Por Ivan Maciel de Andrade

Constata a ensaísta Márcia Lígia Guidin, em seu livro “Armário de vidro – Velhice em Machado de Assis” (Nova Alexandria, 2000), produto de uma tese de pós-graduação: Machado de Assis aos cinquenta anos “já era considerado o maior escritor do país; aos sessenta, era uma espécie de patriarca, como lembra Antonio Candido.” Poucos escritores, na literatura universal, desfrutaram de tanto prestígio em vida. Diferentes gerações o reverenciaram e foram muito poucos (raros) os escritores que o antagonizaram ou hostilizaram. Uma dessas exceções foi o crítico Sílvio Romero, que tentou se vingar de uma crítica demolidora feita por Machado de Assis a uma obra de poesia que publicara. E, quando atacado, Machado contou sempre com a solidariedade e a defesa pronta e imediata do que existia de mais representativo na “intelligentsia” brasileira da época.

Há controvérsias científicas a respeito da idade em que se inicia a velhice (hoje já se fala em pessoas “ageless”, sem idade definida), constituindo essa matéria, como ressalta Márcia Lígia Guidin, tema de estudo e discussão da antropologia, da psicologia, da sociologia e da filosofia. No entanto, Machado de Assis deixa claro em crônicas e na correspondência com amigos que considera a idade de sessenta anos como “o início natural da velhice”. Ora, em 1899, com sessenta anos (nasceu em 1839), Machado de Assis publicou “Dom Casmurro” (que faz parte da trilogia de suas obras-primas, formada por esse romance e por “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba”) e uma coletânea em que estão alguns de seus melhores contos – “Páginas recolhidas”.

Para caracterizar as “marcas psicossociais” da velhice, Márcia Lígia Guidin cita Simone de Beauvoir (“A velhice”, de 1990): uma dessas marcas, talvez a principal, é “a reestruturação do tempo que resta frente à morte”. Há também o esgarçamento das relações sociais, culturais e políticas, “já que o mundo novo é difícil (de ser assimilado) e a própria geração está morrendo ou (em grande parte) já morreu”. Qual a condição emocional de Machado de Assis diante da velhice? Embora doente, ele continuou produzindo importantes obras de ficção até o ano de sua morte.

Com sessenta e cinco anos (em 1904, ano da morte de Carolina Augusta Xavier de Novais, com quem Machado fora casado durante trinta e cinco anos), publicou o romance “Esaú e Jacó”, um dos livros mais complexos e originais (“marcado por simbologias e insinuações alegóricas”, como anota Castelar de Carvalho) da literatura brasileira (sendo expressiva sua repercussão entre ensaístas norte-americanos e europeus). Nesse romance surge o Conselheiro Aires, a quem é creditada por Machado de Assis a autoria desse romance e do último que escreveu – “Memorial de Aires”. Em 1906, publica um excelente livro de contos: “Relíquias de casa velha”. E em 1908, ano de sua morte, surge o “Memorial”. Alfredo Bosi, John Gledson e José Paulo Paes coincidem na opinião de que esse é um livro “oblíquo e dissimulado”, em que estão presentes a visão filosófica e a sensualidade machadianas da fase madura, mas ocultas por “uma prosa fina e distanciada”