ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Riograndense de Genealogia-INRG, membro do IHGRN e da UBE-RN)

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Matéria publicada no JORNAL DE HOJE, edição do dia 23 de julho de 2010

 

A família Simonetti tem origem na pessoa do cidadão genovês, Giovanni Baptista Simonetti que desembarcou no porto do Recife, por volta do ano de 1820, na companhia do Pietro Nicoláu Villa, seu compatriota, também, da mesma região da Itália. Esses dois jovens aventureiros, na casa dos seus 20 anos, possivelmente fugiam da falta de empregos em seu país. Aqui chegaram cheios de esperanças de encontrar no distante Brasil, uma nova e próspera vida para si e seus descendentes.

No Recife, Giovanni passou pouco tempo. Sobreviveu nesse curto período realizando pequenos serviços e se utilizando das poucas economias que amealhou antes de atravessar o Atlântico. Os dois amigos permaneceram sempre na cidade, ao contrário de outros imigrantes que adentraram ao interior para trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar.

Em conversas com outros imigrantes, Giovanni ficou sabendo que no Norte do país havia muitas terras devolutas e as possibilidades de ganhar dinheiro eram maiores do que na agitada Recife da época. Resolveu se aventurar naquela região, ainda pouco habitada, principalmente por imigrantes. As imigrações no Brasil ocorreram principalmente em três regiões do País. Na região Sul, através do porto de Santos; na região Leste, pelo porto do Rio de Janeiro e no Nordeste, nos portos de Salvador e Recife.

Entre os anos de 1822 e 1824, o italiano Giovanni despede-se do amigo Pietro e toma uma barcaça no porto de Recife com destino ao Norte do país, possivelmente para cidade de Belém do Pará. Em uma noite chuvosa na altura das praias de Tibau do Sul e Pipa, a barcaça em que viajava naufragou. Giovanni conseguiu se salvar e chegou até a praia de Tibau do Sul, naquela época, uma pequena aldeia de pescadores.

Dias depois e já recuperado, partiu para a cidade de Goianinha, 25 kms ao Leste, e lá permaneceu por toda sua vida. Em 1825, contraiu matrimônio com Gertrudes Guilhermina Barbalho, filha do casal Antônio José da Costa Barbalho e Maria Germana Freire do Revoredo, esta, filha do capitão-mor Bento Freire do Revoredo, o mais rico proprietário da região com terras que se estendiam pelos municípios de Goianinha, São José de Mipibú e Papary, hoje Nísia Floresta.

Dessa união entre Giovenni e Gertrudes nasceram nove filhos: Antônio Temístocles Simonetti; João Baptista Simonetti; Benjamin Constant Simonetti, meu trisavô; Américo Vespúcio Simonetti, ramo da família que se desenvolveu nas cidades de Açu e Mossoró, da qual descende monsenhor Américo Vespúcio Simonetti, pároco da Igreja de Santa Luzia, em Mossoró, falecido aos 79 anos em junho de 2009; Genuíno Ibraim Simonetti; Adelina Simonetti; Rosália Simonetti; Maria Amélia Simonetti e Anna Augusta Simonetti.

Giovanni iniciou sua vida em Goianinha mascateando, profissão muito comum na época e que foi exercida também, pelo meu avô materno Odilon Ernestino Barbalho. Adquiria mercadorias em Recife, onde já havia morado, e as revendia tanto no caminho de volta, como na vila de Goianinha e arruados adjacentes. O amigo e companheiro de viagem Pietro Nicoláu, permaneceu em Recife vivendo de pequenos negócios. Em uma dessas viagens a Recife para se abastecer de mercadorias, Giovanni o convida a mudar-se para Goianinha, e convence o amigo Pietro com o argumento de que a vila é famosa por suas mulheres bonitas e casadouras.

Pietro Nicoláu Villa aceita o convite e, ao que parece não se arrependeu. Tempos depois se casou com Francisca Ferreira da Silva, que era prima de Gertrudes, esposa de Giovanni, filha de Félix Ferreira da Silva e Joaquina Ferreira da Silva, neta do casal Félix Ferreira da Silva, segundo do nome, e Francisca Freire do Revoredo, bisneta do capitão-mor Bento Freire do Revoredo. Dessa união teve início a família Villa, no Rio Grande do Norte, que ao longo do tempo perdeu um dos “L” passando ser grafada apenas “VILA”.

Um fato curioso é que o neto de Giovanni de nome João Baptista Simonetti Filho, resolveu, a exemplo do avô, procurar melhores condições de vida em outra região do País e para isso escolheu o Sul como destino. Em 1887, partiu do Recife a bordo do vapor Bahia comandado pelo Tente Aureliano, e na noite de 24 de março por volta das 23:30 horas, quando se encontrava em alto mar, em frente a Praia de Ponta de Pedras, foi abalroado pelo vapor Pirapora que era comandado pelo Capitão Carvalho. Especula-se que nesse incidente não houve a circunstância acidental, e sim um ato criminoso do capitão Carvalho, que tinha diferenças pessoais com o capitão do Bahia e, num ato tresloucado, jogou a proa de sua embarcação de encontro ao costado do vapor Bahia, provocando seu afundamento em apenas 10 minutos. O Bahia conduzia 200 passageiros inclusive o 15° Batalhão de Infantaria do Exército que seguia com destino ao Rio de Janeiro. Desse ato insano, terminou por ceifar vidas, sonhos e esperanças de homens e mulheres em uma noite clara de mar calmo no meio do oceano. O nosso grande poeta Manoel Segundo Wanderley publicou em 1887 no Diário de Pernambuco, o poema “O Naufrágio do Vapor Bahia” .

Porém, João Batista, curiosamente teve o mesmo destino do avô, só que com rumos diferentes. O avô seguia para o Norte e ele para o Sul. Milagrosamente e bastante ferido, conseguiu chegar à praia.  Pescadores pernambucanos, o acolheu dando-lhe comida, abrigo e tratando de seus ferimentos. Quando se recuperou, telegrafou para o avô pedindo instruções e orientação. Como um bom Simonetti o velho Giovanni respondeu sem maiores delongas: “Prossiga para seu destino!” Em obediência a determinação do patriarca, seguiu viagem e tempos depois chegou a Vitória do Espírito Santo de onde nunca mais saiu. Casou-se com Carolina da Rocha e tiveram os seguintes filhos: Simonides da Rocha Simonetti que se casou com Aurora Penna; Jandyra Simonetti Costa que casou com Nelson Costa; Gercina Simonetti Bahiense que se casou com Norbertino dos Santos Bahiensea; Argentina Simonetti Abreu que se casou com Agenor Abreu; Floriano da Rocha Simonetti que se casou com Nadyr de Melo e Edison da Rocha Simonetti que se casou com Maria Motta. Tive o imenso prazer de conversar por telefone e através de e-mail com diversos descendentes dessa irmandade que ainda vivem em Vitória. Outros foram localizados nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, com os quais também mantive contado.

Em 2009, quando fui admitido como sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, impossibilitado de comparecer a cerimônia de entrega do diploma, tive a honra de ser representado por Milton José Lyrio Simonetti, um simpático primo capixaba, filho de Milton Penna Simonetti, neto de Simonides da Rocha Simonetti e bisneto do náufrago João Batista Simonetti Filho.