“Eu não sou eu. Sou eu e minha circunstância”

(Ortega y Gasset)


Certa figura do socialite potiguar, muito orgulhoso da sua ascendência, da singular estirpe que lhe emprestava o pomposo nome composto, informava a Paulo Macedo que os seus ancestrais desde há cento e cinqüenta anos participavam da vida sócio-política e econômica do Rio Grande do Norte. Relatava esse fato na expectativa de que o colunista noticiasse essa invejável marca histórica em favor de tão ilustre família.

Paulo ouviu o relato atentamente, como é da sua natureza e, quando o interlocutor fez-se mudo para aguardar as palavras elogiosas do jornalista, ouviu, de fato, outra revelação – a de que os fenícios, ancestrais do colunista, cujo pai é sírio, tiveram origem há cinco mil anos.

O meu então companheiro de Rotary, transmitiu a desconcertante notícia sem afetação nem malícia, apenas registrando com naturalidade a ancianidade da sua linha de sucessão. O quase-nobre engoliu a bebida e a lição de humildade e mudou de assunto.

De fato, a história registra a existência dos fenícios, antepassados dos sírios e libaneses, há cerca de 5.000 anos antes de Cristo. E a sua origem é controvertida, concordando a maioria dos historiadores que ela se deu entre o Mar Morto e o Mar Vermelho. A própria história dos fenícios indica apenas o endereço onde se localizaram nessa migração: a região conhecida na antiguidade como Canãa, eis porque eles também se denominaram de Cananeus.

Os fenícios teriam sido hábeis navegadores, os mais competentes construtores de embarcações, destacando-se como excepcionais comerciantes e artesãos. Consta que a denominação “fenícios” teria sido dada pelos gregos (Phoinix – designativo da cor vermelha). Tal denominação encontraria justificativa na pele acobreada dos antigos cananeus ou no seu produto mais requisitado, a púrpura, substância utilizada para tingir tecidos. Os nobres e os abastados a prefiriam porque as vestes rubras conferiam status aos seus portadores uma vez que na antiguidade só existiam roupas com cores entre o preto, o branco e o cinza.

Observe-se que os fenícios destacaram-se exatamente como empreendedores de produtos onde havia maior demanda ou carência tecnológica entre os povos da antiguidade: navegação, comércio de artesanato e de tinturas. Isso explica o sucesso desse povo extraordinário e os seus descendentes.

(Os mascates árabes que aportaram em terras brasileiras foram responsáveis, como se fossem verdadeiros bandeirantes do comércio, pela interiorização e acesso dos consumidores dos mais longínquos grotões do nosso país aos  produtos indispensáveis à sua economia doméstica. À maneira dos botequineiros portugueses, vendiam fiado, mas se revelaram os mais hábeis na arte de negociar.

Quem quer que tenha vivido no interior do nosso estado haverá de recordar de pelo menos um “turco” de língua engrolada que nos fazia comprar sem querer ou pagar o preço que imaginávamos justo, pelo menos duas vezes maior que o custo do produto adquirido. Estão no nosso imaginário e merecem lugar de destaque na própria formação da nossa cidadania).

Três das maiores cidades desse período – Tiro, Biblos e, principalmente, Cartago – foram erigidas e povoadas pelos fenícios. Cartago foi a cidade fenícia de maior importância histórica desse remoto período, por ter sido o centro do comércio e da navegação. Chegou a provocar ciúmes e desafiar os grandes impérios da antiguidade, inclusive o romano.

Inteligentes e práticos, os fenícios pagavam tributos aos vizinhos para que eles os deixassem exercer livremente o comércio e ainda permitiam que estrangeiros morassem em suas cidades permitindo que estes abrissem qualquer tipo de negócio. Não temiam a concorrência porque tinham ciência de que eram mais bem dotados na arte de marcadejar.

Por tais estratégias, esse aguerrido povo prosperou e Cartago chegou a tal poderio e fausto que os romanos a tinham como ameaça permanente, tanto que Catão, o antigo, senador do poderoso império romano escolhera como bordão a expressão “Delenda est Cartago” – Cartago deve ser destruída – para iniciar e encerrar s seus discursos. Um alerta em favor do poderio romano.

Toda essa introdução serve a um propósito, o de contextualizar Paulo Macedo, que não é comerciante, nem construtor de barcos, mas é mestre navegador, mercê de sua singular inteligência  e  profundo conhecimento da natureza humana, herdada dos ancestrais. Navega nas afeições dos seus conterrâneos adotivos, na condição de decano do colunismo potiguar e pela invejável condição de mecenas da promoção alheia, valendo-se do seu tesouro mais peculiar – o artesanato da palavra de bem dizer.

