Por Eduardo Gosson

 

1. Quem são seus pais e onde nasceu?

R. Nasci em Natal. O meu pai é Alcir Veras da Silva, maranhense, ex-professor e mestre do curso de Administração da UFRN, escritor de livros da área, aposentado, atualmente na UNI-RN, publica uma coluna sobre economia a cada quinze dias na Tribuna do Norte. O falecido escritor Humberto de Campos Veras é primo legítimo da mãe do meu pai.  A minha mãe é Janice Carvalho da Silva, do lar, natalense, criou quatro filhos, duas irmãs e um irmão, todos nós com curso superior.

2.Quais os colégios que você passou ao longo do 1º , 2º e 3º graus?

R. Primário no Instituto Brasil no Centro de Natal; Ginásio do colégio Marista de Natal; Ensino médio no IFR-RN; História licenciatura e bacharelado na UFRN.

3. Como  se deu  a  sua descoberta para Literatura°?

R. Creio que comecei a escrever poesias como uma necessidade emocional, aos 17 anos, para serem publicadas pelo Grêmio do IFR (então Escola Técnica) nas dependências da escola, em 1981. Depois, fui o editor de poesias do Grêmio e travei conhecimentos com pessoas, que como eu, tinham muitas perguntas a fazer ao mundo ao nosso redor.

4.Ezra Pound afirma que os  “os poetas  são  antenas da raça” e Chico Buarque “os poetas como os cegos podem ver na escuridão”. Comente as duas afirmativas.

R. A julgar pela vida de Pound, penso que ele quis dizer com essa afirmação que os que se sentem poetas têm que envolver seus poemas em papeis como o da luta pela liberdade, ou o da acusação social, para contra-atacar com as suas palavras, as injustiças do seu tempo, que poucos possuem sensibilidade para enxergar.

Julgo que neste mesmo sentido, Chico Buarque emprega habilmente a mesma definição. Os poetas são capazes de plasmar com as suas atitudes, ou oralmente ou no papel, o que veem com profundidade, extraindo material da própria condição humana tão frágil e incompreensível para eles.

5.Quais os livros que escreveu?

R. Em 2005 publiquei, em Natal, por minha conta “Assassinato em Natal”, um romance policial de 138 páginas, escrito quando morei em Madri entre 1999 e 2003. Na época enviava por email pequenos capítulos aos amigos e parentes no Brasil, desafiando-os a que tentassem descobrir quem seria o assassino por trás da história que iam conhecendo aos poucos. Eu fugia da solidão. O texto está publicado em internet para leitura gratuita.  Em 2009 publiquei por uma editora de Natal “Contos da cidade do Natal”, 70 páginas, com prefácio do poeta Lívio de Oliveira e comentários na contracapa, de Diógenes da Cunha Lima. Esse livro foi publicado em 2ª edição, em janeiro de 2016 pela editora espanhola Letra de Autor, na Casa do Brasil, em Madri, e encontra-se disponível no sitio da Amazon espanhola. Em abril de 2017 imprimi por conta própria numa gráfica de Natal, cinquenta cópias de “Alguns natais e mais de trezentas noites”, trinta páginas e vinte e cinco poemas. Seis desses foram selecionados em concursos e certames de poemas nacionais (Ceará, Paraíba, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo), e publicados em livro, revistas e livros eletrônicos a partir do segundo semestre de 2016 até o presente.  Também escrevi uma tese em história antiga sobre os fenícios, defendida em janeiro de 2016, em Madri, e que recebeu a nota máxima com recomendação para publicação, inclusive com avaliação do professor Guarinello, do departamento de história da USP.

 

6. Recentemente, você  ganhou um prêmio literário nacional e teve 2 poemas classificados para participar de festivais  literários. Fale-nos de cada um.

R. Na verdade, o soneto “Tempo” foi um dos dez selecionados pelo 1º Prêmio Literário Línguas&Amigos, Rio de Janeiro, 2016, e publicado em e-book. O soneto “Saudade” integra a 1ª edição da Revista LiteraLivre, São Paulo, e também foi escolhido pelo 1º Concurso de Poesias Adauto Borges, na Bahia, além de Menção Honrosa no IV Concurso Literário Icoense, no Ceará.  O soneto “Rosa de janeiro” foi publicado na 2ª edição da Revista eletrônica Philos, de Literatura da União Latina, Rio de Janeiro, com lançamento em papel esse ano em São Paulo e Recife.  O poema “Desamor” foi selecionado e publicado em São Paulo, no II volume da Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea, editora Chiado (portuguesa), sendo lançado também na Feira do Livro do Rio de Janeiro e na Feira do Livro de Lisboa esse ano. Em setembro desse ano, o poema “Estar” foi selecionado pelo concurso Doce Poesia Doce, e junto com a minha foto embala doces a serem distribuídos por uma ONG de Salvador, em comunidades carentes, creches e hospitais dessa cidade. Também em setembro, novamente o poema “Desamor” foi o único de um poeta nordestino a ser selecionado entre dez pela Secretaria de Cultura da Prefeitura de Pindamonhangaba, São Paulo, no IX Festipoema, sendo divulgado em cartazes espalhados em locais públicos dessa cidade, na Categoria Adulto. Além mais, neste sábado ela seria declamada num teatro daquela cidade, por um artista local, num evento que escolheria a melhor entre as selecionadas. Ainda não sei o resultado. Outras revistas brasileiras de poemas, como Aspas Duplas, publicou também um poema nosso chamado “Tão Pouco!”. Me sinto feliz e agradavelmente surpreso, com esses resultados, e também esperançoso de que mais escolhas sejam feitas, pois estamos concorrendo até dezembro desse ano em vários concursos brasileiros de poemas.

