Por J.M. Ibáñez Langlois

Seria difícil encontrar, entre vivos e mortos, um poeta mais presente  em nossos dias que Rainer Maria Rilke.  Desaparecido já há meio século, comtemporâneo  de Wilde , de Maeterlink e D’ Annunzio, era mesmo para seu próprio tempo anacrônico ( muito mais próximo ao velho romantismo alemão que ao nascente surrealismo), não deixando, entretanto,de se manter, ante olhos do século, atualíssimo e puro até os dias de hoje.

Os ismo têm passado ao largo do livro de horas e das elegias; têm-se feito e desfeito os gostos e as modas literárias, e a lírica intemporal de sua obra, essa poesia essencial da condição humana, ergue-se inalterada no mais cambiante dos tempos.

E parece que ele tenha possuído o segredo antecipado destas mudanças. O homem, “exposto sobre os cumes do coração”, o homem, “indefeso e lançado e rumo ao aberto”, o homem, habitante da “total, da pura periculosidade do mundo”:  eis aqui a única, a contínua e angustiante celebração de sua poesia. Rilke é leitura da qual não se pode esquivar quem queira compreender o destino deste tempo; como de Kafka,seu comtemporâneo e conterrâneo, pode-se dizer dele que poucos têm intuído ou refletido com tal lucidez nossa condição presente. Um filósofo tão atual como Heidegger dirá que sua filosofia não e senão o desdobramento lógico de tudo que Rilke expressou em forma de poema, e todo o existencialismo comtemporâneo se inspira, de maneira análoga, na beleza essencial de suas obras da maturidade.Sob este ângulo não é mera casualidade sua profunda afinidade com Kierkegaard,a quem leio com paixão.

Não obstante, a atualidade de Rilke é propriamente poética, não filosófica. Nada mais distante que ele do pensamento discursivo.Seus poemas não são a expressão de um conteúdo captado com anterioridade, como, até certo ponto, é a casa de Schiller,ou , em nosso dias o de Elliot: em boa medida casos de impotência intuitiva. Para Rilke trata-se sempre da configuração poética do próprio pensa rConhecemos poucos artista cujo “Desejo pela poesia” haja moldado tão profudamente seu caráter e existência pessoal. Por esquecer a qualidade configurativa  de sua intuição, quantas coisas se têm dito sobre a “metafísica” de Rilke! Os críticos alemães encontraram a categoria justa: Geadankenlyrik, uma “lírica do pensamento”, é a lírica do artista, para quem pensar e poetizar eram energias ainda não cindidas, um só movimento do intelecto e do coração.

Do agrado de filósofos-  Marcel e Guardini, entre outros, dedicaram páginas esplêndidas à  sua poesia- é ao mesmo tempo uma voz que todo poeta de hoje reconhecer em sua própria voz e não poucos lhe conferem esse atributo estimulante de incitar o escrever, essa ressonância inconclusa dos artistas que, inspirados, inspiram: ninguém mais solicitado que Rilke para os epígrafes de novos poemas . Do agrado dos adolescentes-  que terríveis, que inesquecíveis as Elegias de Duino aos quinze anos!-, sua obra resiste, inesgotável, a qualquer número de leituras, ao passar do tempo.  Abolido teoricamente pelas novas poéticas, superado pelo surrealismo, pela poesia pura, pela poesia social, seu canto se eleva intangível e ainda enriquecido pelos novos contrastes. Quantas  vezes mais deverá ser superado para terminar de ser compreendido? Seus verdadeiros conhecedores, quando se encontram e se investigam, entabulam entre si uma comunicação como de iniciados, mais que cultural, quase religiosa.

No idioma espanhol não têm faltado versões de sua obra poética nem de sua prosa, porém tão insuficites, tão melhoráveis- refiro-me aos poemas- que sempre se está a espera de tradução superior, e com tal expectativa iniciei esta nova antologia, feita em Espanha. Em Chile circula já desde1940 a  de pino Saavedra –Poesias- bilíngüe,que somente consegue seu intento à medida que este é modesto: “dar uma pálida idéia da poesia de Rilke” Contudo tenho apreciado mais esta antologia que outras em língua espanhola, piores. A Argentina de E.M.S. Danero- Obra Poética – é austera e desnecessariamente obscura.