Conheci-o há muito tempo atrás. Mais precisamente no auspicioso ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1955, numa festa para escolha da Rainha do Colégio Marista em que disputavam duas lindas meninas em flor: Eliane das Virgens, irmã do meu colega Jobel Amorim, e Naide Dantas, irmã do amigo e conterrâneo Hamilton de Sá Dantas. A primeira candidata que, salvo falha da memória, foi a eleita, já se encantou em outros planos existenciais, não sem antes deixar-nos um legado de sapiência, e dedicação, como Desembargadora integrante do Tribunal de Justiça do Estado e de carinho no trato pessoal.

Ainda tive o prazer de resgatar a minha posição de torcedor da sua competidora – minha amiga de infância Naide Dantas – quando fui Promotor em Serra Negra, tendo-a como Juiza. Rimos muito com a lembrança daquela época de descompromissos e inocência.

Então, Paulo Macedo era mestre de cerimônias do evento, dado o seu ofício de colunista social e expert de cerimoniais. Fizera essas vezes como gentileza ao colégio – o mais conceituado do Estado em matéria de ensino e disciplina. Na ocasião, acompanhava-se pela aprendiz e neófita no ofício do colunismo, Luiza Maria Dantas, uma das mais belas jovens da Natal dos anos cinqüenta, com quem depois viria a se casar.

Surpreendi-me com o modo determinado, o desembaraço e o magnetismo que o jornalista irradiava. Pequenino, “pouquinho” como se dizia em Ceará-Mirim, mas dominador. Uma personalidade polarizadora. Não sei se era a sugestão decorrente da sua fama ou de fato era privilegiado pelo carisma herdado dos seus ancestrais, mas a sua figura causou-me forte impressão.

O tempo passou com tamanha velocidade que às vezes me surpreendo buscando uma certa memória deixada na década de sessenta como se fosse coisa de ontem e me surpreendo com os mais jovens me dizendo o quão longínqua está essa lembrança: “Ora, eu nem era nascido ainda!”

Pois bem, se a minha ligação com Paulo era unilateral, pois ele sequer me conhecia, bilateralizou-se nos anos oitenta. É bem verdade que, antes dessa década, eu já o acompanhava como leitor assíduo no Diário de Natal, e também aguardava ansiosamente, todos os dias, a transmissão do seu programa na Rádio Poti, aberto com a sugestiva “Tea for two” dos anos quarenta, glamorosa e aliciante. A música era ainda sucesso no mundo todo, um convite à sofisticação encarnada pelo novo way of life americano, imagine-se em Natal, ainda memoriosa e nostálgica dos anos da guerra quando abrigou os filhos do Tio Sam que se valeram do “Trampolim da Vitória”.

Mas o contato “ao vivo” e a cores  só se deu quando me transferi do Rotary Alecrim para o Rotary Sul, a instâncias dos amigos Orione Cavalcanti Barreto e Gleire Belchior.

Lá, além dos já citados, e de outros amigos queridos, encontrei Sid Fonseca, Thiago Gadelha e Valmir Targino, três quadros sociais da melhor qualidade. Thiago iniciava as exportações dos “confeitos” de sua fábrica para os Estados Unidos; Sid levava muito a sério a missão rotária da prática do companheirismo e da prestação de serviços e se preparava como  candidato a vereador; Valmir nos encantava com a sua “verve” e rompantes de interiorano que não leva desaforo para casa. Quanta falta nos faz esse companheiro!

Conta-se, em meio às tantas lendas que cercam a biografia de Paulo que, num jantar que ofereceu ao conterrâneo, o então Ministro César Cals, ex-governador do Ceará, teria advertido a Valmir que se controlasse pois não queria submeter a autoridade a constrangimento, já ressabiado com o à vontade do amigo.

Não deu outra. O ministro, cearense de quatro costados, começou a tecer loas à sua terra, e, sem querer, apequenando o nosso estado, por gravidade. E gabava a inteligência dos conterrâneos, dando-os como descendentes dos judeus, embora muito mais espertos. Valmir contou até mil, e depois, como a autoridade continuasse o seu rosário de pabulagens, esperou que ele tomasse fôlego e aí atacou: “Ministro o senhor permite que eu conte uma anedota de cearense?”. O ministro não teve alternativa.