7.  Você morou durante 8 anos na Espanha, oportunidade de fazer o Doutorado. O tema

Central da sua tese versa sobre o quê.

R. Na realidade, desses oito anos fora do Brasil, sete foram na Espanha e um ano em Londres como pesquisador convidado pelo departamento de história antiga da Oxfor University. A tese em história antiga, defendida em Madri como já mencionei, explica as razões da origem da existência de ampla literatura sobre a presença dos fenícios em território brasileiro, que eu nego categoricamente. Foi publicada em outubro de 2016, exclusivamente no site da Universidad Complutense de Madri, em formato eletrônico. O texto escrito em espanhol foi baixado até o momento quase 900 vezes em vários países dos cinco continentes, sobretudo por instituições acadêmicas, e desde esse mês de setembro está em processo de análise por uma editora brasileira para tradução ao português e publicação nacional. Tem sido uma grande e agradabilíssima surpresa para mim. Tenho dedicado mais de quinze anos a investigar esse tema.

8. Você concorda que os assassinos de Lorca não conseguiram calar a sua voz gigante

E se renovarão os lírios brancos em Granada?

R. Federico García Lorca escreveu que “Um morto na Espanha está mais vivo que um morto em outro lugar...”. Compositor, poeta, declamador, produtor teatral, advogado, escolheu a cultura popular sobretudo oral e cigana para percorrer a Espanha rural e politicamente conflituosa da década de 1930, dividida entre o sagrado e o sensual. Seu corpo foi vencido pelo inimigo conservador, mas atualmente ele está ainda mais vivo na Espanha moderna pois a geração atual luta utilizando o próprio Lorca como bandeira para modernizar culturalmente a Espanha. É também uma forma de lhe fazer justiça frente ao conservadorismo persistente. Os seus poemas estão nos livros escolares. Granada é terra de sangue mouro (ou árabe se se quiser), e representa a verdadeira imagem espanhola em boa parte do mundo. Na concepção do poeta o lírio branco é a pureza cristã espanhola sagrada, mas capaz de se transformar no cravo sensual, na paixão avassaladora, ambas cores simbolizando assim o desejo e a morte, entrelaçados, sempre a se renovarem.

9. Existe uma Literatura Potiguar?

R. Não sou estudioso do tema sobre a existência de estilos próprios que diferenciem autores, de um determinado lugar, para outro, mas já li bons autores conterrâneos, do passado e do presente, assim como autores nacionais e internacionais. Então o que eu posso fazer é compara-los em estilo. O que se publica, é para ser criticado, amado ou negado, mas há temas mais interessantes que outros e conseguem atrair um universo maior de leitores de um lugar do que de outro, que chamam mais atenção, e isso deve ser pesado quando alguém que se põe a escrever, quer ser lido. Portanto eu diria que a boa literatura, que é o que importa realmente, seja ela escrita por um potiguar, carioca, ou estrangeiro, é aquela que aborda conceitos universais, como o amor, o ódio, a traição, a caridade, contextualizados através dos temas modernos como a ética e a diversidade, o ambiente e a sustentabilidade, a religiosidade, a autoajuda. Sendo o texto escrito num estilo que prime pela clareza, com algum humor, leveza, pode inclusive conquistar leitores de uma região diferente daquela a que pertence o autor. A literatura deve ser universal, portanto, daí você terá bons leitores.

10. Quem é você?

R. Sou desconfiado, calmo, gosto mais de ouvir que falar, e não me importo com a solidão porque ela é necessária ao ofício de escrever, que é em si um ato solitário sobretudo. Tal como a leitura. Gosto também de ser professor. Após morar fora do Brasil por alguns anos e ter que sobreviver diariamente, já seja no trabalho ou em sala de aula, em culturas diferentes da minha, fui forçado a rever muitos conceitos que eu levava dentro de mim, e isso muda a gente de verdade perante a vida. Nos últimos anos a morte de entes queridos foi algo que eu vivi intensamente e essas experiências também vão nos marcando definitivamente. Mas o importante é que sempre estou renovando os meus sonhos uma vez cumpridos, e reavaliando os meus pontos de vista, a vida se transforma a cada minuto e é preciso que nos renovemos também sob pena de você morrer em vida para o mundo, e viver amargurado. Não vale a pena. Fui voluntário por onde andei porque gosto de ajudar as pessoas, e aprendi muito com o sofrimento alheio, talvez por isso hoje não preciso me cercar de muitos valores materiais para me considerar realizado. O próximo sonho é escrever um novo romance, em curso, e saltar de paraquedas se chegar aos sessenta anos com saúde.