Na vastidão do horizonte inalcançável o eu repousa no silêncio insondável, onde, na tarde vazia, busco o aconchego das leituras novas e das releituras de textos, frases, poemas ou simples palavras, como as trocadas nas Cartas entre Cascudo e Mário de Andrade.

Vejo, então, que o tempo não altera o enlevo da alma, fazendo num só instante o encontro de gerações.

Desafiou-me o Poeta: – o que é mais belo?

O instante em que o pássaro alça voo

Ou aquele em que, suavemente pousa?

(Assis Câmara, Desafio – Destino dos Pássaros, p. 23)

A resposta não ouso proferir – prefiro a dúvida, como confessada por outro Poeta:

A missão da poesia

é revelar o amor.

Desilusão de pedra se desfaz

Se a palavra boa e bela penetra

o mármore

em ondas de calor.

A utilidade da poesia é revigorar a alma

por obra e graça de lábios

que sopram a vida

à transitória flor.

(W.D.Cavalcanti, Canova – Adiantamento da Legítima, p. 134)

Debruço-me e em êxtase de um momento, resgato o pulsar de um pensamento proclamado num passado bem distante:

Deixa o teu vulto esparso, alvo e dormente,

Tremer de frio, ó juriti da mata,

Pois vou fazer dos beijos a cascata

Em que te hás de embeber gostosamente.

(Abner de Brito, Enterro do Pecado – Belle Époque na esquina, TG, p. 197)

Esses devaneios chegaram no sentir da brisa, quando a tarde adormecia em sua claridade solar.

Estanco. Amanhã será outro dia para a praticagem do impossível em que sugere o mesmo Poeta W.D.Cavalcanti, e,

Retorno à ilha

como as próprias águas navegadas

que já me aguardam em outras margens

- transformadas.

_____________________

* Carlos Roberto de Miranda Gomes – escritor/veranista