André Valério Sales

Escritor e Assistente Social em

Arez/RN, seu confrade na UBE/RN.

1.      Introdução:

 

            Este meu escrito tem o objetivo de fazer uma ode à minha amiga Anna Maria (Cascudo-Barreto), post-mortem, e citar um ou dois casos que vêm a demonstrar sua bondade, enquanto mulher, poderosa, escritora, acadêmica da ANL/RN, etc., e filha dileta de Luís da Câmara Cascudo.

            Ou seja, pelo nome do pai, espera-se que a filha única, mulher (ele também teve Fernando Luís), tenha seguido o caminho de seu pai: um homem de coração enorme, que cabia várias pessoas dentro; uma afirmação que é verídica para quem conhece profundamente a sua biografia.

            Minha amizade de 10 anos com Anna Maria só me provaram que seu coração era enorme, no sentido de caberem em sua afeição pessoas ricas ou pobres, tal como Cascudo, o pai, e que ela era uma pessoa extremamente boa, generosa.

            Lembro que a tradição nordestina é não falar mal dos mortos. Mesmo assim, como uma repetição dos escritos de outros autores que com ela tiveram a sorte de conviver, e escreveram já sobre a pessoa de Anna Maria, como o amigo Eduardo Gosson, decidi que deveria deixar também escrito meu depoimento sobre ela, procurando, de alguma forma, imortalizar quem já era “imortal” (por ser Anna Maria membro da Academia de Letras do RN, além de mais outras 5 ou 6 Academias espalhadas pelo Brasil).

 

2.      Citações aleatórias sobre a bondade de Anna Maria:

Tenho tantas coisas boas para dizer (e escrever) sobre minha amiga Anna Maria, que nem sei por onde inicio...

Primeiro: alguém vendedora de uma loja, um dia me disse que não gostava do jeito de Anna, de se dizer filha de Câmara Cascudo, talvez para ser melhor atendida naquele lugar!

            Quem conheceu Anna Maria sabe que ela amava vestir roupas confeccionadas por bordadeiras nordestinas, inclusive bolsas simples, feitas de tricô (como a que ela usou em meu primeiro lançamento de livro.

            Quero afirmar com isso que certas pessoas, alheias à vida cultural do Estado, atendiam Anna Maria sem nem sonhar que ela era uma pessoa tão importante, e nem pertencente às classes baixas ou médias. Como poderosa que sempre foi, Anna Maria, mesmo vestida de modo simples, tal como era de seu feitio, gostava, obviamente, de ser bem tratada nas lojas por onde andava, como qualquer pessoa, seja comprando, seja apenas olhando as coisas diferentes às quais poderiam agradar ao seu gosto por compras.

Minha crítica a estas pessoas é que elas não compreendiam: nem a simplicidade modística de Anna Maria, nem a reconheciam como uma dama da alta sociedade natalense, digna de respeito, em todos os lugares por onde passava, e minimamente em uma loja de roupas, a ser tratada como qualquer outra natalense, independente da verba que carreguem em seu bolso para gastar com roupas e acessórios!

Deus há de perdoar quem cometeu tais des-educações com minha amiga, ou até mesmo, comigo. Independente de minhas roupas, sou muito bem tratado em joalherias que frequento (e gasto dinheiro), tanto em Natal como em João Pessoa, onde morei, onde fiz Mestrado e cheguei a lecionar na UFPB.

Segundo: conheci Anna Maria Cascudo-Barreto dentro do Supermercado Nordestão, onde ela fazia suas compras, na Cidade Alta mesmo, perto de sua mansão, em Petrópolis (eram cerca de dez horas da manhã).

Há dez anos, naquele momento de compradoras de coisas miúdas, vi Anna Maria sentada em pleno supermercado, como uma idosa, e recebendo “vivas” de alguns frequentadores que a reconheciam. No pouco tempo em que a esposa de um Coronel lhe felicitava (não sei quem era a senhora), logo reconheci que ali estava uma pessoa que não gostava de ser assediada, como uma atriz de TV.

Dez minutos depois, me apresentei: – Sou André Sales, venho do Instituto Histórico, Antonieta me ensinou onde fica sua casa e eu estava indo para lá, com a intenção de pedir que a senhora prefaciasse um livro meu (no caso, meu terceiro livro: Câmara Cascudo e seu compromisso com a classes populares).

Ela não só me recebeu muito bem, em plena balbúrdia do Nordestão, quanto aceitou ver o livro, e assim, marcamos para outra hora. No entanto, quando ela me disse que morava mais de vinte andares acima do chão, num lugar que dava pra ver a cidade toda, lá de cima (lindo!), meu medo de altura falou mais alto, e eu desisti, marcando o encontro para outra oportunidade.

