Horácio Paiva, poeta (e-mail: horacio_oliveira@uol.com.br)

 

Ouvi, por vezes, do poeta Eduardo Gosson, que a simplicidade é o caminho natural da poesia e que admirava a poesia despojada de grandiloquência, a poesia abrigada na essencialidade da palavra.

 

O seus poemas, aliás, expressam esse conceito, que aproxima a verdade da beleza (irmãs, as duas  -  como já anunciara Emily Dickinson) (1), ambas enxutas, sem falsos adereços.

 

Uma bela amostra é o poema “Sombras (II)” de seu livro “Entre o Azul e o Infinito”, que fez publicar em 2012:

 

“Meio-dia.

 

No cemitério,

um Bem-te-vi

 

louva a Deus.”

 

O poeta parece guardar a lição do mestre Graciliano Ramos, autor da seguinte declaração (2):

 

“Quem escreve deve ter todo o cuidado para a coisa não sair molhada. Quero dizer que da página que foi escrita não deve pingar nenhuma palavra, a não ser as desnecessárias. É como pano lavado que se estira no varal.”

 

Tal cátedra também adoto, havendo-a mesmo exercido em alguns poemas que escrevi, como a seguir:

 

“Surpreendendo o mistério

 

as coisas profundas devem ser ditas

em poucas palavras

 

para que não se espante e se afaste

o mistério

de sua casa de silêncio”

 

Por outro lado, o poeta Eduardo Gosson vivencia a arte, tornando-a expressão de sua rica experiência de vida e assim celebra a unidade entre essência e existência.

 

Com efeito, suas poesias e crônicas bem que se adequam à observação formulada por Schopenhauer, de que a arte justifica o sofrimento da vida (3).

 

Suas lamentações em prosa e verso são proféticas  -  cantos e lamentos de um Jeremias hodierno, ainda sob o manto do humanismo, em suas razões e denúncias sociais, e do esoterismo, na catarse da linguagem poética, espiritual e  libertadora.  

 

Curiosamente, há precisos 51 anos, outro poeta brasileiro, Cassiano Ricardo, fazia o caminho inverso, num livro de poesias intitulado “Jeremias sem-chorar” (4). O impacto destruidor e fascinante da moderna sociedade de consumo amputara sua capacidade de chorar. É o que diz nos versos iniciais da obra citada:

 

“O mundo do terror

e do encanto

me obsta o pranto.”

 

Jeremias, o bíblico, Jeremias Ben Hilquias, de ontem e de hoje, o das “Lamentações”, dizia, ao cantar as tristezas de Sião (5):

 

“Os meus olhos enfraquecem à força de chorar,

turbadas estão as minhas entranhas.

O meu fígado derramou-se pela terra

por causa da destruição da filha de meu povo;

porquanto nas ruas da cidade desfalecem os meninos

e as crianças de mama.

Ao desfalecerem como feridos, nas ruas da cidade,

ao exalarem as suas almas no regaço de suas mães,

eles lhes perguntam:

Onde está o trigo e o vinho?

Que testemunho te darei?

A que te assemelharei, ó filha de Jerusalém?”

 

A esse Jeremias histórico  -  às suas exortações proféticas, denúncias, lamentações e, sobretudo, à linguagem diáfana da poesia  -  guarda fidelidade o nosso poeta Eduardo Gosson, nas páginas de pura emoção de seu novo livro, “Poemas e Crônicas”, cujos originais gentilmente me envia.



Notas

(1) Emily Dickinson, no poema “Morri pela beleza...”

(2) Declaração de Graciliano Ramos feita a Joel Silveira, in “Conversas” – Editora Record, RJ, edição de 1962, págs. 73-80.

(3) Arthur Schopenhauer, in “O mundo como vontade e representação”.

(4) Cassiano Ricardo, in “Jeremias sem-chorar”, Livraria José Olympio Editora, 1964, 1ª edição.

(5) Jeremias, Bíblia Sagrada, “Lamentações” (fragmento), 2: 10-13, in “Quatro mil anos de poesia”, coletânea organizada por J. Guinsburg, Editora Perspectiva, edição de 1969, pág. 62.