Clauder Arcanjo

 

Sempre aproveito o período de carnaval, disto nunca guardei segredo, para descansar e colocar a leitura em dia.

O silêncio das ruas, a placidez das noites mossoroenses são, para mim, o cenário ideal para mergulhar — com prazer — em obras que me exigem uma leitura (ou releitura, em alguns casos) de uma sentada só.

No domingo de carnaval, entrei na festa com o multifário “estandarte da escola” Salvados, de Manoel Onofre Júnior. Desta feita, em terceira edição revista e ampliada, que saiu às ruas, neste início de 2014, pela Offset Editora (Natal-RN).

O mestre de Chão dos Simples não perde o ritmo em momento algum na avenida literária dos livros e autores norte-rio-grandenses. Quer quando busca (e encontra?) o Cânone Potiguar, flanando, com sua arguta pena, por entre a ala de “Os esquecidos e os Lembrados” — cordão dos “Poetas”, dos “Ficcionistas”, dos “Cronistas”, da “Crítica Literária”; quer, logo a seguir, quando, num compasso de evolução, acerta o passo na apresentação do “Nosso Primeiro Poeta”: Lourival Açucena. Para, garboso e altaneiro, desfilar por entre o universo poético de Auta de Souza. Vida breve, criação para o eterno.

Na comissão de frente: o enredo original e grandiloquente de Ferreira Itajubá, cantando sua “Terra Natal”; a dimensão intelectual de Mestre Henrique Castriciano (“Esta alma quem será? Não sei! Mistério fundo.../ Entretanto, eu pressinto alguém, que se debruça,/ E baixinho me diz, num gemido profundo:/ Existe um coração na pedra que soluça...”); o repique do surdo, no corso do modernismo telúrico, pela magia dos versos de Jorge Fernandes, onomatopeias nota dez de “O Banho da Cabocla”: “Choá! Choá! Choá!”. O mestre-sala do Livro de Poemas anuncia, insistentemente: “Venham comigo poetas.../ Venham com a alegria desta terra.../ Não me venham com lágrimas na voz...”.

Câmara Cascudo é destaque maior da Estação Primeira no Reino de Salvados. Quer em Canto de Muro, em Vaqueiros e Cantadores, ou no indispensável Dicionário do Folclore Brasileiro. Sem deixar de citar Prelúdio e Fuga do Real e o Livro das Velhas Figuras.

E Manoel Onofre não descansa. Nilo Pereira, Hélio Galvão, Berilo Wanderley, Myriam Coeli, Deífilo Gurgel, Tarcísio Gurgel, Francisco Sobreira, Mário Gerson, o picaresco e mágico Inácio Magalhães de Sena, a pena-virtuose de François Silvestre, Pedro Simões, o humor e o lirismo de Augusto Severo Neto, a obra de Nei Leandro de Castro, o turista literato Ivan Lira de Carvalho, a crônica sentimental e telúrica de David Leite, Marcos Medeiros, mestre Edgar Barbosa, o sertão antigo de Juvenal Lamartine, o grande mundo de Oswaldo Lamartine de Faria, Veríssimo de Melo, Eloy de Souza, as Velhas Oiticicas de Pery Lamartine, Vertentes de João Maria Furtado, Lenine Pinto, a crônica memorialística de Francisco Rodrigues da Costa, Valério Mesquita, João Wilson Mendes Melo, Jaime Hipólito Dantas, Nelson Patriota, Raimundo Nonato, Sérgio Augusto de Souza Dantas, Francisco Fernandes Marinho... entre tantos outros, tem lugar, vez e voz na sua Lira.

Enfim, num desfilar incansável, o cronista de O Caçador de Jandaíra revela-se-nos guardião ad hoc de nossas letras. E o faz com esmero, fidalguia, isenção e com uma valentia esmerada de enciclopedista.

“Trata-se enfim, de obra indispensável para quem deseja conhecer a literatura dessa ilha que integra o arquipélago cultural brasileiro, às vezes tão desconhecidas entre si que semelham mundos à parte.” — bem sintetiza Enéas Athanázio, em um dos textos de abertura da obra.

Abram alas, Salvados veio para ficar.

 

Clauder Arcanjo

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