O maior ritmista do país

William Costa

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No dia 31 de agosto de 1919, nascia em Alagoa Grande, no Brejo Paraibano, José Gomes Filho, primogênito do

casal formado pelo oleiro José Gomes e a cantora de coco Flora Mourão, cujo codinome, Jackson do Pandeiro, marcaria para sempre a história da música popular brasileira.

Jackson do Pandeiro é considerado não só o artista de recursos vocais sofisticados, de jeito alegre e malandro, mas o maior ritmista do país. Junto com o pernambucano Luiz Gonzaga, cantou a realidade do povo pobre do Nordeste e foi, nas décadas de 50 e 60 do século passado, um ídolo nacional.

No tempo em que sua fina e negra estampa brilhava nos palcos do país, principalmente os do Rio de Janeiro, fez o povo esquecer a tristeza advinda da vida difícil, cantando os sucessos eternizados nos discos que gravou nas cinco gravadoras pelas quais passou, em cinquenta e quatro anos de carreira.

Ouvindo-o nos shows ao vivo, nos discos, pelas ondas do rádio e, posteriormente, pela tela da televisão, o povo dançou ao som contagiante de músicas como 17 na corrente, Coco do Norte, O velho gagá, Vou ter um troço, Sebastiana, O canto da ema e Chiclete com banana.

A história da sua carreira artística reforça a herança da influência negra na música nordestina – via cocos originários de Alagoas – que lhe permitiu sempre com o auxílio de um pandeiro na mão se adaptar aos sincopados sambas cariocas e à música de carnaval em geral.

Jackson do Pandeiro fez escola, influenciando artistas e movimentos. Entre os seus inúmeros devotos figuram artistas de épocas e estéticas as mais diversas, como Gilberto Gil e Alceu Valença, João Bosco e Zé Ramalho, Chico Buarque e Lenine, Raul Seixas e Gabriel, o pensador.

Que o diga Badu, produtor e músico do Clã Brasil, de João Pessoa, um dos grupos assumidamente “jacksoniano”. “Jackson era afinadíssimo, cantava brincando, e um grande ritmista. Ele e Luiz Gonzaga, à época, eram verdadeiros heróis. Jackson é a nossa referência técnica”, destacou.

Homenagens – Uma série de homenagens pelos 90 anos de nascimento de Jackson do Pandeiro estão sendo realizadas no município de Alagoa Grande, terra natal do artista, nesta segunda-feira, promovidas pelo Governo do Estado, através do jornal A União, a Prefeitura Municipal de Alagoa Grande e Associação Cultural e Recreativa Anjo Azul. Shows musicais, exposições de artes plásticas e artesanato, espetáculos de teatro, visitas ao memorial e oficinas são os principais eventos da programação.

Discografia básica:

- Sua majestade o rei do ritmo

(Colúmbia, 1954)

- Jackson do Pandeiro

(Colúmbia, 1955)

- Forró do Jackson

(Colúmbia, 1956)

- Os donos do ritmo

(Copacabana, 1958)

- A tuba de muié

(Copacabana, 1961)

- O cabra da peste

(Copacabana, 1963)

- Sina de cigarra

(CBS, 1972)

- Se tem mulher tô lá

(Chantecler, 1974)

- Um nordestino alegre

(Chantecler, 1976)

- Nossas raízes

(Chantecler, 1979)

- Isso é que é forró

(Polygram, 1981)

Da zabumba ao pandeiro

José Gomes Filho estreou na música tocando zabumba para acompanhar os cocos cantados pela mãe, Flora Mourão, mas o pandeiro (desculpe a rima) era sua grande vocação. De Alagoa Grande migrou para Campina Grande, João Pessoa (onde “pegou” o apelido, inspirado no ator Jack Perry) e Recife.

