Artigo - Ivan Maciel de Andrade
advogado

O sucesso literário resulta de uma conjugação de fatores: de um lado, o valor estético da obra produzida; de outro, a capacidade de criar um público e mantê-lo fiel. Mas por que alguns escritores que desfrutam de prestígio e projeção são, aos poucos, totalmente esquecidos ou caem, subitamente, em desgraça, pois deixam de ser admirados e, o que é pior, deixam de ser lidos? 

Enquanto isso, há escritores que permanecem atuais, ampliando-se com o tempo o interesse por sua obra – e sua valorização ou mesmo consagração, dentro e fora dos meios acadêmicos. 

Um exemplo ilustra a primeira hipótese: Coelho Neto. A Semana de Arte Moderna de 1922 tomou-o como representante máximo do antimodernismo. Foi não apenas duramente criticado como impiedosamente ridicularizado, eleito símbolo do mau-gosto e do anacronismo literário. Coelho Neto, que era um autor com grande número de obras publicadas, muito bem aceitas pela crítica e pelo público – chegou a ser indicado pela Academia Brasileira de Letras para o prêmio Nobel em 1932 –, desapareceu do cenário da literatura nacional. Até hoje não se fez uma revisão para saber até que ponto a fúria revolucionária modernista que se abateu sobre Coelho Neto foi justa ou injusta. Isto é, se foi mero efeito de excessos circunstanciais – que exigiriam, por uma questão de justiça, uma reavaliação para reabilitá-lo, se fosse o caso – ou se correspondeu a um julgamento merecido que sepultou uma falsa glória fruto de equívocos da crítica de sua época.

O exemplo que serve de paradigma para a segunda hipótese é Joaquim Nabuco: “Minha Formação” é um livro de memórias escrito há mais de cem anos. Mas ainda hoje de leitura fascinante, sobretudo nos capítulos de teor mais acentuadamente autobiográfico. O ensaísta Wilson Martins vê nessas memórias “a mesma linha de introspecção e de técnica proustiana ‘avant la lettre’”. Uma “soberba busca do tempo perdido”. Na realidade, o livro, além de um inigualável testemunho intelectual e político, possui também uma tocante dimensão humana e poética. 

Nabuco próprio admite, sem preocupações com a modéstia, ter sofrido “o magnetismo da realeza, da aristocracia, da fortuna, da beleza, da inteligência e da glória”. Não perdeu, todavia, “a consciência de alguma coisa superior, o sofrimento humano”. Em razão disso, abandonou “a vida diplomática pela advocacia dos escravos”. Uma mudança existencial de grandes proporções.

Durante essa luta, escreveu um livro profundo, analisando as causas e as características da escravidão: “O Abolicionismo”, “tido em nossos dias como obra-prima”, segundo Francisco Iglesias, em belíssimo estudo. Também obra-prima foi a biografia que escreveu de seu pai, “Um estadista do Império”, considerada por Raymundo Faoro uma “história visceralmente artística”, alcançando ou, mesmo, ultrapassando, sob esse aspecto, o que se fez de melhor na historiografia universal. 

É verdade que o tempo decanta, aperfeiçoa, corrige juízos de valor, apreciações críticas, julgamentos humanos em todos os setores socioculturais. Mas, e os fatores imponderáveis?

(In Tribuna do Norte, 05,01,2014)