Clauder Arcanjo

 

— Clauder Arcanjo, quero lhe apresentar o meu novo amigo. Dadael, este é Clauder Arcanjo, de quem muito lhe falei.

— Muito prazer, senhor Arcanjo.

— Prazer.

Saudamo-nos, com um aperto de mão protocolar. Havia no rosto daquele homem um quê... esquisito.

Sei que não é correto julgar as pessoas de antemão; assim, mal tivemos o primeiro contato. No entanto, carrego comigo tal sina: “conhecer” um homem na chegada, no arriar das malas.

Pedi um expresso e fiquei, calado, bem no canto do ambiente. Como se não quisesse ter contato direto com Acácio e com o seu novo companheiro.

O café estava quase vazio. Era uma manhã de sexta-feira. O sol já estava alto, e a cidade caía numa modorra incomum. Sorvia o meu cafezinho, lentamente, a esticar os olhos sobre as manchetes sangrentas do jornal do dia. De repente, deu-se o diálogo abaixo:

— Dadael, eu, Acácio, estou por demais decepcionado com a nossa política. Os eleitos, mal tomam posse, já rasgam os compromissos de campanha e se põem a se locupletarem, metendo a mão ligeira no erário. As gazetas, diariamente, estão infestadas de denúncias de descalabros administrativos de prefeitos; das mais diferentes cidades, de todos os partidos, como se a corrupção fosse a regra. Não sei aonde tudo isto vai dar. Sinceramente, não sei.

— Faço minhas as suas palavras, Companheiro Acácio. A coisa toma fumos de crime de lesa pátria. Onde estão os verdadeiros cidadãos de nossa cidade? Calados, com os rabos gordos enfiados nas poltronas macias de suas mansões; assistindo ao circo pegar fogo; rindo, muitas vezes, da desgraça que assola a nossa nação. Quando cansam um pouco, descansam na Europa e nos States. Francamente, francamente.

Suas palavras cresciam em fúria, e em tom. Gesticulava, freneticamente, como um orador anarquista.

Um cego, que passava na calçada da frente, parou, aguçou as oiças e, ao perceber o tom de puro ódio, cuidou de pedir esmola na esquina seguinte.

O dono do café servia os outros clientes, porém, cabreiro e vigilante, não perdia de vista os dois.

— Dadael, estamos prestes a entrar em ebulição. O caldo já ferveu; falta muito pouco, pouquíssimo, para entornar. Você concorda comigo? — Companheiro Acácio quase subiu no tamborete para professar com mais potência o seu ferino e agudo protesto.

— Se estivéssemos num país sério, Acácio, de povo zeloso com a sua gente e guardião das novas gerações, já seria o caso de todos pegarmos em armas e tocarmos essa mundiça para fora do poder; estabelecendo, em seguida, o regime da ordem e o império do progresso. Mas, qual o quê!... Olhe em nosso redor! Olhe!... Estamos todos “contentes e satisfeitíssimos” com o achincalhe e o desbunde dessa política partidária. Política?! Não, po-li-ti-ca-lha!... Como se aceitássemos, solícitos, o roubo que desfila à nossa frente, a olhos vistos. Ninguém quer sair do seu conforto e mexer um dedo, um dedinho sequer, para ajudar a construirmos uma nova sociedade — enquanto falava, levantou-se e foi em minha direção.

Sorvi o último gole, fechei o jornal e esperei, de peito aberto, o dito-cujo.

Acácio me conhecia e já cuidou de atalhar o seu novo amigo.

— E você, seu Clauder Arcanjo, a que tudo escuta e a que tudo ouve: o que vossa senhoria nos propõe? — vomitou sobre mim a sua fúria cáustica, fervente e bicuda. Com os olhos avermelhados, a quase saírem das órbitas.

Limpei a garganta, passando, bem devagar, o guardanapo de papel sobre os meus lábios; e, sem altear a voz, nem perder a compostura, defendi a minha nova plataforma política:

— A minha proposta é muito simples, augusto e nobre senhor: candidate-se nas próximas eleições. O País precisa da sua coragem. E, de antemão, fique logo sabendo, conte com o meu voto e o do Companheiro Acácio. Correremos becos, ruas e vielas, a conclamarmos homens e mulheres a se juntarem à nossa causa. “Dadael, o puro e bom”. Já posso até antever o belíssimo cartaz da campanha — ao tempo em que falava, senti que o cabra amansava a “santa fúria revolucionária”.

Com pouco, aproveitou a entrada de um vendedor de cocada e tirou, em menos de fósforo, o seu time de campo.

O dono do café me olhou, com um riso no canto da boca. Pouco depois, chamou o Companheiro Acácio para junto do balcão e cobrou-lhe, com uma augusta e justa sobretaxa de serviço, a conta que o anarquista revolucionário da política deixara de honrar.

— Filho de uma égua! — deixou escapar o decepcionado Acácio, homem puro e bom, como poucos.

 

Clauder Arcanjo

clauderarcanjo@gmail.com