Por Ivan Maciel

Li algumas vezes, em diferentes etapas da vida, o romance “Humilhados e ofendidos”, de Dostoiévski, republicado não faz muito tempo em português com tradução diretamente do russo. Esse romance exerce grande fascínio mesmo sobre leitores pouco familiarizados com as obras desse escritor de fundamental importância para a literatura universal. Há nesse romance, ainda hoje de leitura indispensável, personagens e cenas que prenunciam o genial autor que apenas estava surgindo. O próprio título do livro, como destaca o prólogo da edição publicada pela Aguilar, contém “subjacente uma implicação social e metafísica: a prepotência dos poderosos sobre os fracos e desprotegidos”. Essa “prepotência dos poderosos sobre os fracos e desprotegidos” me parece ser um fenômeno universal, de todos os tempos, de todos os regimes políticos, de todas as sociedades.

E as desigualdades sociais vêm crescendo no mundo atual, quer nos países emergentes, quer nas sociedades mais desenvolvidas. Essas desigualdades não se refletem apenas no fato de uma casta privilegiada dispor de fabulosa quantidade de bens materiais, de desfrutar dos melhores níveis educacionais, de usufruir de excelente atendimento médico-hospitalar ou mesmo de contar com grau bem maior de segurança e de proteção à vida e ao patrimônio. O aspecto da desigualdade que mais fere, tornando-a mais injusta e revoltante é o que cria diferenças de oportunidade de autoafirmação na vida para ricos e pobres, pois funciona como um sórdido mecanismo de perpetuação da própria desigualdade, ao bloquear ou reduzir as possibilidades de ascensão social com base no mérito.

Por que tanta injustiça, tanto sofrimento, tanta riqueza concentrada nas mãos de tão poucos e tanta carência e privação disseminadas pela maior parte da população de nosso planeta? Constituiria isso uma fatalidade, decorrente da própria condição humana, da disparidade de aptidões e talentos que pode ser identificada entre pessoas ou mesmo entre grupos sociais e, se formos mais longe, entre os próprios países? Essa situação indicaria que alguns nascem sob o estigma da inferioridade social? Ou tudo não passa de deformações e distorções surgidas, morbidamente, dentro das próprias organizações sociais, suscetíveis, portanto, de correção pela atividade controladora do Estado?

O certo é que se evidencia inadmissível a conformação diante da miséria de povos e segmentos sociais vítimas da fome e das doenças originárias do atraso, da pobreza e, sobretudo, da inexistente ou deficiente assistência médica e hospitalar. Isso sem falar na falta de perspectiva em face das graves carências educacionais. Os programas “humanitários” não conseguem transformar esse estado de coisas. Apenas criam uma transitória sensação de desafogo e algum bem-estar. São válidos, mas adiam medidas de longo alcance. Por isso, deixam muito a desejar. Questiona Santo Agostinho em suas “Confissões”: “De onde procede o mal se Deus, que é bom, fez boas todas as coisas?”. O mal existe com tal intensidade que se pode até temer que predomine sobre o bem. Mas a desigualdade social não é problema metafísico. Tem natureza histórica, sociopolítica e, em última análise, ética.