Por Ivan  Maciel


O romance “Lolita”, de Valdimir Nabokov, de extraordinário e reconhecido valor literário, chegou a ser banido e proscrito da história literária em vários países culturalmente avançados.

O julgamento que se fazia era o seguinte: “Lolita” seria um romance profundamente imoral, que ameaçava a ética das relações humanas na medida em que realizava – segundo os seus detratores – a apologia de uma das perversões sexuais mais execradas e odiosas: a pedofilia. 

Pode-se negar essa acusação alegando que o livro não contém cenas eróticas. Mas isso talvez não satisfaça a sanha condenatória dos seus implacáveis e intransigentes acusadores.

É necessário, então, partir para um argumento que vai à essência do problema: essa radical intolerância não enxerga a especificidade que viabiliza a existência da obra de arte – que é a amplitude da liberdade de criação. Do contrário, o reino mágico da criatividade artística, em que, às vezes, vêm à tona aspectos subterrâneos e enigmáticos da condição humana, seria usurpado pela mediocridade e hipocrisia de uma censura que tenta legitimar-se com base em preconceitos, dogmas e tabus. O romance “Lolita” não perde, portanto, sua condição de obra-prima em razão da tematização de uma prática sexual que viola princípios éticos universalmente reverenciados.

Será que as contrafações literárias não ferem muito mais gravemente os interesses sociais ao atentarem contra a estética? Por exemplo: o escritor Paulo Coelho, campeão de vendagem de livros em todo o mundo, afirmou que poderia condensar o “Ulisses” de James Joyce nos 140 dígitos consagrados pelo Twitter. “Ulisses” é um romance com características geniais, que revolucionou a técnica ficcional da moderna literatura, mas de leitura difícil, que exige um ritual de iniciação. 

Houve observações destemperadas de críticos, ficcionistas e professores de literatura ingleses, norte-americanos, franceses, espanhóis, alemães, alguns debochando do escritor brasileiro e de sua obra “falsamente metafísica”. O que, por sinal, os críticos nacionais vêm dizendo há muito tempo, sem que isso abale a fama e o prestígio desse autor de eternos best-sellers. 

De qualquer forma, a quantidade e diversidade dos pronunciamentos suscitados pelas controversas declarações de Paulo Coelho demonstram o quanto, queira-se ou não, ele é conhecido (o que significa dizer: lido), mesmo pelos que não lhe reconhecem qualquer valor literário. Talvez o próprio Paulo Coelho tenha se regozijado com a enorme repercussão de suas ridículas fanfarronices, pensando na tiragem e na venda das próximas edições de seus livros. 

Mas o surpreendente, o incrível mesmo é que alguns críticos e escritores de renome não só elogiaram a obra de Paulo Coelho como as suas inconsequentes declarações, considerando-as ousadas e corajosas. Há quem entenda que julgamentos desse tipo afrontam a ética porque autenticam e valorizam uma falsa produção literária. Enquanto outros relativizam o problema afirmando que tudo é uma questão de gosto ou preferência, de natureza pessoal e subjetiva.

((TN, 11.01.2014)