No dia combinado, não consegui subir ao seu apartamento/mansão, nem a pé, como tentei (no oitavo andar minha cabeça começou a rodar), nem de elevador (um primor, coisa de primeiro mundo!). Generosamente, Anna Maria desceu da tranquilidade de seu lar, e veio me atender: um escritor iniciante, ainda que premiado, mas, um verdadeiro abuso de minha parte (neste dia ela já me presenteou com suas memórias cascudianas: O Colecionador de Crepúsculos, de 2003). Porém, ela compreendeu plenamente meus medos e desceu para me atender. Uma pessoa desconhecida, e pobre!

O resultado foi o melhor Prefácio que, eu acho, Anna Maria já escreveu. 1) porque ela fala de seu contato com os ditadores civis-militares de 1964 (além de citar seu pai), e, 2) porque ela se deu completamente ao seu texto. Não omitiu nada, e, ao contrário, lavou a sua alma em relação a este assunto tido historicamente como “tabu”. Besta quem não leu o texto...

***

Daquele dia, em 2006, há dez anos, Anna Maria prefaciou, de graça, com todo o carinho e bondade, seis de meusoito livros publicados, sempre emparelhada com a Antropóloga Maristela Andrade, Doutora pela Sorbonne, Paris III (umoutro Prefácio foi obra de Enélio Petrovich, in memoriam, e outro, do amigo Cláudio Galvão, de ascendência arezense, professor Emérito da UFRN).

Não sei se no Hospital Anna Maria teve o prazer de ver mais um Prefácio seu publicado por mim (o último livro meu. E parei...). Este oitavo livro fala sobre os costumes judaicos no Brasil, e em Arez/RN, e por curiosidade própria, sei que Anna Maria amou tratar do assunto, ela que foi na Península Ibérica passear, recentemente, ao mesmo tempo em que foi atrás de suas raízes, talvez judaicas. Resultado: nada indica que a família Freire, advinda do Desembargador Teotônio Freire, seu avô materno, tenha vínculos com os judeus.

Há dois anos, liguei para Anna Maria e ela estava nos Emirados Árabes, em Dubai. Antes, esteve na Península Ibérica, como citado.

Ano passado (2014), cheia de alegria, ela me disse que foi em Paris, na França, simplesmente passear, na companhia de seu filho único, Nilton Cascudo, além de Daliana e Camila. Ela me disse que amou a viagem, o passeio, e revelou que Niltinho lhe foi uma companhia maravilhosa.

Diga-se de passagem, conheci primeiro, antes de todos, Nilton Cascudo, em seu expediente no Memorial Câmara Cascudo. Em minutos, há mais de dez anos, Nilton me deu uma verdadeira aula sobre o movimento dos indígenas entre Arez e outras paragens potiguares, demonstrando conhecimento profundo sobre a obra de seu avô, Luís da Câmara Cascudo. Para mim, Nilton, Daliana e Camila, têm o mesmo peso, se se comparassem os três em termos de inteligência e conhecimento em relação à obra de seu famoso avô.

Segundo minha maneira de ver e ouvir as pessoas, tanto Daliana Cascudo, com sua imensa inteligência e conhecimento sobre Câmara Cascudo, quanto Nilton e Camila são igualmente imbatíveis. Como biógrafo, escritor, amigo de Anna Maria, etc., que sou, avalio que Nilton Cascudo se me revelou ser mais uma sumidade no tema.

***

            Finalizando meu pequeno texto, de reconhecimento e agradecimento, quero relembrar da segunda vez em que tive coragem de subir os mais de vinte andares onde fica a mansão de Anna Maria (afora a primeira vez em que ela desceu para me ouvir): da primeira vez que a coragem me deixou e subi, sempre às oito horas da manhã, morrendo de medo dos mais de vinte andares, ela me ofereceu café, bolo, pão, etc., e eu, sem pensar, lhe disse des-educamanete: – Anna Maria, não me alimentei em casa, em Arez. Obrigado pelo café, mas gosto de comer no breakfest ovo, queijo de coalho frito, etc. Foi apenas um comentário.

            Somente um amigo confessa isso um para o outro...

            Demorou para eu ir, de novo, na mansão de Anna Maria, mas, da outra vez, não é que ela lembrou e, antes de me atender, de manhãzinha, a cozinheira me trouxe pão com ovos, bolo, café, e queijo de coalho frito e crocante?

            Essa é uma pessoa generosa ou não? Eu, um simples escritor e pobre. Ela me deixou feliz com sua lembrança, com sua memória prodigiosa, com seu amor aos que penam por ser alguém nesta vida!

Por tudo, por seis Prefácios de meus humildes livros (três deles esgotados), cada um com sua novidade da família Cascudo: obrigado Anna Maria Cascudo Barreto, Deus lhe pague.

Deus lhe pague pelos livros que você generosamente me deu, sempre os mais caros da coleção Cascudo, às vezes, em dinheiro vivo, para que eu os comprasse, sem mencionar seu nome, sua ajuda.

Peço a Deus que um dia nos encontremos de novo. Agora, só no céu. Juro a você que vou ser uma pessoa boa o bastante, generosa como você, para ter o prazer infinito de lhe encontrar lá, onde você está, no céu, junto com Deus!

 

Arez/RN, 21 de janeiro de 2015.