O forrozeiro Antônio Barros, em entrevista, contou que conheceu Jackson no Recife, no início dos anos 50, quando ambos tocavam pandeiro: o primeiro, na Rádio Clube de Pernambuco; o segundo, na Rádio Jornal do Commercio. “Ele cantava sambas ao meio-dia, na linha do que fazia Jorge Veiga”, lembrou.

A sorte sorriu para Jackson, segundo Antônio Barros, quando Edgar Ferreira e Rosil Cavalcanti apresentaram, respectivamente, ao paraibano dois xotes que se tornariam históricos: Forró em Limoeiro e Sebastiana. “Ele começou a cantá-los, a brincar no palco, e a coisa foi pegando fogo”, afirmou.

Antônio Barros disse que Copacabana tinha um escritório no Recife. Ouvindo Jackson na Rádio Jornal do Comércio, os representantes da gravadora carioca o procuraram com uma proposta de levá-lo para o Rio de Janeiro. “Viajar de avião, Deus me livre”, teria dito o artista.

“Mas o prestígio e a teimosia de Jackson eram tão grandes – ressaltou Antônio Barros -, que o pessoal da Copacabana gravou com Jackson na própria capital pernambucana, no auditório da emissora, levando a gravação para o Rio. Foi uma coqueluche; todos os artistas queriam conhecê-lo”.

Pouco tempo depois, não só Jackson e Almira Castilho (com quem era casado até 1967, mas também Antônio Barros desembarcavam no Rio. “Eu não tinha para onde ir e fui morar com ele e Almira. Jackson fazia um sucesso danado. Baião do bambolê foi a primeira música que dei a ele”, frisou.

Viúva diz que a saudade não passa

1967. A baiana Neuza Flores dos Anjos saiu do bairro de Ipiranga com destino certo, o bairro de Belenzinho, onde o seu ídolo Jackson do Pandeiro realizaria novo show na capital paulista. Apresenta-se a ele como fã e recebe uma proposta para jantar e “beber alguma coisa”. Dali a dois anos, casavam-se.

“O encontro – relembrou Neuza, que hoje mora em João Pessoa -, foi no forró de Pedro Sertanejo, pai do sanfoneiro Oswaldinho. Saímos do show às quatro horas da manhã e ele me levou em casa, cumprindo a promessa de pedir a minha mão aos meus pais”.

Neuza chegou a cantar e dançar com Jackson no palco, e estava em Brasília acompanhando o artista, quando ele adoeceu e morreu. “Como marido, era uma excelente pessoa. Carinhoso, humilde… um amor. Como artista, era um dos maiores do Brasil”, comentou.

Para Neuza, o tempo passa, mas a lembrança dos “bons tempos” compartilhados com Jackson jamais arrefeceu. “Éramos felizes. Ele era muito bom. Até hoje sinto muita saudade, muita saudade, mesmo. A saudade nunca passa; acalma, mas não passa”, confessou.

Fonte: Diario de Pernambuco

FALA JACKSON

” Eu não queria ser quinto ou quarto baterista. Por causa do suingue, um fox meio ligeiro que tinha antigamente, eu deixei de tocar bateria.Eu queria ser um baterista que todo mundo se admirasse. Eu toda vida gostei de ser assim. Não gostava de ser o último lugar. Eu gostava de ser de segundo pra primeiro, e tal. Então era um baterista que só gostava de tocar a nossa música. Então abandonei e fui treinar um pouquinho de pandeiro. E sempre cantando. Cantando samba, cantando marcha de arrasta-pé, cantando coco, essa coisa toda”.

“Na época eu brincava de artista, naquele tempo do cinema mudo. Então tinha aquele pessoal do faroeste, e todo menino fazia suas quadrilhas, de índio, de chefe de quadrilha, de bandido, e eu era então o Jack Perry. Comprei um chapelão de palha, um revólver de madeira, e a gente brincava&”133; Depois fui crescendo, tinha que ajudar minha mãe a dar de comer à moçada e tive que trabalhar. Parei com a brincadeira mas fiquei com o nome Jack, só J-a-c-k. Comecei a tocar pandeiro e os caras: “- Comequié, e aí, Jack, Jack do Pandeiro&”133; Fiquei sendo Jack do Pandeiro.”

