* * Michael Doré tem 28 anos e nunca beijou. Nem pretende. Beijos, carinhos

e qualquer forma de contato íntimo lhe causam repulsa. “O sexo me enoja”,

diz. “Sou um assexual convicto.” É quase impossível imaginar que um cara

como ele, charmoso, bem-sucedido — é um matemático norueguês e PhD da

Universidade de Birmingham, na Inglaterra —, sequer pense em transar. Ainda

mais nos dias de hoje, em que sexo e orgasmo são quase uma obrigação. E,

antes que você se pergunte o que há de errado com Michael, ele mesmo

responde: “Não, não sou gay, não fui abusado na infância, nem tenho

problemas hormonais. Eu simplesmente não gosto de transar”.

Assim como ele, a pedagoga mineira Rosângela Pereira dos Santos, o bancário

americano Keith Walker e uma legião de assexuados dos mais diferentes cantos

do planeta começam a sair do armário. São homens e mulheres de todas as

idades, perfeitamente capazes de fazer sexo, mas sem nenhum apreço pela

coisa. Gente que, graças ao apoio da Aven (Asexual Visibility and Education

Network), rede que luta pela visibilidade dos assexuados no mundo, conseguiu

se unir para levantar a bandeira da abstinência e lutar para que a

assexualidade seja reconhecida como uma quarta orientação sexual (além de

héteros, homos e bissexuais).

*7% das mulheres e 2,5% dos homens*

*garantem viver perfeitamente sem sexo,*

*segundo dados da Organização Mundial*

*de Saúde*

“Por assexual entende-se apenas aquele que não sente atração sexual, não o

que não é capaz de se envolver”, explica a socióloga Elisabete Oliveira, que

fez do assunto tema de seu doutorado na Faculdade de Educação da

Universidade de São Paulo. “Existem os assexuais românticos e os não

românticos. O primeiro grupo consegue se apaixonar, casar e até ter filhos —

desde que não haja sexo envolvido. O segundo não gosta de carinhos e não se

sente apto a se apaixonar.” A libido é uma energia vital que pode ser

canalizada para o trabalho.

Esses dois grupos também podem ser classificados como libidinosos ou não.

“Ser assexual não significa, necessariamente, não ficar excitado”, afirma o

bancário americano Keith Walker, 37 anos. “Muitos de nós se masturbam, mas

não estabelecem relação entre isso e o sexo. É apenas uma maneira de relaxar

e aliviar o stress”, diz. Segundo a psicóloga paulista Tânia Mauadie

Santana, hoje é comum que a energia que antes era sexual seja canalizada

para outras áreas da vida. “A libido é uma energia vital, o que não

necessariamente se manifesta só nos órgãos sexuais. O desejo pode ser

direcionado para o trabalho, a comida e as atividades físicas”, diz.

*No Brasil, 9% das mulheres não acham o sexo importante para o casamento.*

Com as recentes investidas no chamado Viagra feminino — comprimido à base de

flibanserina que promete devolver a libido à mulher que a perdeu e

apresentá-la a que nunca teve —, a comunidade médica tem falado muito em

“desejo sexual hipoativo”. O termo, catalogado há mais de 30 anos pela

Organização Mundial da Saúde como uma “disfunção sexual”, tem conotação

pejorativa para assexuados, que, com razão, não querem ser vistos como

doentes. “Quem pratica sexo costuma ter humor melhor, pois o ato libera

hormônios de ação antidepressiva. Mas a falta dele não chega a ser um

problema de saúde. Ninguém vai morrer por isso”, afirma Tânia Santana.

Segundo o psiquiatra Alexandre Saadeh, a assexualidade só requer tratamento

quando gera sofrimento. “Se a falta de desejo ou o excesso dele impedir

alguém de ser feliz, aí, sim, deve-se falar em tratamento. Caso contrário,

não há por quê”, afirma o médico.

*Freud tentou explicar.*

Desde Sigmund Freud (1856-1939) a ciência tenta explicar as conexões entre a

sexualidade e o bem-estar físico e mental. Quando o pai da psicanálise

escreveu seu ensaio sobre ansiedade e neurose, em 1895, dando uma ênfase até

então inédita à sexualidade, choveram críticas. Freud achou melhor

rebatê-las em um outro artigo, no qual foi ainda mais enfático no que tange

a sexualidade.

Freud escreveu: “Muitas doenças mentais e as fobias, em especial, não

ocorrem quando a pessoa leva uma vida sexual normal”. Sobre a pedra

fundamental das análises de Freud ergueu-se um monumental edifício de

estudos da sexualidade e de seu impacto sobre outras dimensões vitais do ser

humano.

Agora os médicos investigam como as carências sexuais podem produzir doenças

físicas e psicológicas e, por outro lado, como determinadas doenças afetam o

desempenho e a satisfação sexual. O que se sabe é que as depressões, os

problemas cardíacos e circulatórios e o diabetes são doenças com impacto

direto sobre a sexualidade. (ACB)

[image: img.jpg]

*O tema ainda desperta pouco interesse em pesquisadores*

O assexualismo é bem diferente do celibato, que implica decisão consciente

de sufocar os desejos sexuais. Um dos poucos estudos publicados sobre

assexualismo – definido como falta duradoura de atração sexual por homens ou

mulheres –, os pesquisadores constaram que 1,1% dos adultos podem ser

assexuados. O número foi extraído de uma pesquisa com 18 mil britânicos

entrevistados sobre doenças sexualmente transmissíveis. Os dados foram

analisados posteriormente por Anthony Bogaert, psicólogo da Universidade

Brock, em St. Catharines, Canadá, que publicou suas conclusões no “The

Journal of Sex Research”.

Bogaert concluiu ainda que 44% das pessoas que não expressavam interesse em

sexo estavam casadas ou viviam com parceiros, ou já haviam passado por esse

tipo de relacionamento no passado.

Contudo, dados da Organização Mundial da Saúde apontam um número bem

superior. Cerca de 7% das mulheres e 2,5% dos homens garantem viver bem sem

qualquer atividade sexual.

*Pesquisa*

http://www.msja.com.br/noticias/os-assexuados-conheca-a-tribo-que-defende-o-direito-de-nao-transar

http://www.otempo.com.br/jornalpampulha/noticias/?IdEdicao=150&IdCanal=20&IdSubCanal=&IdNoticia=4545&IdTipoNoticia=1

http://lanhousedopurgatorio.wordpress.com/2008/09/17/os-20-mandamentos-assexuados/

Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é

A dor que já não me dói

A antiga e errônea fé

O ontem que a dor deixou

O que deixou alegria

Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa