Clauder Arcanjo

 

Em memória de Fernando Pessoa

 

Há dias em que o nada prevalece em meu colo; e o nada se faz tudo, enfim. Sento-me à mesa do escritório, ponho a escrevinhar ao léu, na frieza da pena. Sem rumo, tomado por uma angústia que me garroteia o espírito e me leva aos píncaros de uma insossa angústia. Insossa e inexplicável angústia. Desfilam perante os meus olhos espectros com um quê de volúpia e asco, porém não os consigo decifrar. Abro o Livro do Desassossego, na ânsia de evadir-me, de fugir para bem longe de mim.

Há dias em que cada pessoa que encontro, e, ainda mais, as pessoas habituais do meu convívio forçado e quotidiano, assumem aspectos de símbolos, e, ou isolados ou ligando-se, formam uma escrita profética ou oculta, descritiva em sombras da minha vida. O escritório torna-se-me uma página com palavras de gente; a rua é um livro; as palavras trocadas com os usuais, os desabituais que encontro, são dizeres para que me falta o dicionário mas não de todo o entendimento. Falam, exprimem, porém não é de si que falam, nem a si que exprimem; são palavras, disse, e não mostram, deixam transparecer. Mas, na minha visão crepuscular, só vagamente distingo o que essas vidraças súbitas, reveladas na superfície das coisas, admitem do interior que velam e revelam. Entendo sem conhecimento, como um cego a quem falem de cores.

Bernardo Soares e sua autobiografia sem fatos. Texto que sempre leio e releio a saltar páginas, como se perdido pelo dédalo do Mistério de Fernando Pessoa. Eu e meu desejo de sossego mergulhando no desassossego! A sentir (e pressentir) o fastio das horas, sondando e perscrutando a rotina das ruas, dos homens, com seus passos cambiantes e tristonhos. Seres que, ao nos aproximarmos e metermos os olhos no miolo das suas “venturas”, vemo-nos assomados por um misto de nojo e pena.

Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais — se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.

Fiapos de lembranças desfilam diante de mim. Não sei se sonho ou se, acordado, os imagino. Pouco importa! Em poucos minutos, desaparecem. Nem alcançam o status de saudade. Para isso, precisariam ter foros de grandeza, e tudo cheira a mofo e pessimismo. Tristeza servida no caldo de pretéritas reminiscências. Não posso fingir-lhes acentos de felicidade tão só por serem coisas ou fatos do meu antigamente.

Há os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do mundo.

Torno a ler a passagem anterior. Fecho a obra e vou até a janela, corro o olhar pelo silêncio das ruas. Noite. Frio. Vazio. Lá fora e cá dentro. Volto a sentar e nada mais me ocorre. O nada no oco do nada. Seria isto a paz verdadeira? O momento certo para me entregar ao sono? Tento dormir, no entanto as fronhas me expulsam com novas vacuidades inauditas. A paz não combina com o ofício de escritor.

Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vômito para aliviar a vontade de vomitar.

Nenhuma metafísica me consola. “Dói viver...” Sou vítima dos meus escárnios, das minhas dúvidas... Ou seriam elas o combustível que me move? Não sei, realmente não me compreendo.

Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.

Fico cá com o meu desassossego; “monotonia magoada, tédio sem torpor”.

 

Clauder Arcanjo