ESTAÇÕES

De verão em verão
olvidei desejos de aportar
no cais do seu corpo
e em nau sem bússola
outros mares adentrei
feito abandono
agora
que é chegado o outono
penso-te aconchego
no inverno
e ouso nomear-te
primavera
em qualquer estação

 

CASA PARTIDA

Tento segurar a casa
mas na sala parte-se o quadro
da luta desigual
a ata tirada da reunião no quarto
escorregou sob a cama
a passeata que da cozinha partiu
pela avenida
desfez-se na primeira esquina

Desço a escada espio
a rua vazia qual inútil geladeira

Se pelo menos os livros
na estante segurassem…

A televisão transpira sangue
e campanha eleitoral
acompanho o toque inexistente
do mensal telefone
ouço a mudez do toca-disco
sem rotação
sirvo uma bebida em taça sem borda
sem forma sem brinde

Resta o (des)conforto do banheiro
a umedecer o ímpeto…

Subo a escada espio a alma vazia
a cama esquecida
em paralisia

 

VIGÍLIA

Tem noite em que sem aviso prévio
transgrido o pacto estabelecido
de adormecermos no mesmo segundo
consulto o baú de recordações:
a casa amanhece café
anoitece sopa
é sagrado o aluguel no final do mês
nenhuma rusga macula as amizades
a repartição talvez por mero acaso
ainda não me tenha convidado
à involuntária demissão
os canhões da impaciência
há dias não explodem em nossa sala
nem pegaste resfriado ao anoitecer
sem motivo que justifique a vigília
de repente entendo o que se passa:
na noite em que insone permaneço
é para te velar o sono
nada mais