PRÊMIO SHARP

O conselho do Prêmio Sharp de Música – formado por José Maurício Machline, Gilberto Gil, Rita Lee, Julio Medaglia, Paulo Moura, Dorival Caymmi e Zuza Homem de Mello – foi unânime em escolher o Jackson do Pandeiro como o principal homenageado do prêmio em 1998.

No dia 13 de maio de 1998 foi feita a entrega deste prêmio, um dos mais importantes do país, a este artista que dedicou toda a sua vida à música da sua terra, tendo influenciado com seu trabalho os grandes nomes da música brasileira. Abaixo, os depoimentos dos artistas sobre Jackson.

A IMPORTÂNCIA DE JACKSON

Gilberto Gil:

“A influência de Jackson do Pandeiro na música brasileira é profunda, fundamental. Ele é um dos grandes mestres da música nordestina, vista como esse grande projeto que se instalou na música brasileira a partir dos anos 50, primeiro com Luiz Gonzaga, que foi o primeiro grande codificador, o homem que trouxe os elementos da música nordestina para a música popular, para o disco, para o rádio, para os palcos das praças do Brasil. Mas Luiz Gonzaga faz isso ainda com a vertente ortodoxa, rural, com a paisagem do campo, típica, diferenciada da cidade, os elementos, os valores, o conservadorismo, a moral.

Jackson do Pandeiro já é Campina Grande. Jackson já é o samba no norte, já é Copacabana no Nordeste Brasileiro, já é o chiclete com banana, como ele próprio cantava. E ele já trazia no seu modo de cantar, na forma de dividir, na pronúncia, na articulação da palavra, na gíria, na insinuação do ritmo e da emissão vocal, ele já trazia esse sentimento cosmopolita que Campina Grande tem, essa vontade, esse anseio de ser Nova Iorque, essa característica de entreposto, de eixo, de carrefour, de cruzamento do Nordeste. Campina Grande, cidade que recebia afluxos de todas as regiões, a cidade da feira, a cidade do mercado, a cidade do negócio, a cidade onde tudo se troca e tudo se vende, onde tudo tem valor e nada tem valor, já símbolo da modernidade, essa efervêscencia, essa volatilidade, essa capacidade de tudo ser e de tudo não ser ao mesmo tempo, típico do cosmopolitismo que Campina Grande tem, e que aparece na música de Jackson do Pandeiro com a quela manemolência, aquela malandragem.

Eu diria que Jackson é o grande malandro do nordeste da música popular. Ele é o Moreira da Silva, o samba de breque da música nordestina&”133;”

Entrevista ao jornalista Rômulo Azevedo da TV Paraíba.

DEPOIMENTOS

Os depoimentos seguintes foram reproduzidos de matéria publicada pelo jornalista Tom Cardoso no jornal O Estado de São Paulo, em 11 de agosto de 1997.

João Bosco:

“Sempre fui fascinado por ele. A gente tinha um projeto de fazer vários shows juntos pelo País, mas acabou não dando certo por causa da falta de grana. Tive a oportunidade de dizer ao Jackson o quanto admirava o seu trabalho. Gravei uma música em homenagem a ele – Batiumbalaio – Rockson do Pandeiro. Coloquei Rockson porque achava que o som dele tinha muito de rock-and-roll. O samba de Jackson já vinha com bebop. Acho que a música dele tem de ser mais divulgada, principalmente para os músicos mais jovens. Fico imaginando como ficaria maravilhoso esses grupos de rock pauleira gravando com influência do coco de Jackson.”

