01.              Quem são seus pais e onde nasceu?

            Nasci em Senador Pompeu no sertão central do Ceará em maio de 1952. Filha de Audísio Vieira do Nascimento, político e empreendedor, e de Elvira Custódio do Nascimento, professora primária. Sou a quinta de nove filhos. Cresci sem os privilégios da filha mais velha e do filho mais novo. Essa posição mediana e invisível deixou-me livre para correr atrás de meus sonhos.

 

02.              Como se deu a sua formação escolar e a vida acadêmica.

Senador Pompeu, nos anos 50, era uma cidade que crescia graças às usinas de algodão e ao transporte ferroviário que levava toda a produção algodoeira para Fortaleza a qual exportava, via navio para a Europa. Cursei o primário nos conceituados colégios, Cristo Redentor e Nossa Senhora das Dores, coordenados por instituições religiosas que primavam por uma boa educação. Aos oito anos, já participava de peças de teatro. Aos doze anos, meu pai descontente da cidade interiorana devido a desavenças políticas, juntou a família e mudamo-nos para Fortaleza no ano de 1964. Terminei o segundo grau no Liceu do Ceará em 1970. Fiz vestibular e cursei por três anos a Faculdade de Direito na Universidade Federal do Ceará - UFCE. Em 1974, casei-me com o professor Wilton de Queiroz da UFRN o qual fazia mestrado no IMPA no Rio de Janeiro. Não consegui a transferência da faculdade de Direito do Ceará para a UFRJ por ser considerada uma estudante sinistra. Passei dois anos no RJ assistindo peças de teatro, vendo filmes, lendo e estudando línguas estrangeiras. Nosso apartamento recebia nordestinos fugitivos do regime militar que eu nunca soube seus verdadeiros nomes. Dois anos depois, voltamos para Natal onde meus dois filhos Alexandre e Raquel nasceram. Em 1980, terminei a licenciatura em Letras na UFRN e ensinei no colégio Marista e nas escolas da rede estadual e municipal. Especializei-me em Artes Cênicas e coordenei grupos de teatro. Escrevi as peças: “Eu Prometo” - 1986″, Vivendo e Desaprendendo” - 1987. “Sorriso Negro” - 1988 encenadas por alunos de escolas públicas do segundo grau. Em 1992, fiz concurso pra a Escola Técnica Federal do RN. Especializei-me em língua Inglesa na UFRN. Em 1997 estudei na Universidade de Salamanca. Em 1999, na Universidade de Navarra/Espanha onde conheci a poesia do chileno Pablo Neruda.

 

03.              Como se deu a sua descoberta para a Literatura?

Desde pequena sempre gostei de ler. Apesar de ser filha de professora, havia poucos livros infantis na minha casa. Assim, eu fugia para a biblioteca do colégio de freiras e me deliciava com a leitura das “Reinações de Narizinho” de Monteiro Lobato, os contos do turco “Nasrudin” e dos “Irmãos Grimm”. Adolescente, frequentava as bibliotecas onde conheci parte das obras de Dostoiévski, John Steinbeck, Herman Hesse, Eça de Queirós, Machado de Assis, Jorge Amado, José de Alencar, Jane Austen e as irmãs Brontë.

Conheci a literatura de cordel aos 10 anos quando meu vizinho declamou o “Pavão Misterioso” de José Camelo de Melo (1885-1964) e a “Historia da Donzela Teodora” do cordelista Leandro Gomes de Barros (1865-1918) considerado por Carlos Drummond de Andrade como o “Príncipe dos Poetas”. A partir daí, me apaixonei por aquela narrativa em forma de poesia e rima.

 

04.              Quantos livros você escreveu?

Poucos. Comecei a escrever o romance “O Bálsamo” em 2015. Em 2017, escrevi um livro infantil “A Vida Colorida de Vitória” e refiz “Discriminação na Raça Negra” um cordel com 100 sextilhas heptassílabos para compor uma peça de teatro. Em 2018, lançarei meu segundo romance “O Baú de Filomena”. Uma história sobre uma sertaneja agnóstica que vive numa fazenda e convive com uma empregada devota do Padim Ciço do Juazeiro do Norte. Essa dicotomia me fez ler alguns filósofos ateus. Continuo lendo com profundidade captando os detalhes sensoriais e complexos da narrativa, me alicerçando com as obras de Guimarães Rosa, Raquel de Queiroz, Rodolfo Teófilo, Câmara Cascudo, Lira Neto, Ronaldo Correia, João Almino, Cicinato Neto, Ana Miranda e outros nordestinos que adoram falar de sua gente.

 

05.              Numa terra de poetas, por que a opção pelo romance?

Gosto de imaginar espaço, tramas, personagens e situações que me fazem ter o domínio da história. Gosto de conduzir o enredo e, aos poucos, ir trançando os personagens para no final, colocar o laço do arremate. Às vezes, os personagens se revoltam e determinam seu próprio destino.

