Clauder Arcanjo

 

O homem, bicho esquisito, gosta, depois de transcorridas certas léguas da caminhada terrena, de fazer um balanço dos seus feitos e pecados, um levantamento dos seus atos e das suas coisas, um dever e haver da sua pessoal herança.

Hoje, confesso, acordei espetado por tão estranha compulsão. Não sei se devido aos meus cinquenta e um anos, recém-feitos, ou se tangido por algumas leituras memorialísticas que andei fuçando na última semana. Pouco importa, caro leitor, mas, como ando sem assunto para esta croniqueta dominical, alugarei seu tempo e sua paciência para narrar-lhe o que me veio à mente então.

De todos os meus feitos, agradaram-me sobremodo os pequenos atos. Um riso a um desconhecido, numa tarde distante em Santana, que fez molhar o canto dos olhos do pobre homem com uma lágrima furtiva. Uma tentativa de aboio junto às reses da Fazenda Eldorado, imitando a potente voz do vaqueiro Pedro Chagas, homem de campo, cidadão puro, cavaleiro e cavalheiro como poucos.

Das minhas faltas (pecado mortal), uma saltou-me logo diante dos meus olhos cinquentões. Darei detalhes. Meu pai, Zequinha, criava um pássaro numa gaiola na cozinha da nossa residência; sempre, faceiro, a despejar seu lindo e altissonante trinado de galo campina, cabeça de fita; devolvendo-nos, em lírica sonoridade, o que lhe ofertávamos em atavio de prisão. Meu pecado maior, nesse caso, foi sabê-lo fujão e manter-lhe “leal” segredo. O danadinho, tão inteligente, afastava a latinha da água de beber (havia um palito faltante logo abaixo do bebedouro), sondava o ambiente e saía a voejar pelos cômodos: catando arroz e pedaços de pão embaixo da mesa, mexendo nos papéis sob o birô do quarto, bicando as louças do armário. Tudo isso sob o olhar indiferente de Dona Lídia, velha e boa cozinheira. No início da noite, retornava para dentro da gaiola, escondendo dos outros a peraltice da fuga, a fingir, contrito, a pena de passarinho engaiolado, sem “liberdade alguma”. Até que, numa trágica tardezinha, o gato do vizinho deu-lhe cabo à vida. E eu sofri e chorei, culpando-me pela tragédia familiar. Bastava ter revelado, a papai, a artimanha daquelas fugas diárias, que cruel morte não se daria.

Dos meus atos, a caminhada infante, a pé, para a fazenda de vovô Sebastião Alves, em plena invernada. Duas léguas e meia, descalço, na companhia de meu irmão Baía e de três primos. Todos mais velhos do que eu, a arrotarem coragem, a jogarem, na minha cara infantil, que eu não aguentaria o longo desafio. Caminhei, cheguei e não cansei. Para mim, um ato digno de Hércules. Ou melhor, de Jerônimo, o Herói do Sertão.

Das coisas, só guardo lembrança das bem pequenas. Pequenas, porém de real grandeza na memória atual. Um caminhãozinho com boleia de lata de óleo Samburá, sobre rodas redondinhas (cortadas de velhas chinelas havaianas), sem falar na carroçaria de madeira, pintada, com esmero, na oficina do Lau ou na do Zé Aguiar. A coleção de carteiras de cigarro, dinheiro valioso nos jogos de bilha. O cofre azul, na forma de um bacorinho, que ganhei do meu tio Arcanjo, para guardar as moedas ganhas, poupança nunca realizada.

Espero que, dessa singular herança pessoal, meus três filhos guardem — com lealdade, zelo e carinho — tais bens. Pequenas venturas, grande patrimônio meu. No dever e haver dos meus dias, creio, o saldo me é positivo — e que assim seja, pelos anos e anos que ainda me advirão.

Bom domingo.

 

Clauder Arcanjo