Valério mesquita

Celebra-se em  2010, o centenário do escritor Américo de Oliveira Costa que nasceu em 22 de agosto de 1919 e faleceu em 01 de julho de 1996. Dele, se afirmou que mais do que a sua cultura vasta, mais dom que as suas honrarias  múltiplas, ainda permanece intactas a dimensão exata do homem espiritualmente rico, mas materialmente pobre. Isso porque disse não às tentaculares investidas para o alto.

As tarefas de professor de gerações e procurador aposentado do Estado constituíram um destino que poderia ter ido mais longe, mas que o fez dono de nada, economicamente. Apenas feliz e calmo,  só para ser livre e isento, com altivez, probidade e o sonho de escrever a obra literária ímpar que hoje perpetua a sua memória.

Tornou-se um homem da sua província tal como Cascudo. Nele víamos no rosto as faces ocultas de tantas leituras e de tantas figuras das noites inúmeras de sua povoada biblioteca.

O mestre Américo expirou de repente entre os fantasmas de tantas literaturas, chamado por eles para conviver em outros espaços, em outra biblioteca, suspensa no ar. Encantou-se para Renan sair dos seus livros afirmando a Alvamar Furtado que hoje, no Rio grande do Norte:”Uma corda se quebrou na lira deste século”. Ou Goethe comparecendo ao Conselho Estadual de Cultura papeando com Diógenes, dizer sobre o mestre potiguar: “A vida intelectual do Rio grande do Norte diminuiu de valor”. E na Academia Norte-Riograndense  de Letras, bem que poderia ficar lapidada a frase escrita no busto  de Moliére: “Nada falta a sua glória, ela faltou a nossa”. Américo de Oliveira Costa foi aquele homem bom, reflexivo, cordial, ameno, despojado de vaidades superficiais. Seu estudo sobre a obra de Cascudo é continental, amplo, definitivo. Viveu para a Cultura que na síntese de Edouard Herriot: “ É o que fica quando tudo se esqueceu”. Há pouco o governo do Estado reparou a injustiça do seu olvido inaugurando um centro de cultura com o seu nome na zona norte de Natal. Mas,  também, a família sofreu a perda de D. Zefinha (Josefa dos Santos Costa) falecida aos oitenta e três anos, sua devotada esposa e companheira de tanto tempo. A família padece  duas irreparáveis ausências, hoje substituídas pela dor e  saudade. Relembremos o mestre com carinho. Américo escritor, pesquisador, professor, chefe de família, bom esposo e pai, vestígios que não se apagarão da memória e dos seus alunos e amigos. Natal/RN, maio de 2009

(Costa, João Eduardo. In  O Habitante da Biblioteca (100 anos de Américo de Oliveira  Costa) Jundiaí/SP: Paco Editorial, 2010.