NEL BLU DIPINTO DE BLU
Eis-me agora, rio acima,

construindo o entardecer.

Mas tanta cor não cabe nesse espaço

e arrebenta os limites que a circundam

Desta planície azulverde

cidade de rio e mar,

irei até onde a terra

deixou terras por achar.”

 

Carlos Pena Filho

O Rio Grande do Norte é vário e múltiplo. E patrimonialista, quando se trata de assuntos culturais. Adotou um jeito de amealhar os seus valores, a partir do estabelecimento de uma moeda múltipla, mas única, com exemplares exclusivos de cada espécie. Somos cautelosos. Ainda guardamos o sistema das capitanias, retirando-lhes, todavia, o caráter hereditário. O que há de novo no modelo reformado é exatamente isso, o legado extingue-se com os donatários. Porque estes são únicos.

A terra potiguar foi distinguida por três donatários, únicos, insubstituíveis: o olímpico Cascudo, que poderia ter emprestado o seu nome para designar a sua terra natal, tanta é a sua grandeza; o poeta Jorge Fernandes, moderno antes dos antecipados e soi-disant modernistas – pré e pós modernista, portanto; e um ícone contemporâneo, idealizador de uma linguagem plástica intimista, bem nativa, no entanto universal:  Dorian Gray Caldas.

Um ganso de plantão no capitólio potiguar está me azucrinando os ouvidos, cochichando o nome de Newton Navarro. Está correto, concedo. Mas, creio, nas bainhas da minha modesta estatura, que Navarro, mestre do desenho e das aquarelas, íntimo do colorismo, era mais abrangentemente regionalista e menos nativo nas suas composições. Talvez tenha descoberto uma linguagem universal que aculturou à sua terra, diversamente de Dorian, que criou uma linguagem regional para universalizá-la pela originalidade, como uma marca, uma griffe.

Ouso mais. Tenho para mim que não há Dorians, senão o personagem de Wilde, nem clones, nem cópias, porque o seu traço e a tessitura das suas composições são inconfundíveis. Podem até não gostar do seu desenho ou da sua policromia, por razões estéticas, mas haverão de conceder-lhe a autoria exclusiva, uma digital, uma patente.

Em Dorian Gray não encontro a pomba branca do poeta visual Pablo Ruiz, que vez por outra se aninhava entre os dedos plásticos do gigante Newton, mas um golinha miúdo, cantante e trêfego, escapando com facilidade das mãos operárias do veranista-ano-inteiro de Búzios para esvoaçar as suas telas.

Aliás, as mãos de Dorian são o contraponto da sua singular sensibilidade, da alma poética e da visão lírica daquele em quem vislumbrei, quando da apresentação que fiz do seu livro `Poema para Natal em Festa`, ”o extraordinário pintor de marinhas, azuis cartografias reveladoras da essência astral das nossas praias”.

Mas é no traço, na facilidade com que, com inigualável economia, sem sovinices na harmonia, tece as suas composições, que se notabiliza o donatário, pintor-poeta-tapeceiro-escultor e desenhista, que em nada se identifica com o personagem de Wilde.

Tem mãos enormes e distorcidas, como um operário ou um agricultor do inexcedível Portinari, mas prima por ser um artífice de tamanha sensibilidade que com elas acende estrelas e luas e faz delicadíssimos origamis de flores e aves. Tal como se tem no poema de Carlos Pena Filho, opera-se uma tocante empatia com o ofício do belo: “Em tuas mãos, manchadas de ternura, pousaram brancos pássaros...”. Quanta leveza no traço poético do pintor, ou na pintura do poeta, como se as mãos repetissem a navegação e o risco dos pássaros no vôo.

Nesse ponto, tomo de empréstimo uma imagem metafórica, criada por Cascudo para identificar a leveza do andar das francesas de sua época: “ A allure da francesa, leve, rápida, tocando a terra o suficiente para não ser inteiramente vôo…” As mãos do poeta-pintor-poeta tocam a tela e o papel apenas o suficiente para que elas não se confundam com a própria obra e o artista, diluído na tela, ensandecido pela beleza, comandasse à sua obra: parla!

É tanta a fascinação que a obra de Dorian exerce sobre a minha estética, que cometo, sempre, apropriações indevidas, confesso temerariamente. Coleciono ilustrações de livros e revistas, reproduções de algumas marinhas e tapetes; fotografo alguns quadros – mas, sobretudo, os desenhos, as iluminuras tão singelas e expressivas a um só tempo. Porque Dorian não produz um traço, não rabisca aleatória ou automaticamente uma figura, ou uma paisagem, ele “interpreta” o momento ou a composição que trabalha, oferecendo ao visualizador um estado de espírito, a fixação de um instante banal eternizado pela beleza.

