Cambono

(Parte XX)

 

Clauder Arcanjo

 

Habemus P.V.A.L.

 

Para o ufólogo Deodato Souza

 

No capítulo anterior, com a eleição declarada cancelada, você bem se lembra disso, esquecido e apático leitor, o pau comeu no sertão de Licânia. Como bem usei da apropriada metáfora: “E o inferno se instalou nas ribeiras de Licânia. Não sob a forma de labaredas de fogo, mas, sim, sob a concreta e terrestre forma de tapas, agressões e hiperbólicos tabefes assentados no pé do ouvido”.

Se me gabo?! Claro que sim; e, por que não? Se não me elogio, não tenho a menor das dúvidas, ninguém ocupará a sua pena para cometer o sacrilégio literário de louvar ou incensar este pretenso novelista folhetinesco.

Sete dias e sete noites depois da hetacombe eleitoral, onde, entre mortos e feridos, lascaram-se (mas não morreram) todos, a comunidade mergulhou num silêncio sideral.

— Silêncio sideral?! Não me venha com mais exageros, ou com a tal da literatura fantástica; ouviu?, seu Clauder Arcanjo!

Calado, metido leitor! Não atrapalhe a minha engenhosa fabulação. Tenha modos! A coisa já me surge com dificuldade, o parto se me anuncia com muito sofrimento, suor e dor, e você a atrapalhar-me na construção desses parágrafos!?... Tenha paciência!

Xô, xô, xô!... Vá ver se eu estou na esquina dos best-sellers, e me deixe mentir e criar à vontade. Ao sabor da pena. Celerada, louca, simbolista, agônica, barroca, romântica, realista, sideral, fantástica, simbolista, detetivesca... Isto, cá comigo, pouco, muito pouco, me importa. Salvando o capítulo e cumprindo o meu compromisso com esta gazeta, em tão agitada semana natalina, dou-me por tranquilo, feliz e satisfeito.

Você sabia que o editor enviou-me, ainda ontem, bem cedo, um recado? Nele, cobrava-me — contundente e zeloso — celeridade e cumprimento de prazo, pois o jornal mergulhará na ceia natalina, antecipadamente. Salvemos o peru dos gazeteiros! Salvemos o peru dos gazeteiros!

Deixemos de divagações e voltemos ao ponto.

Onde eu me encontrava? Não sabe! Nem eu; então, minha Nossa Senhora dos Aflitos Literatos, perdi-me. Ô, meu Deus! Só me faltava esta, perder-me por entre os meus próprios rabiscos.

Já sei. Um minuto. Terei que voltar, lerei tudo num embalo só e verei se esta prosa pega no tranco. Aguarde-me.

...

“Sete dias e sete noites depois da hetacombe eleitoral, onde, entre mortos e feridos, lascaram-se (mas não morreram) todos, a comunidade mergulhou num silêncio sideral.”

...

Nada. Mil vezes nada.

Vamos fazer o seguinte: como nada me acode, proponho-lhe uma pausa. Tempo discricionário. Abra, então, uma janela (se é que você tem janela) no seu aposento. Encoste este capítulo, e vá ver o sol. “Here comes the sun”. Sim, o título desta música dos Beatles acorreu-me à memória, e, depressa, voltei no tempo. Para a já longínqua década de 70, do século passado. Minha primeira aula de inglês. Nossa professora, que até o ano anterior era versada no francês no Ginásio Santanense, teve que se adaptar, mais do que depressa, aos novos tempos, trocando o “Bonjour” pelo “Good morning”, sem falar na permuta do “Je t’aime” pelo “I love you”. Nossa meninice não compreendia nada, nem em francês, muito menos no inglês. E o pior: nem sabia para que aquilo tudo lhe serviria. Alguns protestavam contra aquela língua esquisita e cheia de engrolados na pronúnica. Só serenei os ânimos de revolucionário linguístico, quando ouvi “Here comes the sun”. Sim, leitor, abra esta janela! Lá vem o sol.

— Não há sol no meu domingo!?...

Então, sabe de uma coisa, seu f.d.p.? Vá à merda!... Isto, à merda! Não só você. Leve, também, o seu pai, a sua mãe, a sua mulher e os seus filhos.

