LUIZ BERTO

Eram umas reuniões que nós fazíamos lá em casa e que costumavam varar as noites. Em geral, as noites de sábado para o domingo.A vastidão do mundo era o nosso pequeno território de domínio e sobre ele discursávamos com a segurança de viventes calejados e experimentados no ofício de esquadrinhar a vida. Teve uma noite em que meu compadre Tira-Teima, cantador de ofício e rudemente alfabetizado nas letras da vida, fez uma conferência sobre a enormidade de incestos, traições, concubinatos, amasiamentos e mais um sem-número de sem-vergonhices contidas no Velho Testamento que deixou boquiaberto o Prof. Salim Sidhartta, este doutor formado e com mestrado em Lingüística. E fez sua palestra, conforme afirmou então, escudado na sua condição de ex-crente Batista e, principalmente, na sua autoridade de cantador obrigado, por dever de ofício, a ser conhecedor do texto sagrado.

Conversava-se muito miolo-de-pote e a garrafa de aguardente ficava correndo na roda, sempre temperada por um tira-gosto que eu mesmo preparava. Era um tempo adorável e, no íntimo, cada um de nós sabia que um dia ainda sentiríamos muita falta daquilo. Glória, mulher de Salim, viajou antes do combinado e deixou uma lacuna que envolvia a gente pelos quatro cantos. Meu compadre Tira-Teima também partiu para o infinito numa noite de lua e o silêncio de sua fala estridente me perturba até hoje. Orlando Tejo voltou para o Nordeste e a nossa roda acabou-se aos poucos, restando apenas a lembrança dessas besteiras que tento narrar agora.

Quando Orlando Tejo aparecia – o que acontecia sempre – era sinal de que iríamos abraçar o sol com as mãos e ver o dia nascendo entre histórias de cantadores e declamações de poesias dos grandes mestres do repente nordestino.

As envolventes conversas de Tejo nunca deixavam a conversa desaprumar e a noite era pequena para conter o universo tão rico daquele amigo cheio de enredos e de poesias. A aura iluminada de Orlando conseguia ser infinitamente maior que sua voz pequena, que nos obrigava a um silêncio absoluto para bem ouvir suas histórias. E que histórias! Era um privilégio conviver com ele naquelas noites encantadas. E, no apertado espaço da sala, se ajeitavam confortavelmente Pinto de Monteiro, Diniz Vitorino, Manoel Pedro Clemente, Ascenso Ferreira, Dimas Batista, Canhotinho, Carlos Pena Filho, Otacílio Batista e quantos poetas houvesse nesse mundo nordestino que Deus houve por bem criar. O mais fantástico mundo de quantos mundos há em todos os continentes.

Mas uma noite, Tejo deixou as histórias de lado e inventou de me desafiar para um jogo de gamão, tentado que foi pela visão do tabuleiro num canto da sala. Falou muito do Clube dos Caçadores, em Campina Grande, sua terra natal, onde era reputado como imbatível Mestre do Gamão, primeiro sem segundo, e deu notícias de uma infinidade de partidas, nas quais sempre terminava arrasando seus adversários. Fiquei bestificado e, resignado, resolvi me submeter ao sacrifício. O embate seria testemunhado pela minha mulher, minha “pata” preferida, e eu notei um sorriso de satisfação no canto de sua boca. Afinal, iria se vingar de um longo rosário de capotes e derrotas inenarráveis naquele tabuleiro, que já era móveis e utensílios do nosso viver.

A platéia se arrumou, ajeitamos as pedras e sacudimos os bozós. Parecia que tudo ia correr nos conformes. Eu nunca havia enfrentado Tejo e acreditava piamente que suas performances em Campina Grande iriam se repetir ali na minha sala. Foi ai que sucedeu-se a desgraça. Bafejado pelos caprichos de algum espírito gozador, massacrei o poeta com uma pisa atrás da outras, dando-lhe gamões homéricos e tirando-lhe o couro em surras de criar bicho. Ele fitava o tabuleiro, sacudia as pachacas e, a cada revés, ia crescendo em inconformismo.

- Isso é que é ser um bicho cagado da gota! – resmungava entre uma e outra baforada no cachimbo.

E o pau foi cantando de dar gosto, me deixando cada vez mais animado e o poeta com um ar de quem estava sinceramente puto. Retirou-se com o dia já amanhecendo e eu pressenti um inédito toque de mau humor nos seus gestos, como que inconformado com a pisa que levara durante a noite. Como que querendo acreditar que aquilo fora uma grande sacanagem do destino. Afinal, suas histórias, para nós, tinham fé de ofício, e ninguém jamais seria capaz de duvidar que ele era realmente o maior Mestre de Gamão do Nordeste e da Paraíba. E, no entanto… Acompanhei-o até a porta e se despediu sem efusividades. Via-se que ruminava. Estava puto. Aquilo era demais para o auto-alardeado valor de grande jogador de gamão. A humilhação era ressaltada pela mangação que eu não podia evitar.

