Uma das coisas da minha vida e que muita gente não sabe é que sou formada em Medicina, com Mestrado em Nutrição em Saúde Pública, profissão na qual militei de 1975 até 1990. Uma das matérias mais instigantes era a Psiquiatria – na época em que fiz o curso, a disciplina era estudada no 4º ano, com aulas no Hospital João Machado, que fica ali à direita de quem vai para o Parque das Dunas. Um dos pacientes tinha uma condição que nunca esqueci: uma coisa chamada “fabulação” que é diferente da alucinação (quando o camarada vê, ouve, ou sente coisas que não existem) e do delírio (quando a pessoa acredita firmemente em algo que não existe e que não faz parte do seu contexto cultural). A fabulação é quando o indivíduo, com a mente arruinada pelo álcool, pela droga ou pela esclerose, tenta lembrar-se de uma coisa, não consegue, aí inventa algo, geralmente tendendo à grandiosidade e ao exagero, para colocar no lugar da lembrança que falta. O paciente faz isso inconscientemente, ou seja, ele não se toca do que está fazendo. Por exemplo: você pergunta ao cara: “Onde o Sr. comprou esse relógio?” E a resposta: “Ah, esse relógio foi um presente de Ivete Sangalo, ela veio a Natal para um show e eu trabalhava no camarim, no final do show ela me levou pra o quarto dela, a gente transou e no final me deu o relógio de presente.” Eu hoje acordei me lembrando disso porque estou trabalhando em umas técnicas de escrever ficção diferentes daquelas que uso normalmente. Em vez da imaginação, a fabulação. É o mistério da mente humana, tão grandiosa que mesmo arruinada pelo álcool e drogas ainda consegue nos surpreender.