Edo de Natal, 11.01.2011

Indiscutivelmente, sob a forma modesta de uma sucessão de perfis de um punhado de seus bons amigos e de suas boas amigas, Pedro Simões nos brindou com uma obra de mestre.

Acadêmico e escritor, entre as suas muitas qualificações, Pedro Simões se manifestou muito mais como o fino escritor que sempre será do que como o grande acadêmico que foi por cerca de trinta anos. Felizmente, pois está ausente de sua obra a relativa aridez imposta aos textos acadêmicos, assim como está ausente este distanciamento de seu objeto – é uma imposição metodológica – indispensável para se conseguir uma desejada imparcialidade diante do tema e dos personagens. Aliás, esta foi uma decisão conscientemente e deliberadamente tomada, como se pode concluir dos objetivos confessados pelo próprio Autor.

Em primeiro lugar, Pedro Simões decidiu aplicar na letra e na essência a afirmação de Luís da Câmara Cascudo de que “são muitos os que se ocupam em falar mal e poucos os que cuidam da intriga do bem”. A intriga do bem é, aliás, o belo e feliz título dado à sua obra! O escritor superando o acadêmico, ele mostra que a imparcialidade não é um de seus objetivos: ele admira seus amigos por sua “preciosa e rara essência espiritual” e reconhece que, como seres humanos, “são construções imperfeitas que lograram superar-se”, imperfeições que só a grande sensibilidade de uma câmera com grandes angulares e uma boa claridade conseguiria captar com nitidez. Esta metáfora fotográfica permitirá a Pedro Simões afirmar o seu objetivo, tentar “amostrar” –como ele diz – os seus amigos e suas amigas “a partir de seu perfil mais fotogênico”. Portanto, a contradição e, portanto, a imparcialidade, não é o seu objetivo, os perfis menos ou pouco fotogênicos sendo ocultados aos nossos olhos. Os seus amigos não são bons por serem seus amigos, diz ele, eles são seus amigos por serem bons e originais nas suas individualidades – é isto que Pedro Simões se empenha em mostrar a todos nós através os vinte e um personagens retratados.

Outra opção do Autor é menos explícita, mas ela demonstra da mesma maneira a sua posição diante da exigência acadêmica da imparcialidade. O acadêmico Pedro Simões certamente teria escolhido a biografia para apresentar os seus amigos e as suas amigas, respeitando as relativamente rígidas exigências acadêmicas com relação a este gênero de trabalho, mas o escritor Pedro Simões, logicamente, escolheu apresentá-los através de perfis que, como ele próprio acentuou, “servem (melhor) à intriga do bem”. Com efeito, desprovidos da rigidez imposta ao gênero biográfico, os perfis admitem uma liberdade de tom e de estilo muito mais próxima do gênero literário, permitindo ao Autor a manifestação plena de suas emoções diante da apresentação de personagens que admira, e autorizando as adjetivações, digressões e analogias não autorizadas aos textos acadêmicos. E o escritor Pedro Simões não se priva de fazer uma justa utilização de sua grande erudição, deixando sua fina pena percorrer a folha de papel com uma liberdade que o acadêmico jamais se permitiria. Muitas passagens do texto, às vezes todo o perfil de um ou outro de seus personagens declarados, são verdadeiras peças de antologia: por exemplo, o texto dedicado ao amigo Bartolomeu Correia de Melo, “De como Bartola, o anjo-trovador, foi mestre de obras de Nossa Senhora”.

Estes foram os motivos que levaram Pedro Simões a escrever uma obra de leitura muito agradável e, sobretudo, muito rica em seu conteúdo. Com efeito, ele alcançou plenamente o seu objetivo de apresentar-nos o “perfil fotogênico” de seus amigos e de suas amigas, permitindo-nos – principalmente a mim, potiguar de curta data – o conhecimento de um bom grupo de cidadãos e de cidadãs ilustres que, de uma ou de outra maneira, marcaram a sociedade potiguar. Estes foram os personagens visíveis, objeto declarado pelo próprio Autor.

À primeira vista, sob a forma modesta de uma sucessão de perfis de alguns de seus bons amigos, a obra de Pedro Simões, A Intriga do Bem, parece composta por vinte e um fragmentos independentes, correspondentes ao número de perfis elaborados. Parece não haver nenhum elemento que os una e lhes dê unidade, a não ser o fato de pertencerem a uma mesma obra de autoria de um mesmo autor. Entretanto, dois elementos cruzam transversalmente os fragmentos, dando-lhes esta unidade que parece estar ausente.

Não declarado, mas onipresente ao longo do longo texto, além dos vinte e um personagens perfilados, um vigésimo – segundo personagem se impõe aos leitores: num registro diferente, sem adjetivações, mais próximo da biografia do que do perfil, mas não sistematizado, aparece-nos o próprio autor Pedro Simões. Isto porque lembrar-nos dos nossos amigos é lembrar-nos de nós mesmos, pelo fato de termos compartilhado as nossas ações quando meninos e adolescentes, de nossas emoções quando estudantes e de nossas campanhas quando adultos. Mas Pedro Simões vai, às vezes, um pouco além das reminiscências de um passado compartilhado com os amigos, ele se deixa derivar ao sabor de suas recordações que, de associação em associação, o afastam um pouco das margens pré-estabelecidas.

E, no seu trabalho de anamnese, Pedro Simões destaca um novo e insólito personagem, a sua querida Ceará-Mirim, que o viu crescer e que será a sua terra de exílio quando sofre os contragolpes da vida. Natal, a capital potiguar, será citada incidentalmente, mais frequentes serão as referências às instituições natalenses das quais participou. Ceará-Mirim, ao contrário, tem sempre um lugar de destaque no texto, a cada vez que a deriva anamnésica de Pedro Simões o leva de volta à sua terra. Com certeza, ele poderia ser o autor de sucesso de um Guia Sentimental de Ceará-Mirim.

Pedro Simões e Ceará-Mirim são, portanto, os dois elementos que unem os fragmentos, permitindo identificar uma narrativa não explícita que dá uma unidade ao livro. Adicionando a isto a riqueza do texto, que de página em página nos faz admirar a qualidade da escritura, podemos afirmar, com toda convicção, que A Intriga do Bem é uma bela obra, de muito agradável leitura.

Edo de Natal