Por Jorge Henrique Bastos

Em Portugal, a exemplo das gerações surgidas na época das revistas Orpheu e Portugal Futurista, a década de 60 transformou-se no núcleo disseminador da modernidade que viria atuar sobre o rumo tomado pela poesia produzida naquele país. Tal década foi particularmente importante, tanto ao nível político-cultural, como no literário. Os fragores do Neo-realismo continuavam a provocar ciladas e os herdeiros do surrealismo aprimoravam suas vozes. O agrupamento conhecido como “Poesia 61” também despontara neste período, reinvindicava a sua independência e opunha-se à tendência torrencial dos surrealistas. Os poetas da década de 70 enveredaram por outros caminhos e reclamavam outras influências. No entanto, ambas gerações devem muito às antecessoras. A contenda serena entre tais grupos só beneficiou os poetas mais novos, embora a situação da poesia portuguesa atual não seja privilegiada. Antecipando o período de 60, e simultaneamente acompanhando-o, Herberto Helder conquistara o seu lugar e garantira a sua autonomia.

Nascido no Funchal, Ilha da Madeira, em 23.11.30,freqüentou o conhecido grupo do Café Gelo onde se reuniam Mário Cesariny, Antonio José Forte, José Vieira, entre outros. A publicação do primeiro livro O Amor em Visita dar-se-ia em 1958, três anos depois lança A Colher na Boca e Poemacto. A partir deste ponto, Herberto Helder construiu uma poética fascinante, dando início à desarticulação radical de toda a tradição da poesia portuguesa (ver nesta edição os poemas). Embora esteja ligado ao Surrealismo por desígnios meramente geracionais, o desenvolvimento da sua poesia demonstra que o caminho seguido distancia-se gradualmente dos postulados, revelando vias transversais de atuação e aprofundamento. Ao afastar-se deste alinhamento processual, o poeta norteia-se pela propulsão metafórica trabalhada simultaneamente com a minúcia da pesquisa e do estilhaçamento estilístico. A dispersão da escrita surrealista é substituída por uma voz encantatória. A fruição textual atinge o equilíbrio, mas o substrato que a mantém rege-se pelo ritmo turbulento e a opacidade concentrada: “E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua estiola,/ a paisagem regressa ao ventre, o tempo/ se desfibra – invento para ti a música, a loucura e o mar”. Ciente da polifonia articulada, a gnose poética assume a animalidade concreta e a normalidade animal, secundando-a pela retórica profunda que exigia Bedeulaire. A “inspiração tumultuosa “ do poeta deixa-se envolver por um movimento quase orgânico: “No entanto és tu que te moverás na matéria/ da minha boca, e serás uma árvore/dormindo e acordando onde existe o meu sangue”. O sistema desta poesia traceja poesia traceja uma órbita ascensional: volume, espaço e tempo são decompostos pela espessura da linguagem. Não existe tempo ou espaço para a criança, a mãe e a mulher, não há formas ou marcas, estão à deriva do não-tempo, tão voláteis como objetos indecifráveis: “ As crianças enlouquecem em coisas de poesia./Escutai um instante como ficam presas/no alto desse grito, como a eternidade as acolhe/enquanto gritam e gritam”. Mãe, criança e linguagem formam uma tríade incestuosa que o poeta representa e traduz numa poesia que fala sobretudo no feminino. A representação nasce envolta no erotismo violento, espelhando o envolvimento entre corpo, espírito e objeto e moldada na fulgurância platônica de onde esta poesia emerge: “As mulheres de ofício cantante que a deus mostram a boca e o ânus/ e a mão vermelha sobre o sexo”. A poesia é o sopro divino, a pronúncia da palavra primeva, a suspensão do pneuma universal: “- como si diz: pneuma,/ terrífica é a terra e no entanto nada mais do que um pouco: criar matérias -/ e depois, a nossos pés, constelações (…)/ faz um segredo, isso: cadeia/os artefactos;/ouro que trasborda,/e o mundo”.

A irredutibilidade desta poesia converge para a aglutinação total, transgredindo os cânones da tradição e ultrapassando as fronteiras. Poesia decisiva e órfã, a insubmissão de Herberto Helder é única na generalidade da literatura portuguesa.