofendeu-se e foi direto ao ponto – o anjo, apesar de criatura angelical, não tinha a retina, nem a íris do artista plástico, era uma espécie daltônica, porque havia consumido a sua percepção visual na embriaguez contemplativa da sua própria criação. Nesse ponto tornou-se grave e contundente – não usava a alma como guia. Até concedia que ele “sentia” com a alma, pois era poeta e imaginoso. Mas não via através desse filtro.

O artista, que “via” com a alma, lembrou Van Gogh quando disse que tudo estava na natureza, o artista apenas emprestava a sua alma. Ainda assegurou ao anjo que no futuro, os que amassem aquele mar, aquela nesga de céu, da praia, do sol luxuriantemente, delirantemente amarelo, iriam perceber essa diferença. A perspectiva do tempo das memórias faria a diferença.

Sem se dar por convencido, o fundador da cidade concedeu, no entanto, o benefício da dúvida, pelas credenciais do pintor. Despediram-se sem atritos.

No dia seguinte, avaliou a criação. Ainda insatisfeito, mas no geral pacificado, pensou no passo seguinte.

Se não poderia criar o ser humano, já concebido por Deus, o recriaria. De resto, todas as coisas já tinham sido criadas, ele apenas as escolheu, dando o jeito pedido por Nossa Senhora.

Mas havia algo que ele podia esbanjar-se na invenção. O perfil dos habitantes daquela cidade.

À “sua” matriz humana deu de beber água do Diamante e Jericó e a batizou com a água salobra do Olheiro, juntando água e sal na mesma cerimônia. Mimou-a com garapa, água de coco, suco de manga e de caju. Deu-lhe de pouca a média estatura, tez variando do negro ao branco, passando pelo mameluco e o mulato. Pernas firmes de bom andador de subidas e descidas, alavanca para os atoleiros dos alagadiços, boas para o ofício recadeiro e aviador e sustentação para o dia inteiro no corte de cana.

Alma leve, de passarinho cantador e madrugador. Formiga e cigarra. De missa e canjerê. Esperançoso. Todo dono da chã da alegria, mas sem exageros pois a sua natureza era meio reservosa.

Deu-lhe um chapéu de palha meio sobre o atrevido, um pito feito de imburana, um banho de rio com direito a cangapé, uma rede na varanda, comida no bucho e saúde que dê pro gasto – taí um ser humano feliz! Melhora se tiver um passarinho cativo, uma criaçãozinha no quintal, um burrinho de carga e um galo madrugador. ´Magine se tiver um roçado numa terrinha pouca cedida pelo patrão – vixe Maria!

Fez barateado, quase a preço de liquidação, o ser que vai habitar essa terra. E de pouquinhos teréns. Muitos são os seus sonhares, que ficam guardadinhos debaixo da moleira, e somente o tempo pra se interter entre uma e outra baforada do cachimbo, no terreiro, depois da janta.

Deu-lhes uns olhos de ver o vale, o céu azul de dia e o cobertor negro bordado de estrelas à noite, para agasalhá-lo na falta de fé, na frieza do desanimoso. Vez em quando deixou que pintasse uma lua muito soberba, pra alumiar os namoros, as serestas e as prosas; o rio d´água azul, a praia de Muriú. Uma que outra dança, coisa pouca, mas mui alegre, animada pelo baticum dos atabaques e a cadência dos pés no chão.

Á noite, os corpos nus se esfregando em cima das esteiras de palha, no chão de barro batido, suor com suor, dois num só, cavaleiro e montaria, promessa de cria que o leito da miséria é fecundo.

Os ouvidos de escutar o apito do trem, a tirada da Asa Branca na buzina de Chico Horácio, o saxofone de Zé Gago, o violão de Misael, os sinos “…com timbre de enxada velha que se põe a dizer o amém das ave-marias”, o badalar do relógio do campanário, os pregões dos vendedores ambulantes, as arengas dos botadores d´água   com os “roxinhos”, o latido e o miado dos animais sem dono ou vigias das casas e as vozes das beatas nas procissões.