Quando um romancista consegue emocionar o leitor com sua prosa, ele é poeta. Ser poeta é expelir sentimento e emoção com harmonia em qualquer contexto. Como diz Florbela Espanca:

 

Ser poeta é ser mais alto,

é ser maior do que os homens.

 

06.                O livro trata de que ou de quem?

O livro “O Bálsamo” é um relato sobre a vida e a morte entrelaçado com os sentimentos de amor, dor e resiliência. Sua narrativa aborda o desamparo infantil e a longevidade levando o leitor a cruzar com personagens densos ao interior do universo humano. Uma mescla de ficção e realidade inserida em um contexto histórico e político do país e pincelada com 22 letras de músicas. 

A personagem Lara Castro fica órfã de mãe aos cinco anos de idade. A partir daí, começa seu calvário ao conviver com um pai alcoólatra, uma empregada doméstica autoritária e uma madrasta negligente. Como resquícios desse passado, ela constrói uma vida permeada de um casamento abusivo. Aos quarenta anos, ao cuidar da avó materna, demite-se de um trabalho estafante, e adentra em um novo campo profissional como cuidadora de idosos. Ao cuidar de pessoas negligenciadas, demenciadas e violentadas pela família, surge um sentimento de solidariedade, paciência e compaixão e aos poucos, Lara vai recuperando a capacidade de superação das vitimizações e danos psicológicos que vivenciou na infância. No Solar Geriátrico, seu coração começa a descongelar ao conhecer Dr. Raphael.  

“O Bálsamo” foi editado pela Chiado/Portugal o qual recebeu o prêmio “Permínio Asfora” da Diretoria da União Brasileira de Escritores UBE-RJ, 2017. Selecionado pelo Programa do Livro Didático da Secretaria Estadual da Educação Cultura e Desporto (SEEC) para acervo nas bibliotecas estaduais do Estado do Rio Grande do Norte e da SMEC do Ceará.

 

07.               Ele foi editado pela editora CHIADO, em Portugal. Berço do poeta FERNANDO PESSOA.

No romance “O Bálsamo” há um personagem português que chora ao ouvir o fado de Amália Rodrigues. No segundo romance “O Baú de Filomena”, uma portuguesa casa-se com um brasileiro na condição dele construir uma casa tal qual a que ela morava em Portugal no inicio do século XX. Estou sempre fazendo esse trançado com Portugal. Essa referência ancestral nos faz saber de onde viemos e quem verdadeiramente somos. Talvez, no próximo livro, os personagens decidam por outros caminhos e eu procure uma editora brasileira.

 

08.       Além de escritora você é professora aposentada do IFRN. O magistério é um crime que não compensa.

Escolhi ser professora e seria novamente com a mesma dedicação. É uma profissão árdua que consome todo o seu tempo e que deveria ser bem remunerada e conceituada. O tempo fora de sala de aula se restringe a preparar aulas e a corrigir provas. Sou consciente que muito me dediquei para ajudar aos alunos a galgar as escadas da vida profissional. Digo que “um país onde não se lê será sempre capacho dos países letrados”. A educação é a mola que faz impulsionar o país dando condições para que possamos conduzir nosso destino com sabedoria e dignidade. Sonho com um Brasil que ouse investir anualmente mais e mais no nosso aluno do ensino fundamental e médio e, principalmente na qualificação dos professores. Precisamos desse alicerce para construir um país melhor, pois sabemos que sem educação não há futuro.

 

09.       O que representa para você ser escritora?

Ser escritora é poder dar um grito de liberdade e escrever sobre tópicos que te rasgam a alma. Depois da aposentadoria, passei um longo tempo sem querer ter contato com livros. Eu precisava de umas férias. Anos depois, arrumando minhas gavetas, encontrei folhas amarelas rabiscadas, contos, cordel e croquis de plantas de casa, pois sempre gostei de arquitetura. Vejo uma semelhança entre o arquiteto e o escritor. Este busca colocar as palavras no lugar adequado, procurando flores para enfeitar a frase, pensando nos espaços por onde circulará o personagem, primando pela beleza do parágrafo na tentativa de harmonizar o conjunto da obra.

 

10.       Quem é você?

            Divorciada, mas casada com a vida. Cada dia vejo-me diferente. Ontem, acordei como vovó e quis somente curtir a netinha. Hoje, acordei como trovadora.

Portugal é meu caminho,

deixei lá meus devaneios.

Volto pra bandas do Minho,

cheia de sonhos e anseios.

 

Amanhã, talvez acorde como uma romancista preocupada com a situação da mulher nessa sociedade. Talvez, depois de amanhã, acorde querendo ler Neruda ou fingindo ser uma poetisa. O que me faz lembrar o poeta lusitano Fernando Pessoa.

 

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

que chega a fingir que é dor.

A dor que deveras sente.

xxx