Um Paulo em pânico sugere um licor, um cafezinho, um doce, qualquer coisa que pudesse desviar o curso da tempestade que se prenunciava.

Como ninguém se dispusesse a aceitar um dos regalos do anfitrião, exatamente pelo fascínio da “mise em scéne” do nosso contador de causos, Valmir começou a anedota.

“Um pau de arara cheio de cearenses parou à beira da estrada para que os passageiros `arriassem o óleo`. Dois deles se afastaram para muito longe e quando voltaram o caminhão já tinha partido. Desesperados, ficaram o meio da estrada e paravam cada um dos veículos que vinham na rota do caminhão que os abandonou e perguntavam esperançosos: viram um caminhão cheio de cearenses faltando dois?”

César Cals engasgou-se com o licor que afinal aceitara e Paulo quase é hospitalizado. Todos riram descaradamente.

Paulo não é arquiteto nem engenheiro, é graduado em Jornalismo pela antiga Faculdade da Fundação José Augusto, mas doutorado “summa cum laudae” na Escola da Vida. Que aprendizado mais completo e de maior sabedoria? Pois aprendeu a construir com o João de Barro e com os pequeninos pássaros nidificadores. Cultiva a observação, a paciência, a tolerância e o trabalho perseverante. Como os passarinhos transporta no bico as migalhas, os pedaços, as sobras, e os aproveita numa construção pequena e sólida, convertendo os resíduos em materiais nobres. Nunca planeja palácios, nem arranha-céus, embora as suas construções se postem nos elevados dos serrotes e das árvores.

Mas, mesmo que não projete esse resultado, surpreendentemente, as construções se transformam em castelos. Humilde, nunca perseguiu a glória, mas ela lhe vem ao colo ou aos pés. Predestinação? Talvez. Prefiro a explicação da premiação ao mérito. De que? Poderão indagar os mais sarcásticos e também os invejosos que se auto-denominam “injustiçados”. Ora, a glorificação não se dá apenas pelo mérito intelectual, embora Paulo o tenha, mas, no seu caso, se dá pela sua própria contribuição como original Mestre de Obras dedicado à construção da reputação e da glória alheias.

Alguém já se deu ao trabalho de verificar quantas personalidades Paulo ajudou a construir, a desenvolver ou a manter no pódio da vida social, política ou econômica do nosso estado? Sem nenhum esforço, lembro-me de algumas centenas de beneficiário(a)s, apoiadas por ele nos momentos de crise, estimuladas e impulsionadas nos seus projetos de conquista, afagadas quando o ego pedia compensação, reputações estrategicamente disfarçadas, com muita areia jogada nos olhos dos desafetos e mesmo da opinião pública, além do emprego de táticas diversionistas quando era necessário contornar certos problemas.

De um modo ou de outro, todos os que fizeram parte num dado momento, ou se mantêm até hoje na constelação de estrelas que emoldura o firmamento da terra potiguar, receberam o alento da coluna de Paulo Macedo.

Todos os que privam da amizade de Paulo sabem da impulsividade do colunista quando simpatiza uma causa. É o único momento em que não raciocina como árabe, que de hábito sopesa a iniciativa, avaliando os riscos e o custo/benefício da empreitada.

Quando concorri à eleição para a Reitoria da UFRN, procurei o apoio de Paulo e, no seu pequeno gabinete do Diário de Natal, fiz-lhe o relato dos meus projetos. Entusiasmado, ele me disse que poderia contar com a sua coluna, único recurso de que dispunha para auxiliar-me e  que ele sabia que era um valioso instrumento formador de opinião.

Algum tempo depois soube que tivera uma divergência com um seu amigo muito querido, amizade sedimentada ao longo de muito tempo, que apoiava outro candidato, sem o conhecimento de Paulo. Preferiu o confronto a alijar-se do compromisso. Deve ter lamentado, contudo, a impulsividade, pois sabia que o amigo era educador e certamente teria interesse na sucessão da universidade federal do seu estado.

