A entrada de 2011 culmina na comemoração do centenário (30 de outubro de 2010) do poeta comunista espanhol Miguel Hernández, que envolveu uma infinidade de atos de todo tipo (concertos, conferências, recitais poéticos, teatro, dança, congressos, etc.) que foram celebrados e tiveram uma dimensão universal.

Por Mario Amorós*, no Rebelión – Tradução: José Carlos Ruy

Miguel Hernández (1910-1942)

Em pelo menos outros 22 países ocorreram atividades em memória do autor de El rayo que no cesa, da Argentina à Hungria, ou das Filipinas à Rússia. Um dos mais notáveis e plenos de significado ocorreu na luminosa manhã de 18 de setembro, no parque Dolores Ibárruri de San Fernando de Henares (Madri, Espanha) durante a festa anual do Partido Comunista da Espanha. Ali, diante de milhares de pessoas, o secretário geral do PCE, José Luis Centella, entregou a Lucía Izquierdo a caderneta comunista de 2010.

“É uma imensa honra receber esta caderneta e vamos cuidar dela como de um tesouro. Estamos muito orgulhosos de que Miguel Hernández pertencesse ao PCE”, disse a nora do poeta nascido em Orihuela (Alicante, Espanha) em 30 de outubro de 1910.

Com aquelas palavras Lúcia Izquierdo destacava um fato central na biografia de Miguel Hernández, mas muitas vezes marginalizado ou silenciado: seu compromisso com a defesa da II República se deu dentro das fileiras do PCE, ao qual se filiou no verão de 1936, e a partir de seu lendário Quinto Regimento das Milícias Populares, como mostra a caderneta reproduzida na exposição Miguel Hernández 1910-2010.

Da mesma forma que dezenas de milhares de jovens e trabalhadores, ele se uniu ao Partido Comunista para defender a legalidade democrática da II República e o programa da Frente Popular, votado majoritariamente pelo povo nas eleições de 16 de fevereiro de 1936, contra o golpe de estado fascista.

O Partido Comunista da Espanha também dedicou a Miguel Hernández um valioso número monográfico de sua revista teórica, Nuestra Bandera (na qual o poeta também colaborou em 1937 com vários artigos escritos desde a frente de batalha), com trabalhos, entre outros, de Marcos Ana, Armando López Salinas, Enrique Cerdán Tato, José Carlos Rovira e Marta Sanz e uma bela capa especialmente desenhada por Juan Genovés a partir dos versos de Hernández: “Alba que dás a mis noches un resplandor rojo y blanco”.

A Fundação de Pesquisas Marxistas e a editora El Páramo publicaram o livro Miguel Hernández. La voz de la herida, uma biografia que analisa em profundidade sua evolução política. Seus autores, David Becerra y Antonio J. Antón, apresentam o poeta como militante comunista e recordam que no presídio de Ocaña um grupo de falangistas (a direita fascista espanhola; entre eles Ernesto Jiménez Caballero) o visitou e lhe oferecem a liberdade em troca de sua conversão ideológica.

O destino de Miguel Hernández esteve ligado à sorte trágica da II República. Na frente de batalha escreveu e declamou poesias, cavou trincheiras, animou as soldados do Exército Popular, redigiu artigos para a imprensa republicana…

Sua poesia refletiu inicialmente a esperança e a luta (como, por exemplo, Viento del pueblo). Entretanto, pouco a pouco foi acolhendo o pressentimento da derrota (El hombre acecha). Em março de 1939, com a crise política em Madri originada pela traição do coronel Casado, Besteiro e seus partidários, que decretaram a perseguição aos comunistas e aceleraram a derrota da II República, recusou a proposta de seu amigo Pablo Neruda de asilar-se na embaixada do Chile e decidiu mudar-se para Portugal [entre 4 e 12 de março de 1939 o Coronel Segismundo Casado dirigiu um golpe de estado anticomunista contra o governo da II República e tentou uma negociação com os fascistas dirigidos por Francisco Franco; sem resultado, exilou-se na França, precipitando o fim da república e a vitória fascista – nota da redação].

Em Portugal, em maio, Hernández foi preso pela polícia de Antonio Salazar e entregue às forças franquistas. Passou por várias prisões e obteve a liberdade em setembro mas, voltando a Orihuela, foi detido outra vez e novamente percorreu a geografia penitenciária: Conde de Toreno (Madrid), Ocaña, Palencia y Alicante. Em janeiro de 1940 foi condenado à morte por incorrer no sarcasmo franquista do “delito de adesão à rebelião”, embora a pena capital tenha sido comutada depois para trinta anos de prisão.

