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Em 27 de novembro de 2013 se passou o primeiro ano da despedida de Raimundo Soares de Brito deste mundo terreno. A minha homenagem, então, pode estar um pouco atrasada em face da efeméride, mas não com sentimento menor, principalmente porque tive o prazer de conhecer aquele importante nome da intelectualidade potiguar e privar de algumas de suas sábias palavras, em confiante e estimulante diálogo. Os que conheceram o seu trabalho – desenvolvido durante anos ininterruptos – sabem que Raibrito foi um expoente da historiografia no nosso Rio Grande do Norte. Uma conversa por entre os seus milhares de documentos configurava sempre uma experiência criativa, rica, viva e empolgante, com absorção de saberes angariados no tempo realizador de sua vida.

Tive o imenso prazer de encontrá-lo pela primeira vez, alguns anos atrás, em sua casa na rua Henry Koster, número 23, endereço que já chamava atenção pela importância histórica do topônimo, bem descrito na obra Ruas e Patronos de Mossoró, importante livro – em dois volumes – escrito por Raibrito e publicado na famosa Coleção Mossoroense. Naquela ocasião, estive na sua residência em companhia dos escritores Cláuder Arcanjo, David Leite e José Nicodemos, além de Misherlany Gouthier, firme colaborador à época. Alguns meses depois, haveria uma nova visita à qual se associariam os amigos Antônio Capistrano e Leonardo Guerra, juntamente com boa gente da Petrobrás, responsável pelos trabalhos de digitalização e divulgação eletrônica dos documentos, levando à criação de uma Biblioteca Virtual Raimundo Soares de Brito. Numa terceira visita, estivemos eu e Antônio Capistrano, grande amigo, grande camarada, parceiro e mestre em jornadas culturais.

Naquelas oportunidades presenciei a busca obcecada de um homem em realizar uma obra imaterial importantíssima: contar a história de sua terra, de seu povo, sua gente, destinando-a à consulta pública. Sua generosidade imensa o fazia compartilhar aquela riqueza com os interessados. Passeei por ela, entre os seus livros e documentos, estasiado com o notável frescor da inteligência do seu formador – apesar dos tons e aspectos esmaecidos dos papéis e objetos antigos, no amplo acervo de humanidades.

Livros, fotos, documentos de toda espécie e a voz do homem que narrava – como num tema cinematográfico – a sua própria história de vida e de como havia trabalhado tantos anos na coleta e organização de todas aquelas peças. Pude entender sua obsessão. Descobri que o sentido de sua vida, dedicado que sempre foi em entender e “radiografar” os outros homens, era a busca da essencialidade do próprio ser-no-mundo. A curiosidade imensa, a labuta incessante – como a de um escultor talhando uma obra-prima – eu as vi em Raibrito. Um olhar feliz, realizado, satisfeito. Olhar de quem foi parceiro e não inimigo do tempo e construiu, dia a dia, um retrato exato e profundo da humanidade.

Raimundo Soares de Brito nasceu em Caraúbas, mas o Rio Grande do Norte era e é a sua dimensão mínima, além, muito além das fronteiras de sua terra escolhida, Mossoró. Só mesmo um pesquisador de sua marca e estirpe para entrar nos complexos caminhos investigativos que trilhou. Buscou pistas que levavam sempre a soluções. Conhecer a alma do homem, fazer o retrato do homem e de sua terra, no correr dos anos, dos séculos, nas voltas do mundo sobre seu eixo: eis o trajeto que seguia. Sua hemeroteca se afirmava, assim – não há dúvidas –, como um organismo vivo, sempre alimentado como se alimenta um filho, para que se fortaleça e viva. Coalhada de papéis, papel dos livros a preencherem estantes, papel das cartas e documentos diversos, suas pastas de recortes de jornais, e o cheiro de vida. Fiquei feliz em saber que o seu acervo deverá ser preservado, segundo notícia que nos dá o Professor Antônio Marcos de Oliveira, parente dileto do homenageado: “Compreendemos a importância do acervo de Raibrito, um bem privado, mas de interesse público, que precisa ser preservado.” Assim seja, por ser de inestimável valor.

(TN – 21.01.2014)