Públio José – jornalista

(publiojose@gmail.com)

O silêncio é uma atitude estranha. Na maioria das

vezes, apresenta-se como demonstração de humildade, de submissão, de

renúncia. Em outras, deixa transparecer o verniz da covardia, da omissão.

Mas não deixa de ser um comportamento contraditório, polêmico até. Jesus,

por exemplo, deu conotações edificantes ao silêncio. Utilizando-se dele,

deixou Pilatos maravilhado e seus acusadores totalmente desnorteados, sem

terem o que dizer. Calado, ele eternizou um momento em que o esperado, de

sua parte, era que falasse, argumentasse, se defendesse das acusações

injustas que lhe imputavam. Do episódio saiu engrandecido. O seu silêncio

rasga os séculos até os dias de hoje como elemento de sabedoria, de

renúncia, de negação de si mesmo. Já outros personagens… Estes, pelo

silêncio, fugiram do desconforto de falar e deram péssimo testemunho com

essa atitude.

Um livro de um escritor cristão trata do assunto de

forma interessante. Com o título “O Silêncio de Adão”, ele trata da

paralisia cerebral e da inércia comportamental que acomete a grande maioria

dos homens nos cruciais momentos de decisão. E constata que duas atitudes se

destacam no universo masculino. A primeira delas é o silêncio simplesmente.

Covarde, omisso, pegajoso – e, o que é pior, contagiante. Acontece na

ocasião em que se faz necessária a prática do falar em defesa de uma causa,

em defesa de alguém e – para não se prejudicar – o homem foge, se cala, se

omite. A segunda atitude se traduz na incorporação, pelo homem, da figura do

machão, que, não tendo o que falar, não tendo destreza mental para

argumentar, opta pelo clássico gesto de usar da violência, de esmurrar a

mesa. Em ambas as situações ele dá adeus ao diálogo e fecha a porta ao

desabrochar de uma nova realidade.

Com este enfoque, “O Silêncio de Adão” trata, enfim,

da inclinação histórica que o homem vem apresentando através dos tempos para

fugir de suas responsabilidades. O primeiro grande exemplo que o livro

apresenta é o de Adão. Sim, o Adão da Bíblia, o primeiro homem. Pela

narrativa bíblica, Deus fez de Adão o detentor de todo o plano divino para a

humanidade. Só exigiu que Adão e Eva, ela criada posteriormente, não

comessem da árvore do bem e do mal. A exigência foi feita especificamente a

Adão. Certamente já sabendo disso, a serpente procura Eva para tentá-la na

desobediência a Deus, convencendo-a a comer do fruto da árvore. O

interessante é que Adão estava presente ao episódio e em nenhum momento se

pronunciou contrário ao assédio da serpente a Eva. Fez pior. Além de se

omitir, de se calar, concordou com a mulher e comeu do fruto da árvore

proibida.

Porque Adão de calou? Porque não esbravejou contra a

invasão da serpente ao território mental de Eva, terreno que, pelas

instruções claras de Deus, teria que preservar? Ao que tudo indica, Adão se

curvou ao auditório constituído tão somente de duas pessoas, ao invés de

argumentar com as instruções das quais era possuidor. Também através de

outro exemplo bíblico, o livro mostra um homem que se utilizou da

truculência para resolver uma situação que tinha tudo para ser equacionada

pelo diálogo. Trata-se de Caim, o assassino de Abel. Na narrativa bíblica

consta apenas um convite de Caim a Abel para irem, juntos, ao campo. Lá, o

ele matou o irmão sem dar nenhuma chance ao diálogo. Foi a típica atitude de

quem, não tendo disposição para se utilizar da fala, preferiu dar “um murro

na mesa” para deixar bem claro que o mais forte fisicamente tinha o controle

da situação. Será?

Esse comportamento também pode ser facilmente

observado nos dias de hoje. No casamento, então, nem se fala. Quantos lares

desfeitos, destruídos pela fuga, pela covardia, pela indisposição de falar,

de dialogar, de enfrentar, da parte do homem, situações de conflito. Pelo

exemplo de Adão, nessas ocasiões, só resta, ao universo masculino, duas

soluções: ou se cala, se omite e vai embora, consumando a separação, ou dá

um murro na mesa e vence a situação pela truculência, pela violência, pela

lei do mais forte. E vence? Será vitorioso um homem que só sabe resolver

suas questões pela violência, pela força? Essa, lamentavelmente, é a herança

que o primeiro homem nos deixou. Como antídoto, temos a herança que o

segundo homem nos legou, Jesus. Este sim, o Adão perfeito. Que tal

conhecê-lo, para passar a praticar o silêncio que edifica e a fala que

constrói?