Em Ocaña se negou a aceitar a proposta daquele grupo de falangistas. Em 27 de novembro de 1940 brindou de maneira simbólica com seus camaradas naquela prisão, levantando o punho clandestinamente, “pela felicidade deste povo, por aquilo que mais se aproxima da felicidade coletiva”, na modesta homenagem que lhe prestaram.

Doente de tuberculose, Miguel Hernández faleceu em28 de março de 1942 no Reformatório de Adultos de Alicante, sem ter completado 32 anos de idade. Clandestinos durante quatro décadas, seus versos conseguiram derrotar a censura franquista e acompanharam a luta pela liberdade, pela democracia e pela anistia aos presos políticos. Hoje, sua poesia é universal e, se as Nanas de cebolla que escreveu na prisão são os versos mais comoventes que um pai possa dedicar a seu filho, boa parte de sua produção poética, incluídas algumas de suas obras mais emblemáticas, como Viento del Pueblo, não pode ser desligada de seu firme compromisso político, de seus ideais comunistas.

Nestes tempos de ofensiva implacável contra a democracia, sua poesia, sua luta, seu sacrifício, sua memória, nos chamam a sair à rua outra vez, para proclamar que não somos “un pueblo de bueyes”, que somos “un pueblo que embargan yacimientos de leones, desfiladeros de águilas y cordilleras de toros con el orgullo en el asta”.

Porque como Miguel Hernández escreveu na dedicatória a Vicente Alexa ndre de uma de suas obras mais importantes: “Os poetas somos vento do povo: nascemos para passar soprados através de seus poros e conduzir seus olhos e seus sentimentos até os cimos mais formosos”.

* Mario Amorós é historiador e jornalista

Poemas de Miguel Hernández

O sol, a rosa e o menino

O sol, a rosa e o menino

flores de um dia nasceram.

Os de cada dia são

Sois, flores, meninos novos.

Amanhã não serei eu:

outro será o verdadeiro.

E não serei mais além

de quem queira sua lembrança.

Flor de um dia é a maior

ao pé do mais pequeno.

Flor da luz relâmpago,

e flor do instante o tempo.

Entre as flores te fostes.

Entre as flores fico.

A minha Josefina

Tuas cartas são um vinho

que me transtorna e são

o único alimento

para meu coração.

Desde que estou ausente

não sei senão sonhar,

igual que o mar teu corpo,

amargo igual que o mar.

Tuas cartas apaziguo

metido em um canto

e por redil e pasto

Dou-lhe meu coração.

Ainda que baixo a terra

meu amante corpo esteja,

escreve-me, pomba

que eu te escreverei.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Ventos do Povo(1937)

Ventos do povo me levam,

ventos do povo me arrastam,

esparzem-me o coração

e a garganta me arejam.

Os bois dobram a frente,

impotentemente mansa,

perante os castigos:

os leões erguem-na

e ao mesmo tempo castigam

com sua esplêndida pata.

Não sou de um povo de bois

mas de um povo impedido

por jazidas de leões,

desfiladeiros de águias

e cordilheira s de touros

com o orgulho nas hastes.

Nunca medraram os bois

nestes páramos de Espanha.

Quem falou em pôr um jugo

no pescoço desta raça?

Quem já pôs ao furacão

algum dia jugo ou laço,

ou quem o raio deteve

prisioneiro numa jaula?

Asturianos de bravura,

bascos de pedra blindada,

valencianos de alegria

e castelhanos de alma,

lavrados como a terra

e airosos como asas;

andaluzes de relâmpagos,

nascidos entre guitarras

e forjados na bigorna

torrencial das lágrimas;

estremenhos de centeio,

galegos de chuva e calma,

catalães de firmeza,

aragoneses de casta,

murcianos dinamite

espalhada como fruta,

leoneses, navarros, donos

da fome, do suor e da acha,

reis do minério,

senhores da lavoura,

homens que entre raízes,

como raízes galhardas,

ides da vida à morte,

ides do nada ao nada:

um j ugo vos quer pôr

gente da erva ruim,

jugo que haveis de deixar

desfeito nas suas costas.

Crepúsculo dos bois

vem despertando a aurora.

Os bois morrem vestidos

de humildade e cheiro da corte:

as águias, os leões

e os touros de arrogância,

o céu por trás deles

nem se turva nem se acaba.

A agonia dos bois

apresenta cara pequena,

a do animal macho

engrandece a criação.

Se hei-de morrer, que morra

de cabeça bem erguida.

Morto mil vezes morto,

a boca colada ao chão,

hei-de ter os dentes cerrados

e a barba bem cortada.

Cantando espero a morte

pois há rouxinóis que cantam

acima das espingardas

e no fragor da batalha.

(Tradução de Albino M.)

COM UM ABRAÇO FRATERNO DO AMIGO ANTONIO CAPISTRANO