Francisco Alves da Costa Sobrinho

Considerando uma série de fenômenos referentes ao uso da mídia, identificados como resultantes de interferências e manipulações capazes de provocar e estabelecer reações e controles de públicos diversos, o professor, escritor, filósofo e lingüista, norte-americano Naom Chomsky (*) elaborou a lista das “Estratégias da Manipulação” através da mídia. São dez as estratégias de manipulação midiática, social e econômica, a saber:

A ESTRATÉGICA DA DISTRAÇÃO

Tratada e adotada como elemento primordial de controle social, a estratégia da manipulação consiste em desviar a atenção do publico de problemas importantes para questões decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio e inundações de continuas distrações e de informações sem importância.

A estratégia da manipulação é igualmente indispensável para impedir ao publico interessar-se por conhecimentos essenciais na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurologia, da cibernética e tantas outras.  Seu objetivo primordial é manter a atenção do publico distraída dos verdadeiros problemas sociais, cultivada por temas sem importância real.  “Manter o publico ocupado, ocupado, ocupado (vide os ‘realyt shows’, as novelas…), sem tempo para pensar” (“Armas silenciosas para guerras tranqüilas”, Naom Chomsky. O grifo é nosso).

CRIAR PROBLEMAS E DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES

Este método é também chamado “Problema – Reação – Soluções”.   Consiste em se criar um problema, onde uma ‘situação’ é prevista para causar certa reação do publico, a fim de que este seja o demandante das medidas que se deseja acertar / adotar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja demandante de leis de segurança e políticas até em prejuízo da sua própria liberdade, ou, também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um ‘mal necessário’ o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

ESTRATÉGIA DA GRADUALIDADE

Parte da premissa da inaceitação, em que para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la, gradualmente, mesmo a contragosto, por anos consecutivos. Foi dessa maneira que condições socioeconômicas radicais foram impostas pelo neoliberalismo durante as décadas de 1980 e 1990, resultando em uma política de estado mínimo (redutora do papel do estado), privatizações, precariedade, flexibilidade laboral, desemprego em massa, salários não condizentes.

Em suma, é verdade que tantas mudanças teriam provocado uma revolução se houvessem sido aplicadas de uma só vez e não da forma gradual como foram feitas.

A ESTRATÉGIA DE DIFERIR

Outra maneira de fazer aceitar uma decisão ou medida impopular é apresentá-la como ‘dolorosa, mas necessária’, obtendo o assentimento, a aceitação do publico.

Primeiro, porque o esforço não é nem será empregado imediatamente; segundo, porque o publico, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã”, se Deus quiser. E que o sacrifício exigido poderá ser evitado.

Isto dá mais tempo ao cidadão ou cidadã para acostumar-se com a ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegar o momento.

DIRIGIR-SE AO PUBLICO COMO CRIATURAS DE POUCA IDADE

A maioria da publicidade dirigida ao grande publico utiliza discurso, argumentos, pensamentos e entonações particularmente infantis,  muitas vezes próximas à debilidade, como se o expectador fosse uma criatura de pouca idade, um adulto de terceira categoria ou um deficiente mental.

Quanto mais se intente enganar um expectador, mais se tende a adotar um tom infantil. Por quê? Ao dirigir-se a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa possibilidade, a uma resposta ou reação mais infantil e desprovida do sentido critico de um adulto.

UTILIZAÇÃO DO APELO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE DA REFLEXÃO

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar uma espécie de curto circuito na análise racional e finalmente neutralizar o sentido crítico dos indivíduos e da coletividade.

Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar idéias, desejos, medos e temores, até compulsões, ou a induzir determinados comportamentos.

MANTER O POVO NA IGNORANCIA E NA MEDIOCRIDADE

Fazer com que o publico seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e escravidão.

“A qualidade da educação para as classes sociais inferiores deve ser mais pobre e o mais medíocre possível, de forma a acentuar a deficiência entre elas e as ditas classes altas, de tal modo que permaneçam inalteradas no tempo e seja impossível alcançar uma autentica igualdade de oportunidades para todos” (Naom Chomsky).

ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE COM A MEDIOCRIDADE

Promover ações e atos que levem o publico a crer que é moda o direito de ser inculto e vulgar, mal fadado, admirar-se de artistas e outras gentes sem talento algum, a depreciar o fazer intelectual, a exagerar o valor do culto ao corpo e a depreciar as manifestações do espírito, da cultura e da arte…

RECOMPOR A CULPABILIDADE

Fazer o individuo crer que somente ele é o culpado por sua própria desgraça, pela sua situação de miserabilidade, por causa da insuficiência de sua inteligência, as limitações de suas capacidades e dos seus minguados esforços.

Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico e social, o individuo se autoavalia, se autoculpa, gerando para si um valor depreciativo e um consequente estado depressivo, manifestando como um dos efeitos à inibição de suas ações. E sem ação não há reação, sem reação não há revolução, não há mudança!

CONHECER OS INDIVIDUOS MELHOR DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM

No percurso dos últimos cinquenta anos, os avanços acelerados da ciência tem gerado uma crescente ‘brecha’ entre os conhecimentos do publico e os conhecimentos possuídos e utilizados pelas elites dominantes.

Graças à biologia, a neurobiologia e a psicologia aplicada, o ‘sistema’ tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente, utilizando tais conhecimentos em função dos controles sociais e da dominação dos indivíduos.

O ‘sistema’ tem conseguido conhecer e explorar melhor o individuo do que ele se conhece a si mesmo. Isto significa dizer que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle cada vez maior e dispõe de um grande poder sobre os indivíduos, maior do que os indivíduos sobre si mesmos.

Desta forma, na opinião do escritor Naom Chomsky, ao utilizarem-se destas estratégias de manipulação midiática as grandes corporações e governos são capazes de promover tais interferências, manuseando técnicas através de veículos formadores de opinião, encetando acomodações nos campos econômico, sociocultural e político, capazes de provocar reações previsíveis e estabelecer controles sociais de públicos diversos, favorecendo atitudes passsivas do publico manipulado, reforçando o poder político e a perpetuação das elites dirigentes.

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(*) Naom Chomsky é autor dos livros “A manipulação do publico, política e poder”; “O que o Tio Sam realmente quer” e “Análise dos meios de comunicação de massa”, dentre tantos outros títulos.