“Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos” Anaïs Nin

Confesso que já mantinha certa desconfiança, mas só tive a certeza de que havia aprendido muito pouco nesta longa jornada, desde o nascimento até o portal da velhice, quando a minha neta Isabela (Belinha), menina viva, cheia de interrogações e exclamações estonteantes, me perguntou com voz arrastada:

“Vovô, por que essa rosa vermelha não é azul?”

(Então, estávamos no “Jardim de Maria”, área do Reino da Quinta dos Pirilampos, devotada às flores mais destacadas, pela beleza e pelo aroma. Ali reinavam aquelas que mereceram de nós a preferência por suas qualidades e por isso as declaramos princesas: rosas, açucenas, jasmins, bugaris e algumas flores silvestres.)

Pensei numa infinidade de respostas recheadas de lógica ou em explicações baseadas no fenômeno ótico ou na botânica, imaginei uma resposta teológica, e até mesmo tive vontade de contar a estória de Monteiro Lobato, “O reformador da natureza”. Pensei em tudo o que um ser humano, em seu senso comum, teria cogitado naquelas circunstâncias.

Mas, contive a enxurrada das minhas sabenças, quando tive a percepção de que nenhuma das respostas atenderia à curiosidade de Belinha, porque ela era uma criança e dessas cheia de imaginação – por certo haveria de querer sempre mais do que a lógica simplória poderia lhe oferecer – e não seria eu a subverter esse privilégio que Deus lhe concedera, de pensar com os olhos (ou de ver com a alma).

No pouquíssimo tempo em que refleti sobre a orientação da pergunta e me assegurei do contexto adequado para a resposta, fui tomado por uma lembrança-relâmpago, que acendeu a memória da minha própria infância. Esse recurso não é nada incomum. Sempre retorno às minhas recordações infantis para compreender os jovens, assim como me valho do meu difícil aprendizado existencial, para entender os obstáculos enfrentados pelos recém- iniciados ou alheados da sabedoria.

Vi-me, então, diante do olhar tolerante, mas perplexo, do meu pai, avaliando a minha pergunta sobre “o quê sustentava o céu, e o que evitava que ele desabasse sobre a nossa cabeça”.

Lembro-me que naquele momento mágico, único, em que eu iria ter, talvez, a mais fantástica descoberta da minha curiosidade infantil, a minha ansiedade só era contida pela certeza de que receberia uma explicação que iria pacificar a minha imaginação.

Então, eu não ansiava por verdades, até mesmo porque as desconhecia, mas pelas revelações, pela decodificação mágica do fenômeno, pelo seu envolvimento com a fantasia, porque este era o meu universo. Contrariá-lo, contrapondo a ele os fatos desprovidos de imaginação, seria um desfloramento à tenra e fantasiosa natureza infantil.

(Como ocorreu quando a minha crença na existência de Papai Noel foi contestada por um realista amante da verdade, pai de um amigo de infância,  que achou absurda a iniciativa de alguém estimular mentiras na mente de uma criança. Talvez por isso o seu filho nunca foi feliz. Até hoje é um desassossegado filho das sombras.)

Meu pai afagou o queixo com a mão esquerda, como se buscasse socorro num cavanhaque imaginário, vagou o olhar pelo horizonte e retornou ao nosso plano, transfigurado, pareceu-me. Era um mago ou um contador de estórias, daqueles com longas barbas brancas, confiáveis óculos de aros redondos com lentes incolores e um cajado entre as duas mãos.

“O céu, meu filho, é como uma peça de tecido especial que não tem começo nem fim, imenso, onde estão bordadas as nuvens, o sol, a lua…”

Como se adivinhasse a minha próxima pergunta, prosseguiu:

“Esse tecido tem pequenos furos, invisíveis para nós, por onde escorrem a chuva e o vento. Pois bem, acima desse imenso toldo, que é como se fosse a lona de um circo, há um gigante, mais forte do que milhares de Hércules reunidos num só, cujo único trabalho é segurar os fios que sustentam o céu.”

Ainda mais uma vez antecipando-se à pergunta inevitável, esclareceu:

“Esse gigante é incansável e imortal. Há milhões e milhões de anos que faz o seu serviço e o céu nunca caiu.”

