O Quinze foi publicado em agosto de 1930. Não fez grande sucesso quando saiu em Fortaleza. Escreveram até um artigo falando que o livro era impresso em papel inferior e não dizia nada de novo.

Outro sujeito escreveu afirmando que o livro não era meu, mas do meu ilustre pai, Daniel de Queiroz. E isso tudo me deixava meio ressabiada. Morava então no Ceará o jornalista carioca Renato Viana, que me deu os endereços das pessoas no Rio de janeiro, uma lista de jornalistas e críticos para os quais eu devia mandar o livrinho. O  mestre Antônio Sales, que adorou o livro, também me deu outra lista .Então me chegou uma carta do meu amigo Hyder Corrêa Lima, que morava no Rio, convivia com Nazareth Prado e a roda de Graça Aranha. Hyder mostrava na carta o maior alvoroço e contava o entusiasmo de Graça Araha por O Quinze. Depois veio uma carta autografada do próprio Graça, realmente muito entusiasmado. Em seguida começaram a chegar a críticas, de augusto Frederico Schmidt (no ”novidades Literárias”), do escritor Artur Mota, em São Paulo; foram pipocando notas e artigos, tudo muito amimador. No Ceara, não. Não me lembro de nenhuma repercussão . Depois, quando a coisa virou, é que o livro começou a pagar por lá.

Uma história que eu nunca conto, passou-se logo depois da publicação de O QUIZE. U ma pessoa da nossa roda,escritor,poeta,até brilhate,mas que não era  bom caráter, quando o livro começou a fazer sucesso,escreveu aquele artiguinho de que já falei, dizendo que o romance era impresso em papel de jornal, um livrinho muito ordinário Depois, quando O Quinze começou a pegar e a escreverem a respeito, ele passou a espalhar, em notas assinadas com pseudônimo,que o livro não fora escrito por mim, mas, talvez, por papai ou pelo escritor Beni carvalho. Eu fiquei muito indignada – lembre-se de  que era muito moça e aquele era meu primeiro livro, meu primeiro êxito e eu estava muito alvoroçada. Então, uma vez  estávamos numa roda na praça do Ferreira, no Café Globo- acho que hoje já destruído,  defronte à Rosa dos Alpes ( era um dos escândalo que eu causava em Fortaleza, mocinha, frequentando o café dos literatos; mas, engraçado, numa uma moça se sentiu tão protegida, tão mimada, uma moças sozinha num meio que só de homens, alguns da  minha idade,outro mais velhos, mas em todos só encontrei carinho, sem nenhuma intenção que  não fosse puramente afetuosa, literária).  Mas voltando á  história do colega, não lhe digo o nome como contei, ele saiu espalhando aquela historia de que o autor do livro era papai ou Beni, escritor muito conhecido e respeitado.

Nesse dia, no Café, o tal cara se aproximou de mim e disse ao me dar a mão: Desculpe as  minhas mãos  frias” . Eu então falei no ouvido dele: “ Não me velha com essa conversa de mão fria. Você escreveu aquelas notas e eu podia lhe bater, porque sou maior e sou mais forte ( ele era pequenininho e magrelinho). E não lhe bato porque não sou a Henriqueta Galeno, que bate em homem. Mas se dia eu pegar você num lugar, sozinho,lhe dou uma surra” Ele ficou muito pálido e afastou-se.

Passaram-se alguns meses. Então, um coronel do interior -  que eu pintei em João miguel- tinha matado um irmão dele, do tal das notas ferinas. Coisa de briga política: o coronel assassinara o

o moço, promotor no interior. E veio preso para fortaleza; isso se dera exatamente quando eu estava

joão Miguel. Nesse tempo, era moda  a gente ‘colher material’ na fonte. Assim , eu frequentava a cadeia pública para ver o ambiente da cadeia, para ‘estudar o meu material ‘.

Um dia, às duas horas da tarde, vinha eu saindo da cadeia ( nesse tempo, na calçada lateral que  dava para o lado do mar, não havia casa  nenhuma, nenhuma construção. Era um  despenhadeiro de areia que ia até a praia: só havia ali a calçada, relativamente estreita, que circundavam o prédio da cadeia). Naquela hora da tarde fazia um sol terrível ( usava-se sombrinha, então) e eu trazia uma sombrinha de sede estampada para enfrentar o sol. Saí da cadeia por uma  lateral, abril a sozinha e ai sozinha pela calçada deserta, a fim de pegar condução lá perto do passeio público; e eis que avistei, vindo do lado da Santa Casa, o tal cara – que andava sempre na cadeia perseguindo o coronel, assassino do seu irmão, vendo se o preso não estaria obtendo concessões etc. Vestia ele um terninho branco, e caminhavam na minha direção. Quando nos  íamos cruzando, na calçada estreita, quase colidimos. Ele parou, assim de repente, não sei se tinham percebido que era eu quem estavam ali. Sei que fechei a sombrinha, segurei o cara pela gola do paletó, e bati nele nos ombros, na cabeça,até quebrar a sombrinha. O coitado se defendeu com os braços, mas não tentou revidar . Depois o larguei,joguei fora a sombrinha quebrada, nos separamos e nunca dissemos a ninguém uma palavra sobre isso. Anos mais tarde ele morreu e esse segredo foi guardado até hoje. Contei o caso em família, a alguns amigos  íntimos, mas esta é a primeira vez em que torno púbico. Para ,de certa forma, me penitenciar.