Francisco Alves da Costa Sobrinho

O pensador francês Edgar Morin, em seu texto/ensaio “A Suportável Realidade”, fala da importância de se ‘tencionar a dor com o amor’, formulando os componentes para a condução do sujeito, suas necessidades e figurações que se constituem em alimento da alma, possibilitando uma reflexão sobre o sentido de viver e os ‘acordos’ que se estabelecem para suportar uma vida surreal.

Exclamações ou afirmações como “estou cansado, mas com o espírito livre”, ‘valeu a luta’ ou  ‘finalmente chegamos, vamos comemorar’, revelam esta atitude de suportável realidade, a ‘leveza’ que pode se estabelecer no âmago do sujeito, possibilitada por uma realização pessoal.   Elas podem significar, ao mesmo tempo, a constatação de um cansaço, a revelação de uma passagem extenuante e aflitiva,  a percepção da superação temporal/ocasional  de um sofrimento ou agonia, e a alegria ocasionada pela confortável sensação de alivio, a qual proporciona um alentador estado de leveza diante das questões enfrentadas e dos problemas resolvidos, ou mesmo ante boas perspectivas de resolução.

O ser humano, hoje mais do que antes, fragmentado, necessita afirmar-se neste estado de quase sedação possibilitado pelas suas crenças e mitologias (e pelas fantasias daí originadas), para tornar suportável a realidade que vivencia de forma surreal e incompreensível, inalcançável para sua compreensão estanque, colocando-se como um ser que busca atabalhoadamente alcançar-se através das enganações e armadilhas por ele criadas para tentar resolver-se diante de questões como a vida e a morte e dos sentidos e significações que possam ter na trajetória humana.

Nesse sentido,  aponta para a necessidade que o homem tem de refazer-se,  no tempo presente, para melhorar seu entendimento e clareza, exigindo que nos debrucemos sobre essa situação de complexidade, na tentativa de situar-se para esclarecer, de uma vez por todas, as nossas perplexidades, apontando para uma nova postura do homem perante a largueza de sua presença no universo, numa visão que o faz abarcar a compreensão de todas as áreas do conhecimento entremeadas entre si.

Procurar entender, assim, a dicotomia existente entre as mitologias construídas, as crendices e religiões, os ídolos e as ideologias forjadas no correr da história do homem, e os porquês da nossa civilização encontrar-se neste imenso labirinto da globalização,  da  linguagem e das emoções pasteurizadas,  da fronteiriça-não-fronteira,  de tantos equívocos e enganações.