“E por que os trovões, os relâmpagos, as estrelas cadentes, o arco-íris..?”

“O trovão é o som de um grande tambor, que é o modo como o gigante nos avisa de alguma tempestade. Os raios e os relâmpagos acontecem quando duas nuvens entram em choque, uma delas é afastada e chora. As chuvas são as lágrimas das nuvens. Quando um cometa arremete contra o toldo, este se rasga, e temos as tempestades. O arco-íris é um aviso desse gigante de que a lona foi costurada e está tudo bem.”

A cada uma das questões que eu lhe apresentava a imaginação do meu pai mais burilava as respostas e mais o meu encantamento crescia com elas. E, naturalmente, o fortalecimento da minha confiança, de que a abóbada celeste estava segura, entregue ao mais forte e vigilante dos heróis.

(Alguns anos depois, já adulto, descobri na revista em quadrinhos “Asterix” que o rei dos gauleses tinha a mesma preocupação que eu: que o céu desabasse sobre a sua cabeça.)

Abandonei a divagação e retornei à questão da rosa. E desejei que os “olhos” da imaginação de minha netinha enxergassem a nova roupagem que eu adquirira, apropriada para o momento: vesti-me com um manto azul claro, sedoso, e um comprido chapéu cônico cheio de estrelas sobre a cabeça.

Assim caracterizado, encarei a minha neta por trás dos óculos de lentes e aros ovais, rezando para que ocorresse o milagre de torná-los redondos, cofiei os fios brancos da minha própria barba, e respondi, com a voz um tanto embargada pelas recordações:

“Um anãozinho, Belinha, um anãozinho  trapalhão e daltônico (expliquei o que significava a palavra) pinta as rosas de acordo com o seu humor – se está zangado, pinta de vermelho, se alegre, de amarelo, quando não sente nada e está sonolento, deixa-as brancas. Como ele confunde as cores por causa do defeito da vista, às vezes o resultado fica ao contrário do que queria…mas ele nem percebe.”

Arrematei:

“Você se lembra de “Alice no país das Maravilhas”, onde as rosas eram pintadas de vermelho para agradar á rainha?”

Ela confirmou.

“E Então! Você pode dar às rosas o colorido que você quiser, usando um pincel mágico, especial, que só você o vê.”

Ela, um tanto insegura quanto ao resultado, argumentou:

“E se as tintas não “pegarem”? Porque em “Alice” as flores eram pintadas com pincel de verdade, não eram, vovô?”

Nem pisquei.

“Aí você fecha os olhos, pensa na cor que você deseja e se afasta. Quando estiver bem longe, você abre os olhos. Elas ficarão gravadas na sua cabeça, como uma fotografia, e então, você poderá vê-la na cor que você escolheu. E tem mais uma mágica –  só você poderá vê-la na cor escolhida”

Ela me olhou com uns olhinhos miúdos e maliciosos e sentenciou:

“Já sei! Todas as cores estão na minha cabeça, então a gente escolhe uma e manda um recado pros olhos dizendo para eles verem do jeito que a gente quer, não é?”

Confirmei, e ela se deu por satisfeita.

Alguns dias depois ela me telefonou dizendo que tinha inventado uma nova brincadeira. Quando ela não gostava de uma certa cor em qualquer objeto – e até em pessoas – ela mudava, fazendo do jeito que eu havia ensinado e que estava se divertindo muito.

Sempre vigilante, o meu querido irmão José fez-me refletir sobre o sentido e a percepção, o real e o intuitivo. E veio na companhia do clarividente Rubem Alves, capaz de enxergar na escuridão, como o fazia o poeta Jorge Luis Borges. Atrevo-me, portanto, a navegar entre abrolhos.

Por minha conta e risco, mas balizado pelos mestres, faço uma distinção entre ver e enxergar, cuja distinção é desestimulada pelos dicionários, mas, ao menos o Houaiss, embora sutilmente, esclarece que no enxergar há mais acuidade que o ver.

No entanto, tenho para mim que o primeiro vocábulo é o atributo do sentido da visão, o ato de distinguir as coisas pela forma, cor e luminosidade, no mundo de relações denominado por nós como real. O segundo consiste num ato de revelação, numa percepção que ultrapassa o simples ato de captar as imagens desse universo real – vê-se também com o pensamento, com a projeção da imaginação.