Alceu Valença:

“Quando criança, ouvia muito Jackson do Pandeiro nos altos-falantes da feira de São Bento. A música dele é a trilha sonora da minha infância, tem cheiro de fumo de rolo. Talvez eu tenha sido o músico que mais se aproximou de Jackson no fim de sua carreira. Viajei o Brasil inteiro com ele em 1977, com o Projeto Pixinguinha. Depois dessa excursão, fiquei deslumbrado e resolvi compor o meu primeiro forró: Coração Bobo. É uma pena, hoje em dia, ele não ter sua obra reconhecida como Luís Gonzaga. O Jackson era menos articulado, ingênuo… Não soube fazer os contatos que o mestre Lua fez. Costumo sempre dizer que o Gonzagão é o Pelé da música e o Jackson, o Garrincha.”

Zé Ramalho:

“Fui muito influenciado por Jackson. Tinha uma grande voz, era uma espécie de João Gilberto do forró. Fiz um show ao lado dele em 1976, no Teatro João Caetano, no Rio, e fiquei impressionado com o ritmo e a energia dele em cima do palco. O sobrinho dele, o José Gomes, que herdou o nome do tio, toca pandeiro na minha banda há muito tempo.”

Moraes Moreira:

“Ele encarnava toda aquela coisa da música nordestina, o ritmo, a energia e o suingue. É claro que fui influenciado pelo trabalho dele, aliás acho que todos os músicos da minha geração também foram. Era um grande cantor e um excelente tocador de pandeiro. Jackson interpretando Chiclete com Banana é simplesmente maravilhoso. Outro dia cantei Sebastiana numa festa de São João e foi um sucesso. Pretendo gravar mais músicas de Jackson nos meus próximos discos.”

Chico César:

“Ele está, para mim, no Olimpo da música brasileira. Reinventou o samba e o coco. Eu, João Bosco e Lenine somos herdeiros dele. O Jackson era um cara que tinha um jeito superbrasileiro e autêntico de cantar.”

Elba Ramalho:

“Na minha opinião existem duas escolas de canto no Brasil: a de João Gilberto e a de Jackson do Pandeiro. Eu tive o privilégio de conviver com Jackson e ser amiga dele. Foi o meu grande professor ao lado do Gonzagão. Os dois sempre gostaram muito do meu trabalho. O Jackson tocou em quase todos os meus primeiros discos.”

Aldir Blanc:

“Se algum músico pode ser chamado de seminal no Brasil é Jackson do Pandeiro. Ele foi o ponto de partida e uma referência para muitos músicos que estão hoje aí. Os meus dois parceiros, Guinga e João Bosco, são um exemplo disso. Eles foram influenciados diretamente pelo trabalho de Jackson, que, além de ótimo músico, era um extraordinário letrista. Aliás, estou escrevendo a letra para uma música que o Guinga me mandou em homenagem a ele. Vai chamar-se Influência de Jackson.”

Guinga:

“É impossível um compositor que ame a música brasileira não ter o trabalho de Jackson como referência. Eu tenho uma relação muito forte com a música dele. Lembro-me de que quando era criança ia passar férias numa pequena casa de pescador, numa cidade do litoral do Rio. A casa não tinha luz elétrica e a diversão dos adultos era jogar baralho e a dos garotos, ouvir músicas do Jackson, que o meu pai punha para tocar numa vitrola de manivela. Depois, já profissional, encontrei-me diversas vezes com ele em estúdio. Ficava admirado olhando aquela figura humilde, simples, que não tinha muita noção de sua genialidade…”

Tom Zé:

“O meu último disco foi dedicado ao Jackson do Pandeiro. No Nordeste, os três principais alimentos são a farinha, a carne-seca e o ritmo, que é um verdadeiro deus e Jackson o nosso sacerdote. Temos hoje essa malandragem rítmica porque ouvimos muito Jackson quando éramos crianças. Outro dia fiz uma música para um artista de São Paulo e ele não conseguia cantar direito. Não sabia dividir o canto como a gente. Faltou a ele a escola de Jackson do Pandeiro.”

Fonte: Jackson do Pandeiro