Dois dias depois, assunto encerrado e esquecido, Orlando Tejo aparece na minha sala de trabalho com um ar misterioso e me pedindo reservas sobre o assunto que iria me falar. Garanti-lhe sigilo e fiquei curioso com o que viria a partir dali. Ele meteu a mão no bolso do paletó arrancando umas folhas, sussurrando que conseguira, através de um amigo, uma verdadeira preciosidade: uma coletânea de seis sonetos do saudoso poeta pernambucano Carlos Penna Filho, psicografados pelo médium Francisco Cândido Xavier. O poeta havia morrido de acidente de automóvel, na flor da mocidade, em pleno centro do Recife, em junho de 1960. Tejo me passou as folhas, cheio de mistérios, com recomendações de muito cuidado. O peso da responsabilidade me caiu sobre a cabeça e comecei a tatear no meio daqueles documentos.

Iniciei a leitura e fiquei maravilhado, pois tratava-se, inegavelmente, da pena do magistral Carlos Penna Filho, o poeta do azul, o jovem vate que cantava as noites do Recife. Era ele, sem dúvida, o mestre Carlos Penna Filho, que viera do infinito para fazer borbulhar através da mão do mestre espírita de Uberaba o vigor de sua poesia. Viera, mais ainda, para minar a resistência da minha falta de fé naqueles assuntos do encantado e do post-mortem.

Mas, à medida que fui avançando na leitura, percebi logo que se tratava de mais uma presepada do Tejo. Como não pudera me vencer no tabuleiro, vingava-se com aquela história de sonetos psicografados. Não demorou muito para que eu visse que estava diante de mais uma obra-prima do meu amigo. Uma obra-prima composta de seis sonetos, cuja característica, a que primeiro me saltou aos olhos, é que o último verso de um era o verso de abertura do próximo.

Mas o que interessa aqui é o primor que são estas poesias, cuja transcrição vai a seguir:

Sonetos ditados pelo Poeta Carlos Penna Filho e psicografados pelo Médium Francisco Cândido Xavier, em Uberaba, MG, em 02/08/83

I

Daqui destas azuis e ledas plagas,

Onde, contrito e em Deus, pairo sonhando,

Vislumbro o douto Professor Orlando

Dando aulas de Gamão, nas horas vagas!

Sua mestria, digna de áureas sagas,

Incomoda os perus que vão piando…

Um deles, o menor, de quando em quando

Atira contra o Mestre duras pragas.

Entanto, Mestre é Mestre. E o Mestre Tejo,

Cuja ciência gamônica eu invejo,

Oferenda ao Gamão grandes destinos.

E quem é grande assim, sem sobressalto,

Tanto sabe acolher o que vem do Alto,

Como sabe perdoar os pequeninos!

 

 

II

Como sabe perdoar os pequeninos

E vencer maiorais galhardamente,

O Professor Orlando vai em frente,

Munido de seus dotes nordestinos!

Seus lances, que são mágicos, divinos,

Desnorteiam qualquer um pretendente

Ao trono do Gamão. E, num repente,

Deixa toda a platéia ouvindo sinos!

E vai nessas azuis veredas flóreas

Do Gamão, recolhendo auras de glórias,

Solto, sutil, soberbo, soberano!…

Pois que, sem o mais ínfimo obstáculo,

O Professor Orlando é o espetáculo

Do circo mundial gamoniano!

III

Do circo mundial gamoniano

O Mestre Orlando é o lídimo acrobata!

Não há ninguém aí que ele não bata:

Russo, chinês, egípcio, coreano!

Sagrou-se Professor no Vaticano

E, desde a sagração, de prisca data,

Ele ensina a plebeu e a diplomata

Todos os meses, dias e horas do ano!

E o próprio Papa, em sua santidade,

Reconhecendo a genialidade,

Disse, em todas as línguas, num sermão:

- O Professor Orlando, por seus dotes,

É, para incréus e para sacerdotes,

O Mestre imponderável do Gamão!

IV

O Mestre imponderável do Gamão

Desde Recife se tornou lendário:

Aposentou Josy, surrou Zé Mário,

A Príncipa e Marquinho, seu irmão.

Em Brasília, esse incrível campeão

Perlustra o mesmo azul itinerário.

Numa clara manhã destronou Dário

E Valberto espremeu feito um limão!

Mais outros e outros tantos, inclusive

Um campeão mexicano e um detetive

Que se dizia invicto no Ocidente.

Com o Mestre Orlando é que não tem “pirreps”;

Encontra no caminho esses presepes

E o seu carro de glórias segue em frente!

V

O seu carro de glórias segue em frente,

Sempre em velocidade e em rumo certo.

Já passou por cima de Luiz Berto,

Inspirado escritor polivalente!

Este, que se dizia surpreendente,

Ficou, como quem prega no deserto,

Abestalhado e da loucura perto,

Riscando o chão, atônito, demente.

Autor de um livro incólume, completo,

O palmarense é assaz analfabeto

Nas letras do Gamão, que espargem fogo.

Jogou com o Mestre Orlando, mas perdeu,

São Benedito não lhe protegeu,

Porque não pode haver milagre em jogo!

VI

Porque não pode haver milagre em jogo,

O Mestre Orlando no Gamão confia.

Não nos bozós, mas na filosofia

Da exegese que faz do gênio a rogo!

Trata-se, pois, de ilustre pedagogo

De uma austera e colenda Academia.

Luminar inefável, eu diria,

Sem ter a impostação de um demagogo!

Este Mestre, este Lente ínclito e nobre

Que aulas ministra a todos, sempre ao dobre

Dos sinos do saber e da lisura.

Pode bater no peito com vontade

Como o gênio da própria Humanidade

A iluminar uma época futura!