Por Cristina Quirino

(Jornal de Cataguases, 23.07.2010)

 

Na última segunda-feira, 19

de julho, Rosário Fusco

completaria cem anos de

vida. Uma vida marcada

por altos e baixos; por genialidade, degradação

e ostracismo, de tal forma

que difícil é definir o homem, o gênio

e o mito. Apesar de não ter nascido

em Cataguases – foi trazido para cá

aos seis meses, por sua mãe, Dona

Auta, que acabara de enviuvar – foi

aqui que iniciou a carreira de escritor,

poeta e ensaísta. Ainda bem jovem, e

com sua irreverência natural, integrou

o chamado grupo Verde – uma trupe

de rapazes cheios de inspirações modernistas

que teve a ousadia de editar

a revista de mesmo nome, um dos

ícones daquele movimento literário que

ecoava da capital paulista para a longínqua

cidadezinha mineira, nos idos

de 1927.

Depois desta experiência inovadora,

o rapaz transfere-se para o Rio de

Janeiro, onde inicia a faculdade de

Direito e, paralelamente, passa a escrever

para jornais e revistas, principalmente

como crítico literário. Trabalhou

também para o governo de

Getúlio Vargas, no extinto DIP (Departamento

de Informação e Propaganda),

e na antiga Universidade do Distrito

Federal, onde atuou como Secretário

Geral, sem nunca deixar de escrever.

Aliás, a farta produção literária

era uma de suas marcas. Foi neste período

que ele também descobriu uma

nova paixão: o teatro. Juntamente com

Abdias Nascimento, escreveu, dirigiu

e criou cenários para diversas peças.

Paradoxalmente, com o passar do

tempo, sua ligação com o governo ditatorial

de Vargas começou a ser malvista

por parte da intelectualidade brasileira

de então, acostumada a enxergar

naquele “mulato italiano” um

vanguardista libertário. Inegável a

mágoa que Fusco carregou a partir daí,

o que deflagrou, anos mais tarde, o

seu afastamento completo da vida social

e intelectual.

Em 1943 lança “O agressor”, um

de seus livros mais aclamados pela

crítica, tendo, inclusive, sido apontado

como o percussor do realismo fantástico

sul-americano, pelo acadêmico

Antônio Olinto. Na mesma época,

apresenta um trabalho sobre urbanismo

no Congresso Latino-Americano

de Municípios, no Chile. Sete anos

mais tarde, candidata-se sem sucesso

a uma cadeira no Congresso Nacional

como deputado federal. Um trabalho

para a revista O Cruzeiro, em 1958,

leva-o a Paris, onde passa a residir. É

lá que conhece a esposa Annie, que

ele mesmo definia como “último e verdadeiro

amor”, companheira fiel até os

derradeiros dias de sua vida.

É em sua companhia, inclusive, que

ele retorna a Cataguases no final da

década de sessenta, para viver o seu

autoexílio. Afastado dos grandes centros

e da vida mundana que permeia o

meio intelectual, Rosário Fusco inicia

um processo de degradação sem precedentes,

alimentando lendas e conversas

despeitadas nas hipócritas

rodinhas sociais. Daí o mito incompreendido.

Daí o homem, simplesmente

ele, que legou uma obra de valor

incalculável às futuras gerações, apesar

de ainda não totalmente reconhecida.

É assim que acontece com os

grandes gênios.

Rosário Fusco morreu no dia 17 de

agosto de 1977.



CRONOLOGIA DE ROSÁRIO  FUSCO



1925 - Edita em Cataguases o jornal

Jazz Band.

1927 - Como integrante do grupo

Verde, escreve na revista de mesmo

nome, publicada até 1929.

1928 - Com Ascânio Lopes e Enrique

de Resende, lança o livro Poemas

Cronológicos.

1932 - Muda-se para o Rio de Janeiro

e trabalha como jornalista, locutor

de rádio e crítico literário.

1937 - Forma-se em direito na Universidade

do Brasil, atual UFRJ.

1941-1943 - Ao lado de Almir de

Andrade, dirige a Cultura Política: Revista

de Estudos Brasileiros, publicação

do governo de Getúlio Vargas.

1943 - Apresentação de um trabalho

no Congresso Latino-americano de

Urbanismo, em Santiago do Chile.

1950 - No Rio de Janeiro,

candidata-se a deputado federal por

Minas (não eleito).

1958 – Entrevista, para a revista O

Cruzeiro, George Bidoux, ex-primeiro

ministro francês. Grande repercussão,

pelo fato de Bidoux estar em litígio

com o premiê De Gaulle, na questão

da independência da Argélia.

Muda-se para Paris.

1968/69 - Volta a residir em

Cataguases.

1970 - Sua peça Auto da Noiva é

encenada no auditório da Monroe

Country Public Library, na cidade de

Bloomington, Estados Unidos.

1975 - Publica o artigo Verde Porque

Tudo Era Verde, na edição número

1.499 do periódico O Lince, de Juiz

de Fora, Minas Gerais.

1976 - Joaquim Branco e Ronaldo

Werneck montam uma entrevista com

textos de Fusco, publicada com o título

Rosário Fusco: O Escritor Brasileiro

É um Supercamelô, no número

356 do jornal Pasquim, editado no Rio.

1977 - Morre em Cataguases, no

dia 17 de agosto.