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poeta, produtor cultural

É noite. Um vulto aparece como vindo de um outro mundo. Obcecado pelas letras, cinema, quadrinhos. Cruza a avenida como quem vai assistir a uma nova película, e não se importa com o relógio, infame adorno, esquelético e propulsor arquiteto das nossas divagações e alegrias. Depois, ao termino da sessão, com seu andar impassível e contemporâneo, escolhe o caminho de casa. Um investigador do comportamento humano. Silencioso, observa e anota. Procura por todos os lados, o horizonte repleto de novidades e segredos. Tem como sua lupa, o fascínio pelo lento e cuidadoso garimpo. Redescobre-se a cada passo dado. Como desencadeador de novos e cristalinos scripts, olhares, observações raras. Declara que sempre terá o culto ao seu dispor. Culto as pesquisas, história, documentação farta, e virgem. Fala pouco. Como disse, observa muito. E nesse tilintar, constrói seus sorrisos e pesquisas. Envereda noite adentro, por sobre a imensidão do desconhecido e instigante e escolhido tema. Paciente, usa a linguagem icônica. Vai, com fibra e um turbilhão de palavras, construindo sua habitação, respiração ousada, florada de inúmeros fãs, simpatizantes. Só para, quando escuta pela janela, o som que invade seus tímpanos, vindo de uma cidade imaginária repleta de heróis dos quadrinhos e da sua terra natal. Celebra sempre o silêncio com catalisador de descobertas e revelações. Permite-se ao prazer de colecionar protagonistas personagens de um poema sem letra e ar. Pois sua antena, aldeia onde ressoa sua infância e valiosa formação, aponta a montanha, respiradouro onde ultrapassa com rapidez, as nuances de um subterrâneo conto, poema, crônica, romance. Dedilha seus olhos por sobre a planície. Fermenta assiduamente a continuidade de sonhos e desafios. Sobre o quintal, sombra e ágora frescas. Relembra como um jovem pesquisador tantos e tantos começos e términos de pesquisas, lâmpada acesa rica em novas revelações. Então, o tempo voa. Procurando com os olhos do pesquisador, as casas esquecidas, os personagens fugidios, as cenas deixadas para trás. O lacre, por sobre olhos, caneta na mão, e as ideias fervilhando, transpira pelo espaço. O pesquisador, tão íntimo do que, as bifurcações de uma pesquisa, declaram, senta e se acalma. Adormece. E logo, um novo dia recomeça. O clamor que ele tem, pela palavra lapidada, hóspede de outros signos, símbolos, é enorme. Por isso, ele navega ininterruptamente, como um guardião, prospetor incansável. E assim, os garimpos são contados e contados. Porque, pegar parar si a palavra, é como destravar um sitio. É como libertar o escuro, onde reina a descoberta de uma nova bandeira. De uma nova viagem. De um imenso e indecifrável lugar. Palavras são como voos, matinais ou noturnos. Palavras são como andorinhas, testemunhas de milhares de tentativas e pousos. Assim, rebuscamos. Assim, sem trégua, a pessoa que pesquisa; escuta, reflete, anota, modifica, sentencia e cala. Assim, as escritas, formulações e novas linguagens, nascem. Produzindo, através do tempo, um quantidade incrível de novas ondulações e pensamentos. De uma intensa e esvoaçante peregrinação, mergulho profundo nas suas sintaxes e inflexões. Como um território sagrado e salvador. Como a íntegra possibilidade do que se tem de prova, declaração, sujeito e valor. Do rabisco entre paredes, solitária criação. O apogeu de um signo que nasce. A trilha por sobre o rochedo da pedra literária. O cume, o vasto morro, terreno que se esculpe e escala. Uma vertente de uma trajetória na ribanceira das intuições e tentativas. Por entre a fina flor do alfabeto que ganha novas formas e faces. Sim, o criador sua, ferve de verbos e imagens. Transpõe entre arremessos, seus pesos gramaticais. Pulsa nomes em letras abissais, prontas para arremessar raros desfechos. A luneta, o caleidoscópio por onde o pesquisador respira, vai estar sempre apontado para uma fortaleza de reflexões e descobertas. As andanças que a letra solicita do criador, quando o veio do verbo voa, é exemplo de magia, pura imaginação para quem escolhe esse fluxo, intenso transito a procura da palavraimagem certa. Redesenhar o poema como processo de reinventar a própria vida. Pois sim, que as letras nos salvem, na companhia do âmago de Anchieta Fernandes. Conheço Anchieta, desde as reuniões que aconteciam, final dos anos 60, na praça Kennedy, centro da cidade. Um dos mais combativos representantes de uma nova linguagem verbal/visual. Por ele, passaram e passam o reconhecimento de todos que percebem ser ele, o exímio farejador da escrita. Com Anchieta, é possível acreditar que uma palavra pode ser outra. Que a compreensão dessa palavra, é mutável. Dependendo de como a colocamos entre o que se costumeiramente faz, ou do desafio que se coloca quando a depuramos e ampliamos sua imagem e sentido. Assim, uma ressignificação se mostra. Como fruto de uma semente mutante. De uma nova ótica para o horizonte que pelo tempo, passa pelos nossos olhos e adormece, sem vontade de reconhecer nossas faces e corações. Anchieta está para a linguagem como a saliva santa está para dentes afiados e tatuados de coragem e libertação. Somos, sim, o culto do que dizemos e escrevemos. E, para além do óbvio, são raríssimas as explicações, salvações. Pegar na nau e dar cabo a uma nova letra, é para quem, sempre se declarou representante de uma nova língua, fala. Então que possamos ser parte simpatizante desse autor. Voraz, sempre atento, acesa lamparina, onde pelos cantos da página, se revela único e escolhido, lapidador da palavra obscura, que agora, se mostra, inquietante, e tão rara, cristalina, bela e clara. Tanta vastidão gramatical entre os olhos e mãos de Anchieta. Tanta vontade de reconhecer o verbo, como ferramenta viva e mutante. Tanta audácia, quando descobre que a palavra pode ser bamba ou bomba. O dia aparece. Por sobre sua réstia, o menino caminha como quem se desprende de antiguidades e sermões. Ele só quer respirar o ar de um novo vocabulário. Como deve ser, para todo aquele que vive o seu tempo, noutro tempo.