4 de dezembro de 2010

Por Franklin Jorge

Elias Canetti dá-nos um sucinto e percuciente retrato de Francis Bacon, criador do ensaio inglês e, segundo alguns, o autor de toda a obra shakespeariana – o que o recomenda – seja ele ou não uma das identidades atribuídas a Shakespeare.

Já na primeira sentença, Canetti estabelece uma excepcionalidade, ao confessar que via Bacon cada vez como uma daquelas figuras raras e centrais das quais se pode aprender tudo o que é possível aprender com os homens.

Leitor exemplar, versado em inúmeros saberes, percebe em seu perfilado uma evidencia que em geral passa despercebida à maioria dos leitores – que veem apenas em Bacon o autor de uma prosa carregada de pensamentos, e não um homem que se interessa pelo poder em todas as suas formas. O que tem a ver certamente com o fato de Bacon acreditar no uso ativo do saber que resulta prático e fecundo. Interessava-lhe, como ao político, a ação e o experimento.

O argumento tem ainda a virtude de constituir uma secreta refutação dos partidários da idéia de que seria Shakespeare o pseudônimo de dois ou três grãos-senhores iluminados por brasões, entre os quais, evidentemente, o autor de Ensaios Ingleses, obra que difundiu o flos sanctorum do seu pensamento.

Ora, um escritor que, como Bacon, segundo a constatação de Canetti, apreciava tanto o poder, jamais abdicaria do seu próprio nome; um nome assim já velho e prestigioso, dourado pela fortuna de berço e pelo intelecto, tendo já se afirmado como intelectual, não recorreria ao uso de pseudônimos para firmar o melhor da sua obra. Uma obra que Coleridge viu como a realização de uma inteligência divina.

Canetti ainda vê um curioso paralelo entre Bacon e Aristóteles, aquele querendo sentar-se no trono deste, como “um amante sistemático do poder”. Bacon sabe como governar secretamente o mundo, resume Canetti, ressaltando que, enquanto legislador e filósofo, Bacon cultiva um fascínio especial pela perpetuação do homem através a criação de uma obra metafísica.