BECO DA LAMA, UM RETRATO NA PAREDE
Por Eduardo Gosson(*)

O Beco da Lama, no centro da cidade do Natal/RN, foi o palco da minha infância. Lá vivi os melhores dias da minha vida: acordava entre 4h e 5h da matina e descia, muitas vezes, ainda de pijama, em direção ao Mercado Público, onde hoje fica o banco do Brasil. Passear entre as barracas e olhar a vida como ela é.
O Beco da Lama, oficialmente, chama-se Rua Dr. José Ivo, e na minha época tinha personagens fantásticos como Lambretinha, um maluco que andava empurrando um carrinho feito de lata, fazendo pose como um motorista de uma Limousine; Lambretinha tomava conta de um pé de milho em frente ao Cabaré de Maria Boa; Jorge doido que passava horas encarando um transeunte, podre de sujo. Tinha também a carvoaria de seu Leão e o restaurante Pérola, o mais chique do centro. Tinha também um sapateiro que gostava de estudar as estrelas. No centro do Beco o bar do árabe NAZI, que tinha uma tese: “- o homem se apaixonou lascou-se”. Em Nazi conheci a boêmia e os poetas Bosco Lopes e Newton Navarro, entre outros. Pixinguinha quando esteve em Natal pisou neste templo sagrado.
Hoje, ao passar pelo Beco, dói como um retrato na parede: sujo, decrépito, abandonado pelo Poder Público e pretensamente representado por entidades que não representam nada.
Eu não sabia que doía tanto!
(*) é Poeta.