ARQUIVO ABERTO: MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS

Rio de Janeiro, 1987
MARIA AMÉLIA MELLO

FOI NA EDITORA JOSÉ OLYMPIO que meu destino se cruzou para sempre com o de Rachel de Queiroz (antes, já entrevistara a autora para o “Jornal de Letras”, no início dos anos 70), uma trama de simpatia e amizade. Cheguei para ser assessora de imprensa (nem pensava em ser editora), acompanhava os lançamentos de seus livros e visitava-a com frequência no apartamento do Leblon. E dona Rachel e ra boa de conversa, tinha uma memória danada e, ao perceber que apreciava ouvir, me contava algumas das passagens mais interessantes dos bastidores da “casa” [a editora José Olympio] e do meio literário do país.
Ela sempre foi uma pioneira na vida, no jornalismo, na literatura. E, pasmem, afirmava que não gostava de escrever, que era preguiçosa. Não era nada disso, sabemos, ela trabalhou como ninguém, cronista primorosa, romancista, tradutora de grandes títulos. Talento e afinco diário até o fim.
Mas, a editora já não andava bem, abatida por problemas de natureza diversa e perdendo suas estrelas mais expressivas. Elas iam saindo uma a uma, numa melancólica trajetória, trocando a solidez, que se esgarçava aos poucos, por outras logomarcas. Rachel não! Sempre dizia que ficaria, desse no que desse, ao lado de seu capitão, o amigo José. E ficou.
Não foi mesmo fácil assistir ao navio editorial singrar perdido no alto-ma r das letras, esquivando-se dos perigos sem encontrar terra à vista. Mas, ela, fiel ao seu capitão, não dava sinais de cansaço.
Um dia, assim sem mais nem menos, alguém se deu conta de que a “velha dama” nunca assinara um contrato formal, com cláusulas e testemunhas, com papel timbrado para garantir as edições, os pagamentos e a fidelidade. Embora tudo corresse bem. Rapidamente, marcou-se a grande data. Era fevereiro de 1987. Foi no apartamento de seu amigo José, presidente de honra da “casa”, na Glória, um dos locais mais antigos da cidade. O nome do bairro era curioso, pensei. Que outro lugar poderia desejar um escritor?
O editor já estava debilitado, mas entusiasmava-se em ver sua amiga, de uma vida toda, firmar seu amor pela “casa”, os anos de convivência. E foram mais de 50, sem uma linha de obrigatoriedade, fazendo valer-se apenas pelo coração. “No fio do bigode”, como se comentou no momento.
Foi quando o inesperado aconteceu. Algum tempo depois, Rachel se mudou para novo endereço editorial, com sua obra e suas lembranças, atingida por fases e frases de incompreensão. Depois de décadas, Rachel deixava a “casa”. O que funcionara tão bem sem documento, dissolvia-se na falta de comunicação. Eu ainda cuidava da área de imprensa e, a contragosto, confirmava aos jornalistas a decisão.
Minha admiração por Rachel, no entanto, não mudou de endereço. Gostava de visitá-la aos sábados, à tarde. Ela sentada sempre na mesma poltrona, com um jornal aberto sobre os joelhos. Ríamos muito, tomávamos algum suco, falávamos da vida, de política, de fatos banais. Vez por outra, uma pausa levava a escritora para algum canto da memória e o silêncio batizava as falas com a cumplicidade tão comum entre companheiros. Naquela altura, eu já era editora da “casa”.
Numa dessas visitas, saímos ao lado de Maria Luiza de Queiroz, irmã de Rachel e escritora. Era um final de tarde no Leblon, com o vento correndo do mar para dentro. Ela parou de repente (Maria Luiza seguia pouco na frente) na porta do edifício “Rachel de Queiroz” e me disse, sem alterar a coloração da voz:
- Eu ainda volto. E sorriu.
Não entendi muito bem as palavras avulsas, que se misturavam com a tarde cinza em direção ao azul maduro da noite.
- Como? -perguntei.
Ela diminuiu o passo, olhou fundo para mim e concluiu:
- Não morro sem voltar para a “casa”.
Selamos, ali, um pacto silencioso. E ela ainda me deu uma lição inusitada:
- Quando a gente quer muito uma coisa, com intensidade, devemos amarrar uma alma, e só podemos soltá-la quando o pedido se cumprir.
Foi o que fiz, apesar de nada entender daquela superstição. Dei um nó trançado e bem dado numa alma que passava distraída e, rindo, botei fé na profecia.
Em 2002, sob a gestão do Grupo Record, que comprara a José Olympio em 200 1, pude finalmente liberar a alma, deixá-la em paz. Rachel estava de volta para a “casa”, feliz. Hoje, sua obra está toda editada, sendo lida pelas novas gerações, às vésperas de seu centenário de nascimento, que se completará em 17/11. Respirei aliviada.