(*) Rinaldo Barros
            Esta conversa pretende alumiar os desafios atuais pós-eleição, na busca de um projeto de Nação.
Democracia não anula a oposição. A oposição é necessária, na maioria das vezes aponta soluções.
Diz a sabedoria popular que “o pior cego é aquele que não quer enxergar”. Acendeu uma luz.
Por unanimidade de votos, o Plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acolheu, na sessão da última terça-feira (4), pedido do PSDB para que a sigla tenha pleno acesso aos sistemas de votação, apuração e totalização dos votos, para que possa, se desejar, realizar uma auditoria própria. Sábia decisão pacificadora!
Na oposição (sem adjetivo), ninguém odeia pobre, rico, negro, branco, nordestino, paulista, homem ou mulher! Odeia-se ladrões, e parece que parte da população brasileira também demonstrou isso: mais de 88 milhões de eleitores, aptos a votar, não votaram no PT (Dilma foi reeleita dentro do que determina a lei).
É indispensável e urgente aprofundar investigações sobre todo e qualquer tipo de corrupção, com foco na roubalheira da Petrobras e depoimentos de delação premiada (porque não podem mentir).
Fechadas as urnas e conhecido o resultado da mais disputada e acirrada eleição presidencial desde 1989, com 3% de diferença para a vencedora, a presidente reeleita terá de se defrontar com o desafio de governar um País de ânimos políticos acirrados como há muito não se via.
Além disto, o processo eleitoral, em tudo que o abarca, deixou para os próximos anos um cenário político mais complexo do que o encontrado pelos presidentes nos últimos 20 anos. E essa complexidade se refere a um conjunto de problemas. Vivemos um momento muito difícil, no patropi. Vejamos.
O menor problema (embora não seja simples) é o novo Congresso. Ao que se nota, a presidente reeleita terá de contar mais do que antes com os partidos de adesão - aqueles que apoiam qualquer governo, independentemente da coloração programática, desde que bem recompensados com cargos e verbas.
Na Câmara, esses partidos contavam com 13 agremiações até antes das eleições, saindo dela com 20. É bem verdade que, dentre eles, “apenas” 9 têm uma bancada de ao menos 15 parlamentares. E esses possuem o simbólico número de 50,1% das cadeiras. Ou seja, sem sua adesão, não se governará.
A dependência dessa adesão fisiológica se tornou ainda maior com o declínio da bancada do PT e aliados. Com o apoio do PSB, esse grupo beirava, formalmente, os 30% da Câmara e do Senado. Mas com o rompimento das siglas, bem como a perda de deputados pelo PT, esse número se reduziu para menos de 20% na Câmara e ficou em um quarto do Senado. A situação melhoraria um pouco no caso de um reatamento entre PT e PSB - hoje pouco provável.
O segundo problema será fazer a economia voltar a crescer e, ao mesmo tempo, por freio à inflação. Isso requererá medidas que, no curto prazo, poderão ser impopulares (cortes de gastos, aumento nos preços de energia e combustíveis, elevação dos juros), provocando um desgaste logo de saída. Serão também necessários sinais concretos ao setor privado que possibilitem uma retomada da confiança empresarial, viabilizando o aumento do investimento privado no médio prazo.
Caso o investimento privado aumente, poderá propiciar um influxo favorável à popularidade governamental. Porém, se demorar a ocorrer, para além de seus problemas intrínsecos, tende a gerar um desgaste que aumentará ainda mais o custo das negociações políticas.
O terceiro problema está relacionado ao clima de conflagração e acirramento de ânimos que vem caracterizando de forma crescente o debate nacional. Nas redes sociais e nas ruas, o ânimo político tem sido mais acerbado do que entre as lideranças partidárias. A criminalização pura e simples do adversário, a sabotagem digital e a disseminação de boatos perigosos indica que o próximo período promete turbulências indesejáveis.
O uso cada vez mais intenso e pouco rigoroso da palavra “golpe”, as analogias histórica e teoricamente descabidas do Brasil com regimes autoritários, tudo isto produz um clima político que requererá da presidente reeleita, e de seu partido, uma iniciativa real para o diálogo e uma ordem de moderação aos seus correligionários e simpatizantes. O diálogo deve vir em forma de projetos que interessem ao povo brasileiro: um Projeto de Nação. Para além das bolsas e das cotas, onde o Brasil quer chegar?
Afinal, deve-se governar para o conjunto da população, e não apenas para o PT e aliados.
Não levar isto em consideração, seja fomentando ainda mais a radicalização do debate, seja não orientando seus militantes para tentar unir o país, pode até mesmo não ocasionar uma deterioração mais séria das condições institucionais, mas tornará o ato de governar muito mais difícil.
Para que nosso povo volte a sonhar novamente, no caminho da mudança, vamos precisar de todo mundo.
 
(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com