Ops! Desculpe, perdi o autocontrole. Minhas mais sinceras desculpas. É porque esta novela-folhetim me põe irritado como um quê. E, quando o leitor não viaja comigo, optando por ficar preso ao caminhão da tosca realidade, ou atado ao pestilento atoleiro dos dias, eu enlouqueço. Sinceramente, eu enlouqueço!

— Calma, calma. Muita hora nesta calma!

Você ainda tripudia e zombeteia do meu carma? Deste meu difícil e ingrato ofício? Tudo bem, a vida tem dessas coisas.

Visto o sol, arme a rede e deite-se. Leia algumas páginas de Pílulas para o silêncio. Depois, entregue-se à modorra. Modorra que antecede à benfazeja soneca. Se possível, sonhe com um novo capítulo para Cambono.

“Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz....”

Silêncio, o meu leitor dorme. Um anjo de leitor! Registre-se aqui.

Como não tenho nada a realizar, entrarei no cocuruto dele e verei o que, de bom (ou de mal), lá acontece.

 

***

 

Quando a eleição foi cancelada. A cidade caiu em luta livre. Não havia pai, nem mãe nem menino que escapassem da louca e desenfreada pancadaria. Exército dos pimbas-pretas contra a legião mais mansa dos pimbas-brancas. Uma espécie de Batalha de Stalingrado sob o céu azul e, até então, castiço de Licânia. Em vez da neve, o palco do espinhoso semiárido nordestino. O sangue corria nas sarjetas das ruas, ruas calçadas por esmerados paralelepípedos. Quando turvou, de vermelho escuro, as águas do rio Acaraú, deu-se algo esquisito. Esquisito, porque não conheço um vocábulo melhor.

As estrelas se apagaram, e enormes discos voadores, como grandes bolas de fogo (com luzes a piscarem, fortes), cobriram o firmamento. Todos ficaram como se estátuas, paralisados. Melhor, congelados. As naves ziguezagueavam nos céus, como se enormes pirilampos malucos. De repente, pararam, a uns cem metros de altura, cobrindo, de brilho e fogo, as nuvens acima do Alcine Clube, no exato momento em que o sangue chegava às águas plácidas do Acaraú. Em seguida, despejaram um jato luminoso sobre todos os presentes.

Os que estavam mais longe, ao verem a cena, cagaram-se, todos. Literalmente, de grosso e catingoso medo.

Exatos sete minutos transcorridos, as naves recolheram os seus halos de intensa luminosidade; subiram e desceram por entre as nuvens e, velozmente, sumiram, na direção do Serrote da Rola.

Mais sete minutos, os homens e mulheres, estáticos até então, abriram os olhos, mexeram braços e pernas e começaram a andar, no rumo dos seus lares. Não sem antes se abraçarem, de forma lenta e com olhares perdidos, desejando, entre si, um feliz novo ano.

Um grito rascante ecoou na Praça do Poeta, quebrando a paz sideral que se estabelecera:

— O juiz sumiu! Desconfio que ele foi abduzido pelas P.V.A.L.s! — era Donato, o único que acreditava em naves espaciais e em seres extraterrestres naqueles rincões licanienses.

Se eu vou explicar o que significa P.V.A.L.?! Claro, seu apressadinho! Porra Voadora nos Ares de Licânia (P.V.A.L.).

Quanto ao restante desta saga sideral, só na semana que entra. Preciso de me recolher para o Natal. O novelista folhetinesco também ceia.

Não sei por que uma estrofe, em espanhol, me acorre à memória:

 

Finas perlas le bordan el pecho,

quedando más rico con la contrición:

cada pena, le alcanza una glória;

cada lágrima, impetra un perdón.

 

De quem seriam esses versos?

Não sei agora. Fique com eles e descubra a sua autoria, leitor.

Deixo aqui, no fechamento deste velho ano, o meu protesto, ao estilo machadiano: “Já não se lê novela como antigamente. Mudamos nós ou mudaram as novelas?”

— Não cabe este protesto!... Você ainda nem terminou de escrever o capítulo e já vem com...

Ora, ora, seu leitor de uma figa. Vá à m...!

 

Clauder Arcanjo

clauderarcanjo@gmail.com