Zé Lemos que restauraria com o pai, seu Justo, as estampas sacras do teto da igreja matriz, cantaria com voz Vicentina Celestiniana, a canção “Porta Aberta”. E Minhém pensaria que era “cover” de Bob Nelson: “Eu pego meu cavalo e jogo o laço…”, os olhos de chinês com terçol, o bigode maior que o de Bienvenido Granda, uma tragédia de desafinos e de troca-letras.

As ventas sempre acesas para o cheiro da bagaceira e do mel; o aroma acre provocado pela umidade da chuva engravidando a terra, em pleno parto das ervas e das flores baldias; a água de cheiro escapulida da carapinha das beiradeiras; o cheiro profuso e confuso do “quadro” do mercado e do pátio da feira – uma mistura de tudo, até de mijo e cocô de gente e de animais.

O visgo açucarado no céu da boca dos cortadores de cana, cambiteiros e operários dos engenhos, o colorau da galinha caipira, o leite de coco e o propriamente dito ralado, presente nas mesas de café, almoço e jantar, o gosto do pãozinho quente, saído da fornalha da padaria de João Neto, a manteiga derretida espirrando nos cantos da boca e nos dedos, as piabas fritas com farinha na banha de porco, o torresmo chiando na panela.

É nesse ponto que me vem Bartolomeu e se lembra da fala, do modo como essa criatura vai-se comunicar uns com os outros. E quer mais, que ela fale até em pensamento, dela pra ela mesmo, e como fosse telepatia, com os pareceiros.

Descartou a fala dos doutores, dos padres e dos políticos – até mesmo dos escritores, que mais fosse a que é aprendida nas escolas. Queria um falar deles, inventado na precisão e na distração. Uma que fosse usada nas conversas e nos escritos, uma coisa só, sem o atrapalho de dois modos diferentes de se comunicar na nossa linguagem brasileira. Que besteira: falar de um jeito e escrever de outro. Quem já viu presepada igual?

Apurou as oiças e consultou o vento, os animais, as aves, os barulhos das feiras, dos partidos de cana, dos engenhos, dos canjerês, dos rios, do mar, o falatório dos meninos e dos velhos, a língua afiada da raiva e do despeito e a melosidade dos ditos de amor. Cascavilhou as frases cuspidas e mal empregadas, os chorares e os sorrisos, os mandos, os desmandos, os suspiros e as cavilações. Tornou-se o pé-de-ouvido cativo de cada um dos nativos.

Deu no que deu.

OS LIVROS DAS DECIFRAÇÕES

Botou tudo que ouviu em dois livros que dedicou à cidade: “Lugar de Estórias” e “Tempo de Estórias”(*). Como um breviário completo, ou um almanaque, dá conta de tudim´ -  dos ofícios, bem quereres, malquerenças, febres suspirosas, mal assombros, amores queridos e rejeitados…causos que se não forem acontecidos, bem que poderiam.

Uma espécie de Cábala, de livrinho de cordel em prosa, de Roteiro Místico da cidade, de desnudamento da alma dos seus habitantes, uma declaração de amor à sua própria obra profana, todavia, reconhecida por Nossa Senhora, que deu mostras de ter-se encantado com toda a recriação e com as invencionices do seu mestre de obras.

O que tem de humano nas criaturas de Deus está lá, devidamente registrado e tombado. Sacramentado. Só não está lá o que não interessa e não recomenda um criador de boa fé e honestas intenções. Se não há barões, nem baronetes, nem senhores de barato e cutelo e os seus escravos, é porque o autor resolveu passar flanela com vinagre nesse azinhavrado e borracha nos mal amanhados.

O que está lá é o povo de Deus, na média possível, na medida do possível. Está lá, a infância perdida no passado, sobrevivente no presente e resgatável no futuro. O imutável sentimento de amor às raízes sentimentais e ancestrais.

Está lá, também, o socorro ao náufrago, coitado sem identidade, perdido no oceano da globalização, macaqueando os outros sem saber porquê, ou sabendo, mas envergonhado de ser o que é. O farol que alumia o caminho para o porto seguro (Ninguém se perde no caminho da volta). A razão de sermos o que somos e porque somos. O orgulho de sermos únicos, individualidades distintas, a partir da nossa origem, hábitos, língua, caráter.

