Meus caros, gostaria que lessem a parte final deste artigo sobre a ideia do prefeito de Natal de publicar parte de meus livros (não todos, claro, porque são muitos) e se acharem pertinente e não constituir constrangimento, ousaria pedir-lhes que se manifestassem a respeito, reforçando ou não o que me pareceu um bom propósito; não morrerei em paz sabendo que tudo o que produzi se dispersará com a minha morte.

Muito grato pela atenção.

PALIMPSESTOS
Revendo velhas anotações, datadas de 1980, deparo-me com o registro de conversas que mantive com o grande diretor teatral Jayme Lúcio Figueiredo, natalense nascido em Belém do Pará, autor desta pertinente e lúcida observação esta que me parece ainda continua valendo:
“A primeira coisa que percebi ao radicar-me em Natal foi a dificuldade que há de comunicação entre os diversos grupos que produzem cultura. Aqui o egocentrismo, o narcisismo e a vaidade contaminam tudo e ao mesmo tempo condenam o estado a um silencio estridente que faz do Rio Grande do Norte, como teria dito o jornalista Paulo Francis, “o estado mais silencioso do Brasil”. No teatro, uma das maiores dificuldades resulta da temerária idéia de juntar as pessoas através de um objetivo comum. Aqui é cada um por si e, quando muito, por seu grupo, geralmente formado por subservientes capazes das piores torpezas”.
Outra dessas dificuldades apontadas pelo introdutor do método brechteano nos palcos locais diz respeito ao autoritarismo e a auto-suficiência dos gestores "escolhidos à revelia do bom senso, todos eles cultivando em comum a incapacidade de dialogar com os artistas e produtores culturais”.
Trata-se de um texto longo que produzi com o intuito de enriquecer um dos volumes de minha trilogia “O spleen de Natal”, cujo primeiro dos três volumes foi publicado em primeira edição em 1996: é o primeiro livro editado sob os auspícios de uma lei de incentivo à cultura (Profinc), por iniciativa da produtora cultural Daniele Brito, logo esgotada e reeditada, anos depois, por iniciativa do professor Pedro Vicente Sobrinho que, desejando entrar para a Academia Norte-rio-grandense de Letras, precisava reunir os votos que lhe faltavam para eleger-se imortal. Foi aí que, sem pertencer aos quadros da Academia, acabei me tornando uma peça chave nessa disputa, embora sem o saber, pelo menos não naquele momento em que, pela primeira vez em minha vida o recebi uma noite, inesperadamente, em minha casa, à Avenida Odilon Gomes de Lima. Fiquei surpreso, pois embora o conhecesse de reuniões culturais e lançamentos de livros, não tínhamos nenhuma intimidade que justificasse um convite para visitá-lo, e vice-versa. É verdade que, alguns anos antes deste fato, quando eu ainda morava no Acre, o doutor Albérico Batista – que eu conheceria em Rio Branco e que se tornaria com o tempo um de meus melhores amigos – o visitei como acompanhante de Dr. Albérico, que o conhecera mais ou menos por essa época e fora visitá-lo em seu apartamento ao saber que ele estava regressando ao Rio Grande do Norte.
Mas, voltando ao inicio deste registro, certa noite, já em Natal, recebi eu em minha casa a visita do próprio Pedro Vicente, o que aliás muito me surpreendeu, pois na verdade ele sabia que eu não simpatizava com comunistas, um tipo de gente que como todos sabem só trabalham por seus próprios interesses, mesmo que isto lhes custe a honra. Recebi-o como manda a boa educação e ele, que na época era o diretor da editora universitária da UFRN, confessou-me estar ali para corrigir aquilo que ele considerava uma tremenda injustiça ao meu talento de escritor e a minha contribuição às letras potiguares (palavras suas que ouvi com um certo estarrecimento). Resumindo: queria ele corrigir esse erro, publicando um livro meu e eu, que não costumo acreditar em Papai Noel, disse-lhe imediatamente que só me interessaria pelo assunto se, em vez de um livro ele publicasse de uma só vez os três volumes do Spleen. Na verdade, ao propor-lhe tal coisa, o fiz mais com a intenção de despachá-lo, mas ele prontamente concordou e deu-me um curto prazo para fazer-lhe a entrega dos manuscritos. Uma semana depois estavam em suas mãos. Ah, impus ainda uma condição: que as capas fossem criadas pelo maior de nossos designer gráficos, o genial Afonso Martins, pois não ia eu querer que meus livros tivessem o mesmo tratamento labrojeiro dos livros costumeiramente publicados pela nossa UFRN. Sem hesitar, ele condescendeu com a imposição e afinal Afonso acabou, de fato, produzindo as três capas, cada uma mais elegante e bela do que a outra.
