Públio José

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Saber das dificuldades de se praticar cultura por aqui – não é novidade; saber que governos preferem extrair da cultura seu lado festeiro – é púbico e notório; saber da penúria orçamentária vivida pelos órgãos estatais, que têm na cultura sua razão de existir – é coisa do arco da velha; saber do pouco lastro cultural que possuem nossos políticos – é notícia antiga; saber que, agindo para com a cultura com desprezo cavalar, os políticos são, por consequência, responsáveis pelo surgimento de levas sucessivas de gerações incultas, de pouquíssimo contato com elementos culturais, e hábitos de leitura semelhantes aos de nações de quinto mundo – tal fato até os postes reconhecem. Nomear as agruras que têm vitimado por aqui a cultura em geral, e a literatura em particular, tem sido inócuo, repetitivo e antiprodutivo. Pois todo mundo sabe, de cor e salteado, o enumerado no texto deste parágrafo – e muito mais.

Entretanto, chegando por aqui um marciano, e tomando conhecimento dos relatórios dos dirigentes públicos, vai ter inveja. E se encantará com o desempenho dos tais para com a cultura. Gastos estonteantes. Eventos

numerosos… A glória! Por quê? Ora, por que! Eles descobriram que cultura rende voto. Como? Promovendo e patrocinando eventos de caviloso e distorcido conteúdo cultural. Geralmente, festas em datas comemorativas, realizadas em praça pública, com dinheiro estatal, e notórias pela vantagem de reunir grande número de pessoas. Para tanto, basta contratar uma banda de forró – de preferência a mais brega, de visual mais chamativo e de letras que há muito ultrapassaram o terreno do duplo sentido. Essas atraem. São grupos musicais que agradam pelo descarado apelo aos maus hábitos, à quebra de valores, à incitação ao alcoolismo, à vagabundagem e à sensualidade irresponsável.

Com eles a festa vai bombar! Sucesso garantido! E, para todos os efeitos, de “profundo cunho cultural”. Tudo pago pelos Ministérios da Cultura, do Turismo, como se fossem de natureza folclórica, turística, cultural. Para o governante só vantagem: faz política sem botar um tostão do bolso; se exibe para um grande público presente; posa para uma comunidade inculta como um grande promotor da alegria e do entretenimento aos mais humildes; além de registrar, nas prestações de contas aos órgãos de praxe, tais eventos como “voltados ao desenvolvimento cultural da comunidade”. Essa é uma postura tão enraizada, principalmente no interior, que seus dirigentes não conseguem mais enxergar o que é cultura – e o que não é. Certa vez, sugeri a um prefeito criar em seu município um coral. Ele ficou olhando pra mim “abestado” (como diria Tiririca), “como se fosse um boi olhando prum prédio”.

O quê fazer diante de tal quadro? Propor o quê? Seria extraordinário se fosse possível arrancar do coração estatal essa postura torta, enviesada. Porém, como – se bem aceita pelo povo? Pensando em contribuir de alguma forma, propusemos uma campanha, aproveitando o período natalino, que induza as pessoas a presentear com livros, já que presentear é da tradição natalina. Contatos feitos com entidades públicas, privadas, imprensa – e a receptividade tem sido muito boa. A campanha, em sua essência, pretende valorizar o livro para efeito de presente. Lembrando: livro de escritor potiguar. É pouco? É muito? Pela repercussão que a campanha vem obtendo, comprova-se que avançamos. Instituições e pessoas comuns já externam a ela seu comprometimento. Comentários se generalizam. Algo novo surge. E tudo tão simples. É só ir à livraria e adquirir um livro. De escritor local! Dará certo? Giremos a roda.