Carlos Roberto de Miranda Gomes

Deu a louca no tempo – hoje 06 de janeiro, 49° aniversário do meu noivado. Já se vão três dias a menos no verão deste ano, castigado pela chuva intermitente, que não permite uma programação própria da época.

Ante à prisão involuntária concentro minha atenção na TV, rádio, livros e nas distrações caseiras de costume nas praias e, quando a chuva permite alguma trégua, a varanda enseja olhar a amplidão, com pouca esperança de estiagem completa.

Chamam-me a atenção os cajueiros, que se desfazem dos últimos frutos da safra, ainda bem formados e convidativos.

Aqui bem perto de mim, colados à cumieira da garagem, três deles desafiam a minha coragem. Mas, em que pese o incontrolável desejo de saboreá-los, os mais de 70 anos não conservam a força de arriscar uma excursão ao pé, mesmo sendlo de fácil acesso.

À falta de um ‘caridoso’ que os retire no momento, desisto, vou comprá-los na feirinha de Cotovelo com total segurança. Enquanto isso, me deleito com as bicadas de alguns passarinhos que se aproveitam dos frutos ainda no pendente da gravidade.

Ontem eu vi um pássaro diferente, plumagem azul e corpo acinzentado, lindo até demais. Não consegui definir sua estirpe, mas lembrei-me do último livro de Assis Câmara, quando fala do beija-flor, que por coincidência continuam, já em muitas novas gerações, visitando o sagrado jardim da minha casa – uma apoteose:

Entreabertas pétalas, perfumando o cio,

Exalam sedução nas nas cores, na beleza,

Chamando ao ritual da polinização.

Um passarinho pressente o desafio

Que lhe desperta o instinto – sua natureza,

Ao sentir, desse néctar, cheiro e atração.

Vibrando, sem cessar, fiel adorador,

O colibri, o menor pássaro do mundo,

Faz pouso em pleno ar, em busca do prazer.

No excitante bailado, viril navegador

(noventa vezes bate as asas por segundo),

Vai deflorar, com beijos, o seu bem-querer.

E colhe o quanto pode, esse ágil sedutor,

Fiel ao seu destino de ser Beija-Flor!

(O voo do beija-flor)

Começo a gostar do veraneio, apesar da chuva e do excesso de veículos que trafegam em debalada carreira.

À tardinha o cheirinho do pão de Dona Léa, uma visita rápida ao explendor do mar e o retorno feliz à nossa casa, para dar continuidade à labuta do veraneio 2011, sonhando com próximos dias de sol.

08/01/2011