Enxergar é ver além da distinção imagética, é ver com a alma. E esse modo, mais perceptivo que sensitivo de decodificar o universo, é tão ou mais importante que simplesmente entrevê-lo pelo órgão da visão, sem qualquer arrebatamento.

Enxergar é ver com a imaginação, como o fizeram os pintores impressionistas e surrealistas, ou os fotógrafos e cinegrafistas que trabalham com efeitos especiais.

Por que? A resposta está numa nova pergunta; por que nos sentimos tão atraídos pelas imagens ilusionistas, pelas “sensações” que elas nos transmitem? Certamente porque há um processo de empatia entre elas e o nosso inconsciente. Algo que transcende à lógica.

Defendo que não há barreiras entre o ilusório e o real, senão aquelas criadas por nós mesmos, por medo, conveniência, desesperança ou cegueira. Não teríamos energia elétrica ou nuclear, telefone, cinema e televisão, computador e outras miraculosas “invenções” se não fosse o sonho dos criadores.

As teorias ditas científicas são, na verdade hipóteses criadas pela nossa imaginação a que alguém, um visionário, deu crédito e as converteu de energia em estado sutil, em massa, energia em estado condensado. Ou as manteve em estado natural – as ondas eletromagnéticas…

Às vezes, vê-se o universo que chamamos de real, sem forçar a imaginação para mais além, distinguindo-o nu e cru, sem nenhuma fantasia. Mas se alongarmos o olhar buscando a essência mágica das coisas, poderemos perceber, por exemplo, que o efeito produzido pelo reflexo da lua, numa poça d’água, não se resume à imagem espelhada, mas às cogitações e divagações que esse fenômeno nos desperta.

Por que não cogitar que a lua é vaidosa e que se distrai vendo-se refletida na poça. Cuidar para que ninguém pise na poça, para não ferir a lua, que se transporta para o espelho d’água… situar-se além do plano visível, alcançando uma outra dimensão, a imaginativa.

Por que? Porque não satisfaz ao apetite da nossa porção espiritual apenas o registro das descobertas para o conhecimento do consciente, mas para a satisfação da nossa alma, para nutrição da nossa sensibilidade.

É necessário cuidar de dois processos no nosso aprendizado existencial. O do conhecimento e o da sabedoria, sendo o primeiro a educação das habilidades e o segundo a educação das sensibilidades. Dessa divisão, conclui-se que o domínio da habilidade sem o concurso da sensibilidade é inócuo, porque conduz o ser humano ao automatismo, ao invés da criatividade, que é da sua natureza.

O universo é recriado todos os dias, e por isso atende à sua essência dinâmica, pela ação da imaginação, da inventividade humana, que tem efeito transformador. A evolução, portanto, é fruto da criatividade e não da repetição. Einstein percebeu essa verdade quando admitiu que a imaginação era mais importante que o conhecimento.

Faço, portanto, uma convocação. Vamos enxergar. Quando estivermos diante da beleza. Quando nos roubarem as cores do arco-íris. Quando nos oferecerem um cavalo de tróia carregado de cores escuras para invadir os nossos luminosos quintais de sonhos multicoloridos. Quando quiserem emudecer o canto dos passarinhos que buscam pouso na nossa alma. Quando nos negarem o pão do espírito e nos condenarem à única opção do pão de trigo para a nossa sobrevivência.

Quando formos levados pelas circunstâncias a enxotarmos o menino que se esconde no sótão da memória, para abrigar apenas o adulto e o velho, sem lembranças ou sem fantasias…

Que jamais sejamos como as pedras, que não mudam, nem se transformam – permanecem pedras pela eternidade, sem florescerem jamais. Se nossa humanidade insistir na transmutação e não encontrar o vegetal ou outra espécie mutante, e o destino da pedra seja-nos reservado, que nos convertamos pelo menos no limo ou no fungo que as recobre, para sermos o testemunho de vida que habita o ser inanimado, imóvel e insensível.

Pedro Simões – Escritor. Avô de belinha e filho de Percílio.