Desde a mais remota antiguidade, os pensadores se  debatem num dilema até hoje infindável, que diz respeito às formulações ideais postas diante da probabilidade de execução, algo bem próximo da singela proposição: isto é maravilhoso, é o ideal, mas, é possível, pode ser exeqüível? Sobretudo os enunciados políticos submetidos aos postulados éticos e morais. Nessa linha, Platão e Thomas Morus sobressaíram como teóricos idealistas, contribuintes para a equação de um mundo igualitário, justo, por conseguinte. Mas essa linha de pensamento se ajusta ao pragmatismo requerido pelo contexto contemporâneo, ou vão ilustrar o currículo dos acadêmicos como referencial utópico, sem qualquer possibilidade de aplicação positiva? Nessa linha de raciocínio, inserimos o exemplo do eminentíssimo amigo Adilson Gurgel de Castro como o idealista que vem dando certo. Uma ponte entre o utópico e o real exeqüível.

“Não sou utópico, sou idealista prático” – Gandhi

 

Adilson Gurgel de Castro é uma trindade que se singularizou tornando-se apenas Adilson, como os grandes homens: Saramago, Gandhi, Chico. Ninguém resiste ao apelo da memória quando o seu nome é pronunciado. Ou desconhece de quem se trata.  Pois é assim o meu amigo, um ícone de um só nome, pronunciado em uníssono, como unanimidade irretocável, insuspeitada, louvada e amada.

Ninguém lhe resiste. Tampouco ele resiste aos apelos alheios, é o “fantástico doutor sim”, um que tem a compulsão de conceder, apoiar, emprestar solidariedade, doar-se, fraterno e solícito, aos seus amigos. Sobretudo aos carentes de qualquer sorte avara. É bom por natureza, sem afetação, nem artifícios políticos. É porque é. Porque nasceu assim. Pau que nasce linheiro, não tem jeito, morre linheiro.

E porque é de boa semente, gene selecionada, germinação assistida de perto pelo velho Aristides, seu pai e herói, um modelo de bom tamanho.

Eis porque o confundem: a bondade e a ingenuidade são dadas como xifópagas e ele o seria. Um ledo engano. Assim como ser bom é ser “besta”, crédulo, manipulável. Outro engano. Já vi Adilson possuidor de uma ira justa, inconformado, indignado, irredutível, inflexível. Seu limite é a ética, os princípios, a decência. Portanto, não o confundam, podem até deixá-lo assim com o trivial, que não o incomoda, nunca com o essencial.

Para ele a bondade começa quando se é tolerante, compreensivo e solidário com as aflições alheias. E a ação caridosa, assim entendida, tem curso quando alguém torna possível o pleito do necessitado. Daí porque sempre diz “sim” e só depois investiga a possibilidade do preito. É desse modo que anima os outros, que alimenta a fé dos necessitados. E também porque vive atarefado, sem tempo para si mesmo, empenhado no atendimento das solicitações que lhe foram encaminhadas.

Ser bom, para ele, é acreditar na natureza humana, é ter caridade cristã, reconhecendo em cada semelhante um irmão, filho do mesmo Pai. Aproximar-se da criatura sempre pelo lado esquerdo, se esta não for canhota nem ambidestra, acostando-se à sua sombra. É fácil aproximar-se da luz, colhendo luminosidade para si mesmo. Difícil é achegar-se às sombras.

Rezam as crônicas que certa vez perguntaram a um sufi onde gostaria de reencarnar. “No inferno” foi a sua resposta. E esclareceu: “é lá onde precisam de mim”.

As libélulas, as borboletas, os vagalumes e os pássaros volteiam ao seu redor, que nem Francisco, o pobre de Deus. Mas também os cavalos do cão, os mangangás, os marimbondos e as abelhas. Até gaviões predadores. Não importa a companhia, porque ele é capaz de conviver com o demônio e não se perverter: possui o epistema existencial, como cristão convicto.

 

Conheci-o no final da década de setenta. Pedro Avelino Neto, então parceiro de escritório de advocacia, falou-me de um jovem e brilhante especialista em Direito Tributário, recentemente retornado de Santa Catarina, onde concluíra o mestrado. E cogitava convidá-lo para atender a essa demanda no nosso escritório. Infelizmente chegou tarde. Mas ficou a referencia.

Depois, recebi sugestão de alguns amigos para convidá-lo a assumir a posição de Pró-Reitor Substituto de Extensão. Nem ponderei e impulsivamente, menos pelos pedidos e mais por intuição, fiz o convite. Pediu-me para pensar e, alguns dias depois, confirmou a aceitação.

