Clauder Arcanjo

 

Para Myriam Coeli

(In memoriam)

 

No rabo da longa noite

 

A esposa, sempre recatada, amanhecera bordada de luxúria, com os lábios pintados de fúria-carmim.

Ao meio-dia, a única herdeira, discípula das Filhas de Maria, desembestara na mata fechada, a fazer amor com quem encontrasse pela frente.

Ao cair da tarde, num crepúsculo de sangue e pavor, o dono da casa fechou a porta da frente do pequeno casebre, soltou todos os bichos, esticou o braço para o céu e... fugiu.

Segundo falam, segurou no rabo da longa noite que já se anunciava no galope do poente.

 

***

 

Descrença

 

Trôpego, desceu do cavalo baio e mirou na porta de entrada. A cachaça tirava-lhe o rumo de casa, apesar de fingir-lhe consolo.

Cambaleante, chegou ao alpendre, cuidando de sentar no primeiro tamborete. A cachorra Piaba nem se deu ao desfastio de suspender a sua caça às pulgas.

Com pouco, a voz irritada da companheira. Resmungando da vida na rede velha na sala.

Quis levantar e encarar a vida, mas uma leseira tomou-lhe as carnes, deixando-lhe como se leso a tudo.

Lá fora, o cair morno da tarde a banhar a mata com uma descrença de doer nos olhos e no juízo.

Cambaleante, deixou o alpendre, subiu no cavalo e, mais trôpego ainda, fugiu, apesar de não ter esperança nem consolo.

 

 

 

Reflexão Domingueira CCXCIX

 

Doravante não irei adiante; fiquei rosnante, hesitante, cambiante, mas nunca apelante, diante de ti.

 

Reflexão Domingueira CCC

 

Imagino a fantasia abrir a cortina da esmola do sol na espelunca da mente quase demente, parindo o brilho extasiante da rima final, mesmo diante do sumiço da esperança pela porta do sepulcro do adeus.

 

Clauder Arcanjo

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