(Como é possível que obras originalmente escritas com sofrimento criador, com pena exatidão, sejam logo traduzidas a nosso idioma, não direi incorreta ou nem sequer levianamente, porém  sem esse indispensável esforço por recriar a primeira visão? E se pensamos não no público, senão em nossos próprios críticos e poetas, que normalmente não dominam várias línguas e cujo  acesso a Pound , a Saint- John Prese, a Ungaretti é feito geralmente por tradução, o problema torna-se mais grave. Que fecundação proporcionará á nossa cultura poética, solitária e desraigada, esse versões  apenas boas para prosa? Traduzir poesia não é tarefa que as editoras possam encomendar a elementos de gabinete, nem sequer a estudiosos ou eruditos: só a verdadeiros poetas. A tradução de poesia estrangeira

Não tem sido para este um excelente exercício criador?)

Entre as que existem em  castelhano da poesia de Rilke conheço somente dois ensaios memoráveis. Um é a versão, feita na Argentina por Miguel Angel Etcheverrigaray, dos Sonetos a Orfeu, bela e muito elaborada. Porém a versão mais satisfatória, embora  breve,  é a do poeta espanhol José Maria Valverde, entitulada  Cinqüenta Poesia. Aí está uma verdadeira recriação do sentido poético a parti dos fundamentos da intuição original. Esta pequena obra é, que eu saiba, a melhor seleção de Rilke em castelhano.

A de Hurtado Giol, que me sugere este comentário – Antologia poética de Rainer Maria Rilke, Edições Zeus-, é mais extensa: compreende cerca de cento e cinqüenta poemas e pode-se então permitir o privilégio de recorrer do começo ao fim à obra poética de Rilke. Após um prólogo algo que convencional e nem sempre exato em suas apreciações, segue a tradução, feita com suficiente seriedade para que o prazer proporcionado por RILKE seja maior que o desgosto provocado pela mão alheia e mediadora: já é o bastante. Porém, não com tanto esmero a criação para que possamos mergulhar sem mais na obra original. Às vezes lamenta-se a  ausência de aspectos essenciais, relembrados de outras leituras. Onde esperava-se com avidez tal ou qual passagem, a deslumbrante precisão, o verso célebre, a imagem privilegiada, encontra-se algumas vezes equivalências menores, rodeios inúteis, uma sintaxe que deixa escapar a intuição original, um sinônimo que destrói todo o efeito.  “De novo ruge, mais forte, minhas profunda vida, / como rolando em um leito ampliado”, traduz com rudeza esta versão, ali onde nosso pino saavedra mostra-se mais perspicaz: “E de novo murmura /mais alto minha profunda vida/ como se agora fosse por entre amplas margens”.

Tão frágil e exato é o poema que bastam que uns poucos desacertos desse gênero para prejudicar a leitura.E irritante, por exemplo, chegar a uma célebre passagem da primeira “ Elegia” e ler:  “Resta-nos a rua de ontem/ e o afeto alfeninado a algum costume/ que se aprasia em nós e se quedou.” Alfeninado(!): isso basta para destruir a passagem. A palavra rebuscada é um  dos desacertos desta versão;   outro é o escasso sentido de ritmo que muitos destes poemas reivindicam como sua atmosfera própria.

Porem gostaria de não exagerar na crítica a um livro que, em geral, cumpre uma função positiva. Além  disso são muitos seus acertos e extensas as passagens  que possibilitam uma leitura agradável. Sua maior  virtude é a desenvoltura da linguagem, a fluidez do  castelhano, ao qual se traduziu o poema original, qualidade que não se encontra nas outras antologias, exceto a  Valverde. A obras nos permite, em seu conjunto, apreciar uma parte considerável do esplendor da obra rilkeana: a pureza das Primeiras Poesias e Cantos do Alvorecer, o sentimento vital e pleno do Livro de Imagens, a religiosidade ardente e exitosa do Livro de Horas, a impessoal “poesia da coisa dos Novos Poemas, a angustiosa intuição do homem nas Elegias de Duino, o clímax formal dos Sonetos a Orfeu, a celebração fugaz dos Poemas Franceses e a serenidade estranha, final das Ultimas Poesias.