Há quem o considere exagerado nas opiniões e em algumas estórias. Esses se esquecem de dois pormenores. Primeiro, ele é integrante de uma geração de hiperbólicos, dos quais faziam parte, entre outros, o meu amigo Vivi, Veríssimo de Melo, o inesquecível e reverenciado mestre Alvamar Furtado, e o impagável Luiz Tavares, entre outros. Lembro-me de que convidado a relatar certo assunto no Conselho Estadual de Cultura nos anos oitenta, em plena reunião fui alertado pelo extraordinário conselheiro Alvamar a não me alongar muito para que não saíssemos no escuro, enfrentando “a tempestade que se abatia sobre a cidade”. De fato, tratava-se de uma garoazinha recém-iniciada e sem fôlego para prosseguir além de alguns minutos…

Era um estilo, um modo especial de dizer-se, de criar redundâncias imperativas, de bordar adjetivos em torno de composições tão pobremente triviais. Eu sempre me deixei fascinar por esse modo de relatar os fatos, e nunca o considerei aberração, ao contrário era um apoio estilístico, como já afirmei, para enriquecer os relatos sem importância, ou realçar aqueles que pudessem ser julgados desimportantes, sem o serem, na perspectiva do narrador.

Depois, há que considerar, como referi ao tratar do meu amigo Franklin Jorge, nesta mesma série, que Paulo é um personagem. Teve de se inventar para dar certo. E para dar certo precisou construir-se segundo as circunstâncias.

Quem sonhou como ele, teria de se construir de sonhos também, para mimetizar-se às suas quimeras e delírios. E a estratégia deu certo. Paulo deu certo. Ninguém ostenta tantas honrarias nem foi tão distinguido quanto ele. É o decano dos colunistas do Rio Grande do Norte e, com presumidos oitenta anos, mantém-se na invejável posição de formador de opinião com o programa “Sala VIP”, na televisão Ponta Negra, do sistema SBT, de satisfatória audiência, uma coluna na Revista Foco e duas páginas no vespertino “Jornal da Tarde”, onde escreve sobre  automobilismo, uma velha paixão. E ninguém é tão reconhecidamente querido.

Os que banalizam ou injuriam as suas conquistas, o fazem por inveja ou incompetência. Sim, porque há gente que não é capaz de construir coisa nenhuma, ou de ascender a qualquer altitude, ficando no rés do chão. E, como não ousam ou não têm recursos para estimular o seu próprio crescimento, procuram trazer os vencedores para o seu nível. Ora, Paulo não alcançou o sucesso gratuitamente, mas fê-lo por merecer.

Se o mereceu em contrapartida pelos serviços prestados pela sua coluna, como entendem alguns desses detratores, nada mais meritório, pois foi homenageado por alguns que se sentiram gratificados. Embora os galardões que conquistou lhes foram concedidos pelo seu próprio mérito humano e intelectual.

Quanto à fascinante lenda que paira sobre a sua origem e chegada a Natal, prefiro deixar aos cuidados do imaginoso Pedro das Malasartes.

Paulo não veio. Surgiu. E com uma emergência tão determinada, e com tanta força, e com tanta vivacidade, que nem fosse um corisco, um relâmpago, um raio. Por isso que prefiro soltar a imaginação que nem uma pipa nas mãos de uma criança a quem se sovina brinquedo, e pensar que ele bem pode ter vindo das bandas da Síria ou do Líbano, numa daquelas embarcações fenícias. E que, para dar uma pitada de credibilidade à lenda, teria aportado na praia de Canoa Quebrada, em terras do Ceará, a sua Cabrália.

E que depois de algum tempo veio caranguejando pelo litoral até as brancas areias condominiais porque comuns ao nosso estado e à terra de Alencar. Prosseguiu até a Redinha  e lá, não resistiu ao apelo da cidade, de longe quase-ilha, embrumada pelo vapor do Potengi rescaldado, escorrendo das dunas, espalhando-se trepadeira pela Junqueira Aires, beijada pela água salgada dos mares de mil-avôs ao longo da generosa orla onde Clara Camarão deve ter amado Felipe.

De resto, a prosa Cascudiana recontou e o seduziu: o romance do rio-mar na boca da barra, o patriciado dos cajueiros, o soldo capitâneo dos Jerimuns , os xarias, os canguleiros, o ABC, o América…

Resisitir,  quem há de?

Ficou.

Até hoje.

Noivo da cidade noiva do sol. Alianças trocadas por algemas de touceiras de jasmim do jasmineiro de Auta de Souza. Incerto mas feliz entre seguir a luz do farol de Mãe Luiza ou o misterioso e sombrio caminho do Castelo de Keulen.

De fato, prende-o um amor insano, selvagem, tropical, possessivo. Que, todavia, se alimenta do cotidiano ensolarado, da cálida brisa oceânica e das cruvianas madrugadeiras da terra de Navarro.

Ficou. Ficus.

 

PEDRO SIMÕES – Professsor de Direito (aposentado). Escritor e Advogado

993333