Por Sônia Van Dijck

Pois é. Caçadas de Pedrinho é livro agora proibido para a criançada. A censura é da iniciativa do Conselho Nacional de Educação.

E pensar que eu e muitos milhões de brasileiros devemos a Monteiro Lobato o início de nossa formação literária e cultural…

Quem será a próxima vítima da sanha dos censores????? Fico torcendo para que aquela Irene boa, de Bandeira, ou aquela Fulô, de Jorge de Lima, ou a politicamente incorreta Maria Perigosa, de Luís Jardim não sejam surrupiadas dos pequenos e jovens leitores. A avalanche politicamente correta poderá sepultar A Negra, de Tarsila do Amaral, e negar às futuras gerações o prazer de acompanhar a “viagem grandota” de Macunaíma, de Mário de Andrade. O menino Carlinhos, de José Lins do Rego, corre o risco de não ser mais companheiro de infância da garotada. Esses são só alguns exemplos de perdas culturais que poderão ser irreparáveis para os futuros adultos.

Os ilustres sábios brasileiros desconhecem a diferença entre realidade e obra de arte, e ignoram a contribuição riquíssima de nossa literatura, incluindo a obra completa de Monteiro Lobato, para o conhecimento crítico de nossa história e de nossos mais marcantes traços culturais. Será tristemente engraçado se o egrégio Conselho Nacional de Educação decidir distribuir a Carta de Pero Vaz de Caminha com uma tarja preta cobrindo “as vergonhas tão altas e tão saradinhas”. O Conselho Nacional de Educação conseguiu agredir, com sua pretensa pureza ideológica falsamente politicamente correta, não só a criação de Monteiro Lobato, mas a inteligência dos brasileiros; além de, por força de sua prepotência moralista, empobrecer a formação cultural dos pequenos brasileiros.

A Literatura Brasileira é um sistema que se construiu e se constrói dinamicamente, em estreita relação com outras artes e com outras culturas. Censurar um dos elementos desse sistema é ferir mortalmente a história da cultura brasileira. O grave é que a censura, quando toma gosto, sai por aí marcando, matando, sepultando marcos culturais, sempre de acordo com seu gosto ensandecido pela pobreza cultural e pelo mascaramento da História.

Diante da brutal agressão à obra de Monteiro Lobato, não sei qual a resposta que darão a Academia Paulista de Letras e a Academia Brasileira de Letras. Mas, é bom que encontrem logo uma resposta diante de tamanho descalabro, porque, seguindo-se esse nefasto caminho, Machado de Assis poderá ter amputado “Uns braços” ou os adolescentes não saberão mais o que é a “Missa do Galo”. Depois, é só acender a fogueira para os Capitães da areia, de Jorge Amado, e voltar aos tempos do Estado Novo, que amava ver em cinzas a literatura nacional.

De minha parte, como professora de Literatura brasileira, estou fazendo minha parte, protestando diante da grosseria cultural do Conselho Nacional de Educação. Peço aos amigos amantes da cultura brasileira que divulguem amplamente meu protesto, até mesmo publicando em blogs ou outros veículos, conforme lhes pareça adequado.

Sônia van Dijck

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A jequice da Era da Mediocridade não deixou escapar nem o criador do Jeca Tatu

Por Augusto Nunes

O Brasil conseguiu ficar mais jeca, resumiu o título do post publicado em setembro de 2009 e reproduzido na seção Vale Reprise. Depois de descrever a inverossímil quermesse patriótica montada para celebrar a fantasia do pré-sal, que chegou ao climax com a Proclamação da Segunda Independência pelo presidente Lula, o texto reitera nas três últimas linhas que os brasileiros ainda providos de lucidez continuavam a enxergar as coisas como as coisas são: “Sem parentesco com o país que o governo inventou, o Brasil real não mudou. Só conseguiu tornar-se ainda mais metido a esperto, mais grosseiro, mais caipira, mais jeca. Toda nação acaba ficando parecida com quem a governa”.

Ficou mais parecida ainda nesta semana, informa o parecer do Conselho Nacional de Educação publicado no Diário Oficial da União de quinta-feira. Segundo a entidade, o livro “Caçadas de Pedrinho”, do escritor Monteiro Lobato, é perigoso demais para cair nas mãos dos alunos de escolas públicas. Em que pecado teria incorrido o pai de personagens ─ Emília, Narizinho, Dona Benta, Visconde de Sabugosa, Tia Nastácia, o próprio Pedrinho ─ eternizados no imaginário de milhões de crianças brasileiras? Que crime teria cometido o admirável contador de histórias que inoculou em incontáveis gerações o amor à leitura?

Monteiro Lobato é racista, acaba de descobrir Nilma Lino Gomes, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, que redigiu o documento endossado pelos demais conselheiros. No livro publicado em 1933, ela identificou vários trechos grávidos de preconceito, sobretudo os que envolvem Tia Nastácia, macacos e urubus. “Estes fazem menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano”, explica a vigilante conselheira. Num deles, “Tia Nastácia é chamada de negra”. Noutro, trepa numa árvore “com a agilidade de um macaco”. Solidária com os conselheiros, a Secretaria de Alfabetização e Diversidade do MEC já resolveu que “a obra só deve ser usada quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”.

Quem não compreende coisa nenhuma é o bando de ineptos alojado nas siglas que vão colocando em frangalhos o sistema de ensino. Quem precisa tratar processos históricos com menos ligeireza são os cretinos fundamentais que ousam censurar a obra de um escritor genial. Só burocratas idiotizados pelo politicamente correto tentam aprisionar em gavetas nos porões criaturas que excitaram a imaginação de milhões de pequenos brasileiros.

Ironicamente, um dos filhos literários de Monteiro Lobato é o Jeca Tatu. Nasceu para ensinar que o Brasil só conheceria a civilização se erradicasse o atraso crônico, as doenças da miséria, o primitivismo cultural ─ a jequice, enfim. No Brasil do presidente que não lê, não sabe escrever e celebra a ignorância, o caipira minado pelo amarelão, que fala errado e se imagina esperto, virou modelo a imitar. Ser jeca está na moda, rende votos, aumenta a popularidade. Pode até garantir o emprego de conselheiro nacional de educação.