Alguns meses depois, enquanto eu revisava o primeiro volume (ele disse-me que seria melhor trabalharmos cada volume por sua vez; quando o primeiro volume estivesse diagramado e revisado, partiríamos para o segundo e depois para o terceiro, pois não havia revisores disponíveis para trabalhar conjuntamente a trilogia. Concordei. Algum tempo depois, voltei a recebê-lo em minha casa, quando ele confessou estar metido numa saia justa: seus amigos haviam lançado à sua revelia sua candidatura para uma vaga na Academia Norte-rio-grandense de Letras. Dei-lhes os parabéns, embora dizendo-lhe, de minha parte, jamais perderia meu tempo disputando uma eleição dessa natureza. Mas, se era de seu gosto, fazia-lhe votos de pleno êxito. Foi então que ele me disse que estaria eleito se Dona Maria Eugênia Montenegro mudasse sua disposição e desse-lhe o voto que lhe faltava. Respondi-lhe que, apesar de sermos velhos e bons amigos, não me via em condições de, não sendo acadêmico, obter o seu o voto para alguém a quem ela se recusava a votar. E ele disse-me que eu estava redondamente enganado: segundo ele, o jornalista Vicente Serejo lhe teria dito que, seu eu fizesse o pedido certamente conseguiria fazê-la mudar de opinião. Ainda relutei, mas ele insisti e, por desencargo de consciência disse-lhe faria essa tentativa. Logo no dia seguinte a visitei na casa do ex-deputado Edgar Montenegro, seu cunhado, onde a escritora assuense se achava hospedada e de lá saí, depois do jantar com os votos em mãos, três ao todo, pois a eleição se fazia com três escrutínios. Dona Gena disse-me que o fazia por mim, palavras que ela repetiria depois, a meu pedido, em uma carta escrita em sua letra inconfundível de mulher bem nascida, culta e educada.
Na manhã seguinte liguei para Pedro Vicente, pedindo-lhe que fosse à minha casa pegar os votos que estavam em meu poder. Passaram-se quinze dias. Resolvi ir ao seu escritório no Campus Universitário e fiz a entrega Foi seu passaporte para a imortalidade. Porém, o que eu não esperava aconteceu: algumas semanas depois, tendo terminado a revisão do primeiro volume do Spleen que então se reeditava, ele me deu o golpe de misericórdia. Disse-me que a editora estava falida e que eu me conformasse, mas lamentavelmente, para não faltar com a palavra, só podia publicar o primeiro volume... Hoje, aliás, uma verdadeira raridade bibliográfica. Os demais volumes continuam inéditos. Ou melhor, continuaram inéditos. Mas, espero que não mais por muito tempo, pois o prefeito Carlos Eduardo já por três vezes, em minha presença, instruiu ao secretário de cultura, em minha presença, que ele tomasse providências para a publicação se não de todos os meus inéditos, de alguns deles. Espero, assim, graças à generosidade de um prefeito que valoriza a cultura, ter, enfim, publicada essa trilogia que conta muito da história secreta e imaginária de uma Natal que geralmente dá as costas aos seus valores culturais. Só espero ter o prazer de, com a publicação dos três volumes do Spleen, resgatar as duas capas criadas por Afonso Martins, que ficaram inéditas e sem uso até o presente momento. E, se a obra tiver algum mérito, que os leitores agradeçam ao prefeito Carlos Eduardo a sua publicação enquanto estou vivo.