Um amigo observador da cena humana, disse certa vez que há uma ciência que ninguém nos supera em conhecimento e vivência: a nossa terra. A aldeia que nos pariu e nos projetou  para o mundo. Desde que tenhamos dividido com ela a nossa própria vida, que pelo menos um pedacinho de nós haja-se incorporado à história e ao cenário da nossa vivência: naquela rua, naquela árvore, naquela igreja, naquele colégio, sob aquele céu, no fundo da paisagem, num causo perdido, há uma marca indelével da nossa passagem que podemos testemunhar com as nossas estórias.

Nesse espaço somos protagonistas, não apenas testemunhas ou circunstanciados dos fados. Fizemos, nós mesmos, a nossa própria história, mesmo que tenha sido uma “ponta” do enredo, que tenhamos sido coadjuvantes, nossa marca está lá, num talho de canivete, numa velha foto encardida, no livro de batismo, no registro do cartório, na tradição oral. Na sementeira dos filhos e netos. Na memória dos mais velhos e mais acreditados. Na retina sempre-verde dos companheiros da infância.

No inconsciente coletivo, que guardou o vagido da criança, o arrastado dos primeiros passos, os primeiros aprendizados, os primeiros gemidos do amor. E muito depois, o difícil, mas prazeroso retorno aos primeiros momentos, só reencontrados no lugar de origem. O caminho da volta.

Bartola, como ficou conhecido o anjo-trovador, poeta e cantador, na vulgarização sem cerimônia dos cearamirinenses, que apelidariam até o Papa, é uma instituição da cidade. Talvez o seu mais importante habitante, porque a recriou. Não que tenha pedido por isso, porque o enfada a notoriedade, prefere a alforria das obrigações que o conserva irreverente e maroto. Um sonso, isso sim! Daquela sonsice de quem foi predestinado à liberdade, e é forçado à prisão na saia avoenga.

E também, porque guardou a sua ciência até os mais de cinqüenta anos de idade, para só então torná-la pública, sovinando aos seus amigos, aos conterrâneos e no geral aos que tem sede e fome de saber, a chave para decifrar conhecimento tão hermético e ao mesmo tempo tão singelo.

Mas resistir quem há de. O que esperava o criador de uma freguesia, mestre de obras de Nossa Senhora da Conceição, autor de uma obra comparável à Pedra de Roseta, decifradora da cultura singular de uma cidade, que, sendo igual a tantas outras, não é igual a nenhuma delas.

Rejeito as generalizações. Todas são simplificadoras e embusteiras, porque têm sempre um propósito de apoucamento ou de igualação, ou cortam o que lhes sobra em tamanho ou nivelam por baixo, no mesmo tope, mesmo que maiores.

Como querer estabelecer um parâmetro entre Bartola e o Rosa das Gerais. Não há como compará-los ou medir a importância segundo este ou aquele referencial. Em favor de Rosa, a criação. Em benefício de Bartola, a apropriação do dialeto popular e a sua conversão em linguagem corrente literária, às vezes decodificadora da emoção, do caráter, da cultura.

De fato, a partir do molde originalíssimo, criou-se a verdadeira escola literária do Ceará-Mirim.

Porque é isso o que o anjo-trovador faz: transporta-se, pela linguagem comum, ao seres humanos desfavorecidos de teres e haveres, mas ricos em aventura, alegria e esperança. Sonham. E por isso revivem, tranfiguram-se, transmutam-se, renascem meninos. Beiradeiros.

Viva Bartola!

Que viva sempre em nós, a nossa aldeia, que é o nosso mundo, a nossa referência e a nossa fiança, a teta-mãe que nos aleitou, qual Rômulo e Remo, pelos úberes dos guaxinins do canavial.

(*) Edições Bagaço, 2003 e 2009, respectivamente.

 

Pedro Simões – Professor de direito aposentado. Escritor e Advogado.