Senão, confiram as ilustrações da Revista do Conselho Estadual de Cultura do Rn, (edições de 2005, 2006 e 2007 – especialmente as ilustrações das “Cervantinas”) ou as iluminuras do seu livro, já referido, (“Poemas para Natal em Festa”) ou “Cartas da Redinha”, de Vicente Serejo, editados pela “Nossa Editora”, nos anos oitenta.

São esfumados, grafites, riscos, geniais rabiscos, menos que o risco imaginário de uma andorinha num céu primordial, um fio da teia da aranha, da renda negra do véu missal, ou dos cabelos de tão negros, azulados, das morenas do congo.

Em “Sonhos”, Kurosawa produz alguns cenários que de fato são, ou poderiam ser do mestre Van Gogh e imagina um diálogo entre um amante da obra do pintor e o genial artista holandês, em que, atendendo a uma pergunta do interlocutor, Van Gogh diz que a natureza põe todo o seu acervo a serviço do pintor, estaria tudo subjacente ao alcance do observador, por isso que a tarefa, a missão estética do artista, seria apenas a de “ver” e “interpretar” os cenários e os modelos humanos.

Concordo que o artista plástico não pode se caracterizar como mero fotógrafo, trabalhando com fidelidade obsessiva o modelo que o atrai, embora haja mérito neste tipo de trabalho; nem como copista do “ver” alheio, como contrafator de idéias ou de estilos alheios. Haverá de distinguir-se pelo seu modo especial de “enxergar” a realidade, revelando outras perspectivas, novas expressões, uma estética peculiar que poderá ou não provocar empatia no observador. Não importa. O bom artista busca a comunicação com o mundo, instiga a empatia, mas não compõe para agradar.

Nas suas marinhas, Dorian evola os elementos pictóricos, envolvendo-os com a sua linguagem e os acumpliciando, sem convertê-los em subalternos uns dos outros. Há uma unidade distinguível, onde se percebe uma “atmosfera” – como distinguem os impressionistas – transitória entre o azul e o verde, elemento de fusão da paisagem. Mas releva-se o mar, as pedras, a areia e a sugestão de alguma vegetação circunstancial.

O mais curioso, na minha percepção leitora incipiente, é que não encontro o desértico  ou a solidão na paisagem Doriana, de resto vazia do ser humano. Porque não resisto ao imaginário, conduzido pela composição e “vejo” sugestivamente um pescador, uma mulher solitária, uma criança e o seu cachorro, ou um contemplativo desfrutando aquela cena. Como eu, talvez como os guardiões dos belos quadros.

Essas marinhas se parecem e se distinguem. São assemelhadas no “clima”, mas diferentes na “leitura” de Dorian. Cada uma delas guarda conformidade com o momento, a circunstância, a emoção peculiar do artista. Por isso que, no primeiro momento, temos a impressão de que quem viu uma, viu a todas. Depois, observando-se atentamente e se deixando envolver pela mística do cenário, tem-se a certeza de que há apenas a semelhança temática que nos conduz a essa generalização simplificadora.

Quanto ao desenho não há como não identificá-lo como obra de Dorian.

Percebe-se a avareza no supérfluo, mas a riqueza na essência, pari passu com a acessível visibilidade do tema elaborado. Por vezes, parece-me que o desenhista pretende provar que não é necessário o “barroquismo”, o traço rebuscado e alegoricamente ornado para se obter um resultado estética e figurativamente satisfatório. Às vezes imagino que o homem faz o estilo, que é o próprio ser Doriano que se projeta nos desenhos.

Já vi Dorian mover o “crayon” três ou quatro vezes sobre o papel e oferecer-nos uma bela e rica composição.

Não sou crítico de artes, nem sequer um connoisseur. Minhas opiniões se limitam à minha percepção e senso estético pessoal. Vale dizer, gosto ou não gosto, na justa medida em que a obra me diz ou se recusa a me dizer alguma coisa, negando-me a oportunidade de interagir com ela.

Com Dorian eu consigo ler mensagens, reviver o imemorial. Sobretudo quando recolho pedaços de “Búzios” nas marinhas. Ou quando identifico a festa de Reis, o martírio de Frei Miguelinho, o Quixote que reverencia Cascudo, enquanto este degusta um charuto; os tipos populares da minha terra. Por isso proclamo a nordestinidade potiguar de Dorian e o elejo o pintor, desenhista poeta e tapeceiro mais comprometido com a terra norte-rio-grandense, rendendo-lhe as merecidas homenagens.

