Públio José – jornalista

(publiojose@gmail.com)

Quando se fala em Genética, somos levados a ligá-la somente à Biologia. Em tudo, enfim, manifesto no reino animal relacionado à transmissão de caracteres. Haverá, então, outro campo, fora de seu raio de ação, onde a Genética possa ser encontrada? Veremos. Segundo o dicionário, “Genética é o ramo da Biologia que estudo as leis da transmissão dos caracteres hereditários nos indivíduos, e as propriedades das partículas que asseguram essa transmissão”. É, portanto, bastante conhecido o fato de que a Genética tem desvendado grandes mistérios e importantes segredos que envolvem a hereditariedade no ser humano, revelando aspectos ligados às nossas origens e o porquê de sermos como somos. Ela tem explicado, por exemplo, porque os traços característicos dos pais são repassados aos filhos, fazendo da hereditariedade uma das áreas mais fascinantes de seu vasto campo de atuação.

É bem verdade que em certos momentos da História a Genética foi usada também para desígnios e propósitos descabidos, até criminosos, como os planejados e executados por Hitler, tentando consolidar, diante de outras nações, a superioridade genética da raça ariana. Fatos, porém, de relevada importância histórica – como a acachapante derrota de atletas alemães por atletas negros nas Olimpíadas de 1936 – demonstraram que, no que diz respeito ao mundo dos homens, o fenômeno genético é bem mais complexo. Outra área de avanço notável da Genética é a Zootecnia, ramo da Biologia que estuda a criação e o aperfeiçoamento dos animais domésticos, hoje de importância capital na preservação de várias espécies, diante da descuidada ação humana, cujo resultado poderá nos levar a uma terrível – e cada vez mais provável – extinção de tudo que se move sobre a face da Terra. Inclusive ao próprio homem.

Ah, o homem! Enquanto descobre, através da Genética, fatos maravilhosos ligados ao seu passado, usa de um progressismo exagerado, tendente a aniquilá-lo bem ali – no futuro! São elásticas e variadas, como se vê, as aplicações da Genética no que diz respeito ao homem e seu mundo. Mas será que tão somente no terreno físico? Ou será que ela se faz presente também no nosso psiquismo, no lado impalpável do nosso ser, ditando hábitos e comportamentos nem sempre explicáveis? Pois como explicar, por exemplo, o impulso literário praticado às vezes em condições de inóspita intelectualidade? Historicamente, está provado que o homem não vive sem literatura, entendendo-se como tal o registro escrito de conhecimentos adquiridos. Inscrições rupestres, de tempos imemoriais, comprovam tal fato. Em razão disso, já podermos inferir a existência de um “instinto literário” a constar em nossa genética?

Por outro lado, se fomos criados por um Deus literato, conforme comprovam os textos bíblicos, é bastante natural concluir que a literatura também está entranhada em nossa Genética, pois de Deus viria a nossa hereditariedade literária, fazendo soar verdadeira a máxima que diz ser a literatura o alimento da alma. Assim, como, de fato, a Genética nos conduz, entre outras manifestações, à prática literária, convém afirmar que existe, então, uma Genética da Literatura. E, como aos governos é dado o condão de prover o estudo, a pesquisa, o desenvolvimento, enfim, do conhecimento genético, também cabe a ele, igualmente, um posicionamento no sentido de fazer acontecer um contínuo movimento de expansão do conhecimento literário, provendo, para tanto, as necessárias condições ao surgimento de novos talentos, bem como criando acessos naturais, desburocratizados e de baixo custo à literatura.

Pois, do mesmo modo que se faz necessária ao homem a atenção governamental relacionada à saúde, educação, segurança e a inúmeras outras demandas da natureza humana – todas advindas da nossa carga genética – porque não agregar às obrigações governamentais as aspirações literárias e os desejos do consumo literário latentes no homem? Este, enfim, é o objetivo da campanha de valorização da literatura potiguar, que vem, inclusive, dar continuidade ao querer de ilustres literatos nossos, alguns já falecidos: fazer do livro elemento necessário ao bem estar físico, psíquico e espiritual, da mesma forma que o corpo precisa de pão, carne e leite para prosseguir no espetáculo da vida. E, como é da nossa genética o hábito de consumir, de adquirir objetos, que nele se insira a aquisição rotineira do livro – o elemento físico a ligar o homem à literatura, para honra da herança literária de nossa genética.