Sempre gabei a minha percepção extra-sensorial, a minha capacidade de avaliação intuitiva. Mas, no caso de Adilson, permitam-me, excedi esse dom. Foi, de fato, um segundo Pró-Reitor, porque não era substituto, era co-titular do órgão. Dedicado, criativo, produtivo, entusiasta. Graças a ele, conseguimos modelar uma função acadêmica ainda difusa e tímida, que vagava entre o programa de estágio e a cultura acadêmica. Ousamos ir além, estabelecendo pontes entre a Academia e a comunidade.

Tanto fizemos que a Pró-Reitoria de Extensão da UFRN, num encontro de titulares desta pasta, do norte e nordeste do país, recebeu a moção unânime de “modelar”. Tivemos a ousadia de realizar a primeira mostra de ciência & tecnologia do Rn: A I Feira de Aplicações Científicas e Tecnológicas da UFRN, que contou com a presença, na sua abertura, do próprio Ministro da Educação, Rubem Ludwig.

Editamos o maior número de teses, dissertações e monografias de docentes e discentes, dentre todas as universidades brasileiras.

Intermediamos a produção científica da UFRN para atendimento às carências da comunidade, tal como fizemos em Santa Cruz, com a instalação de uma Estação de Dessalinização de Água Salobra, só para citar como exemplo.

Revitalizamos a memória cultural do RN, com um programa voltado para as suas tradições, no campo da dança, do cordel e da reedição de obras clássicas de autores potiguares. Apoiamos a iniciativa da TVU, proposta por Carlos Lira, do programa Memória Viva, nos dois segmentos – o televisivo e a editoração de obras dos entrevistados.

E demos seguimento aos eventos de vanguarda, em contraponto ao passadismo do projeto memória. E por aí seguimos…

Sem o concurso de Adilson, nada disso teria sido possível. Sobretudo, sem a confiança recíproca e absoluta identidade de propósitos.

Fiz-me seu amigo e de Ana Cristina, sua parceira, uma mulher que dignificava o marido e era por ele dignificada. Comemoramos a minha nomeação para Reitor da UFRN, en petit comitê, na minha casa. E juntos choramos a “puxada” do tapete vermelho pela oligarquia política, com o desfazimento do ato.

Lutamos juntos pela eleição de Jaime Calado para a presidência da AFURN, de Garibaldi Alves para Prefeito e de Geraldo Melo, para governador do Estado.

Demos continuidade ao projeto de ocupação de espaço na UFRN, com a eleição de Adilson, sucessivamente, para chefe do departamento de direito público, Diretor do Centro de Ciências Sociais Aplicadas e pela Reitoria da UFRN, perdendo exatamente esta última, decisiva para a consolidação do nosso projeto.

Porque tínhamos um projeto para a Universidade, tão acalentado e acarinhado que a única ambição que persegui foi a de ser Reitor da UFRN. Se me tivessem oferecido a governança do Estado, ou mesmo a Presidência da República, as teria rejeitado. Vinte e quatro horas dedicadas à Universidade era pouco. Urdia sonhos, consumia sábados, domingos e feriados. Vivia em trânsito pelos campi avançados…

Adilson incorporou esse sonho e se propôs a dar-lhe continuidade, estando eu fora do processo. Infelizmente, inviabilizou-se, também o projeto do meu amigo, que era nosso.

Nesse ponto, cabe uma dolorosa reflexão, enviesando a indignação de Rui Barbosa, na Oração aos Moços: Qual o segredo do sucesso? Quem o obtém – o sábio ou o “sabido”? Na política partidária, já o sabemos. E na vida de relações? No serviço público? Por que se costuma dizer que os honestos não dão certo?

Já me referi ao caso que passo a relatar, mas como é de natureza recorrente em situações que tais, vou novamente revisitá-lo.

Na primeira reunião do “staff” de um governador recém-eleito, em que se discutia o plano de metas de execução imediata, atendendo ao merchandising dos noventa dias de início de governo, que fixaria a própria dinâmica e perfil da nova administração, um dos consultores do governador, em resposta a uma questão ética relativa aos temas “assistencialismo” e “desenvolvimentismo”, ponderou que essas questões fossem afastadas da estratégia de governo, porque a população não tinha o menor interesse em avaliá-las e tais preocupações, de fato, constituíam entulho, um estorvo para a ação administrativa.

Meu pai, de sabenças muitas e variadas disse-me certa vez, entre o amargo e o querendo estar errado, que o homem que era honesto e aparentava ser honesto como queria Cícero da mulher de César, jamais teria êxito nas disputas eleitorais e embates republicanos. Lembrava que a tese consagrada era aquela que dava o bom e o honesto como o ingênuo, inabilitado, portanto, para a condução das manobras, evasivas e malícias da política militante. Não lograria sequer ser sobrevivente.

Cortez Pereira que o diga – tantos sonhos, tanta criatividade, tantos bons propósitos, tanto amor à sua terra…

Mas, não se pense que desistimos de Adilson, um dos mais expressivos quadros dessa escola da integridade moral e da honestidade de princípios e de critérios. Do querer fazer com regras e limites prefixados pela ética.

Conspiramos na campanha pelas “Diretas Já” com o objetivo de elegê-lo presidente da OAB. Deu Armando Holanda, um quadro da mesma linhagem de Adilson, que mereceu a nossa concordância. E depois veio Adilson. E depois veio Adilson no Conselho Federal da OAB, honrando o estado com a indicação para a Comissão Nacional do Ensino Jurídico e agora no Conselho Nacional do Ministério Público.

E mais Adilson no ensino jurídico, um dos mais talentosos e proficientes docentes das nossas academias, exemplo de dedicação à cátedra, cuidando do curso de direito da Facex, onde mereceu o patronato do núcleo de prática forense, que leva o seu nome.

Mas ainda é pouco, muito pouco. Adilson Gurgel é subestimado e subaproveitado. Num país de carências profundas de valores intelectuais e morais, não se pode desperdiçar tais recursos – pouco encontradiços.

Irresistível o recurso da busca de um molde, um cacoete literário, talvez. Mas é impossível não compará-lo a Sir Thomas Moore – Thomas Morus – diplomata, escritor, advogado e homem de leis, que ocupou vários cargos públicos, e em especial, de 1529 a 1532, o cargo de “Lord Chancellor” (Chanceler do Reino) do poderoso Império Britânico. Um doce e dócil cavalheiro inglês que, inesperadamente, opôs-se ao casamento de Henrique VIII com Ana Bolena…por questões de princípios.

Não obstante o poder que detinha, e a característica de lealdade e de alinhamento automático com os desejos do Rei, tidos e havidos como expressões das próprias razões do estado no sistema absolutista, nada o impediu de insurgir-se contra a violação aos preceitos morais que defendia, pondo o seu veto ao “fato do príncipe”.

Morus foi amigo e teve em Erasmo, dito de Roterdam, um confidente. O pensador flamengo, outra reserva valiosa dos valores éticos, foi editor da “Utopia”  de Morus, e revelou, em uma das cartas endereçadas a ele pelo lorde inglês, que o amigo se enfastiava da vida da corte e desprezava as mesuras e honrarias. Embora as reconhecesse parte da “miranda” do poder que exercia. Era um simples.

Simplicidade é também característica de Adilson, alguém que não se entrega a pompas nem circunstâncias, não é poseur nem solene, sequer se leva a tanta importância, e por isso é escolhido como arrimo, porque é igual a todos, não é mais ou menos que ninguém, é de carne e osso, falível e defeituoso como todo mundo. Nunca se alçou a condoreiro, nem senhor das terras altas. Sempre foi uma espécie da planície, lhano, direto, certeiro nas suas posições.

Lembra-me, também, o repto de Calderón de La Barca: “Ao rei tudo, menos a honra”. Frase que soou candente na voz de um indignado Djalma Marinho, insurgindo-se contra a vassalagem, o arbítrio e a injustiça dos anos de chumbo e pólvora do golpe de 64.

Por isso que não se deve confundir o modo cordial, conciliador, suave, do meu amigo Adilson, com excessiva benevolência ou licenciosidade. Seu limite é bem sinalizado e quando é pressionado a atravessá-lo, estabelece-se uma questão de princípios e a sua doçura e espírito conciliador convertem-se em adagas mortais, o carvão é processado em diamante, e se defende atacando como o cavalheiro inglês.

É um colecionador de amigos, de gente que se aconchega para fruir da sombra acolhedora do jequitibá. Gente que precisa acreditar no ser humano, na virtude encarnada numa criatura de mortal, igual a todos. Pessoas que querem um “sim” depois de tantos “nãos”, numa longa e difícil jornada em busca de apoio.

O mais curioso é que Adilson não lidera, nunca teve essa pretensão. Nem chefia, segundo os cânones da técnica administrativa. Ele conduz pelo exemplo – é acreditado e essa condição o autoriza a pedir e a orientar. Se de fato exerce o comando, o faz pelo exemplo, nunca pela definição institucional ou a “phisique du rôle”. È um dos poucos casos que conheço de alguém que transfere por se transferir primeiro. Forma opinião, por ter formada opinião conscienciosa a partir da própria modelagem constitucional.

Insere-se entre aquelas figuras integrantes de um panteão de notáveis, que influenciam, com a sua conduta, os próprios líderes e formadores de opinião, uma baliza, um vetor, um farol, uma referência.

Uma esperança e um alento.

Assim é Adilson.

 

PEDRO SIMÕES – Professor de Direito aposentado. Escritor. Advogado

FOTO:Colagem JOSÉ CARLOS