Não bastasse esse tudo de artes plásticas, o poeta está subalterno e é estuário do pintor, exatamente pela visão plástica de que se alimenta o poeta. Ora, se o poeta é contemplativo, valendo-se dos olhos da alma, que dirá se a sua sensibilidade for potencializada pela visão de quem sabe ver, de quem tem o ofício e a qualidade de valer-se de forma privilegiada dessa sua percepção sensorial?

É um poeta que explora o seu onipresente nativismo, ora “brincando” o Boi Calemba e o Pastoril, multicolorindo as escrituras de metáforas e de estórias líricas, ora se atirando no azul danado de azul do mar e do céu potiguar, os pés descalços deslizando pelas alvas areias das dunas e marcando o território da poesia, como os animais o fazem com o seu espaço físico.

Convertendo em sóis, as manchas amarelas das marinhas e em agasalhos para as noites de pequenos vendavais e de estrelas à beira-mar, os tapetes ornados de motivos paisagísticos e figurativos saídos dos seus sonhos mais reais.

Viaja, sempre no dorso da ave-do-paraíso de Nassau, sobre o Rio Potengi até o portal do Atlântico, e faz reverência a Rifoles que se incrustou na pedra que aportuguesou o seu nome.

É caranguejo, goiamum, siri, sargaço arribado e retornado, movimento de maré, vaga oceânica, espuma rendada depositada à beira-mar, sol, sóis, estrela Dalva, lua caprichosa banhando-se no mar de Búzios, Maria Farinha pequena, ágil e imponderável. Caju, Manga, Guajiru, Mangaba, Coco verde…

Eis que no remanso, o aguarda uma sereia morena, sabendo a Gauguin, coroa de flores, dentadura alva, boca transpirando sorriso de cravo, vestido encarnado e azul, com certeza a Diana do Pastoril de ontem que ilustrou a tela e um tapete, hoje doce e compassiva oferta para uma teia poética.

Em casa, Wanda, a bem-amada o saúda com um arranjo de lindas e singelas flores baldias, colhidas ao acaso, tão floridos os arredores do lar. Dione debulha o dia numa tela recém-violada. Adriano exerce o oficio fácil de poeta porque posseiro desse cotidiano, cheio de harmonia e de beleza. Presente, a memória da mãe, duplamente Ninfa, no pressentido arrastar de sandálias, nos quadros e tapetes guardados num relicário.

Família iluminada esta, que transcende a casa de Dorian e alcança Zaira, a fazedora de vitrais, a que filtra o sol e o distribui em mil cores, nos templos religiosos e pagãos, e Isa, a dançarina que alça vôo com os pássaros e se torna luz e sombra, a quem cabe a allure a que se refere o Mestre da Junqueira Aires.

Herdeiro também de Luis Rabello, poeta-poeta porque é também trovador, o que é porque é, porque nasceu com esta compulsão e não aprendeu a despir-se das palavras que costumam se reunir em rimas por encanto.

A esse conjunto familiar harmonioso nunca faltou a sugestão de Adélia Prado quando nos diz que certo dia o pai mandou pintar a casa de alaranjado  brilhante e que desde então estavam constantemente amanhecendo. Que bela metáfora para descrever a realidade feliz de um pintor-poeta ou poeta-pintor e a sua família de artistas.

Por último, mas não menos importante, a sua característica pessoal mais marcante: o cavalheirismo. A fidalguia natural. Porque não ousar dizer: a doçura. O domínio vocacional de outra arte – a de ser bom e de fazer o bem; a coragem de ser “clean”, tal como a sua arte e a sua poética, numa época “dark” que espalha a negritude e a rutura sob a roupagem de vanguardismo.

Tenho os meus “anjos” já identificados na série de “perfis” que publiquei e a qual este texto se agrega.  Disse, nesses esboços já publicados, que os amigos são como anjos, homenagem ao ofício da amizade, podendo chegar a arcanjo ou tornar-se um dos “caídos” por infidelidade do mandato recebido. Jales Costa, Armando Holanda e Bartolomeu Correia de Melo são da espécie angelical: Jales é anjo-filósofo, monitor de Platão; Armando foi promovido a arcanjo; Bartolomeu é anjo-trovador com a missão de estabelecer os fundamentos da freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Rio dos Homens.

Dorian é da espécie que auxiliou Rafael, Michelangelo e Fra Angelico nas composições sacras e por isso foi ungido por Deus, por merecimento e confiança, à condição de desenhista e pintor de temas profanos, com ampla liberdade para criar e até de afastar-se do formalismo acadêmico. Mais que alforria, foi um ato de compaixão e de amor do Criador às suas criaturas. Quis o Pai Eterno que ele fosse deslocado das oficinas divinas, para as forjas planetárias. Para oferecer este prazeroso desfrute aos seres humanos.

Pedro Simões – Professor de Direito (aposentado), Escritor e Advogado.